Luís Gouveia Andrade
Médico Oftalmologista
Grupo Lusíadas Saúde
Director Geral da InfoCiência

Maio de 2020-Maio de 2021: Não Me Apetece Falar Sobre Este Ano…

05/05/2021 | Opinião

Escrevi a minha primeira contribuição neste jornal no dia 3 de Maio. Este é o décimo segundo texto, o que dá uma média de um texto mensal.

Gosto de escrever, adoro escrever, mas não gosto de o fazer apenas porque sim. Gosto que a escrita venha de dentro, estimulada por um pensamento ou um acontecimento, gosto que ela peça para sair, que ela exija sair, e que eu lhe obedeça.

Neste caso, neste décimo segundo texto para um projecto que abracei sem hesitar desde o primeiro instante, o estímulo, o mote, é a celebração deste primeiro aniversário, vivido num contexto particularmente indescritível.

Quando escrevi o primeiro texto estava em casa sem trabalhar, sem trabalho, com os hospitais privados fechados, limitando-se a escassas teleconsultas e actos de urgência. Estava assim desde dia 18 de Março e só voltei a um ritmo parcialmente normal no dia 18 de Maio, dois meses depois. E, durante esses dois meses, não sabia quando iria recomeçar. Ninguém sabia, na verdade.

Durante esse tempo, mantive a minha rotina de exercício físico, li mais, escrevi mais. Aderi às plataformas de videoconsulta para estar próximo dos doentes que de mim precisassem. Contribui para a base de dados do Grupo Lusíadas com recursos científicos sobre a infecção por SARS-Cov-2. Escrevi alguns textos, poucos, sobre o tema.

Preocupei-me comigo, com os que me estão próximos, com o Mundo em geral.

A partir de 18 de Maio retomei o trabalho mas não retomei a vida que tinha. Nenhum de nós a retomou, sob o jugo do confinamento, das máscaras, da distância, sob o fluxo torrencial, asfixiante e, sobretudo,  gerador de pânico da informação veiculada pela comunicação social. Essa informação perdeu o norte e passou a viver sem rumo, sem critério, sem nada. Alguns exemplos, da minha memória: “um tigre no jardim zoológico está infectado pela covid”. “a autópsia de George Floyd revelou que era positivo para SARS-Cov-2”. Podia encher páginas com estas pérolas jornalísticas.

Deixei de ouvir e ver notícias. Passei a ver filmes da Disney durante o jantar. Fantástico rever “A Bela e o Monstro”, “Hércules”, “Rei Leão”, a saga dos “Toy Stories”…

As pessoas mudaram, a ansiedade e a depressão agravaram-se ou instalaram-se. O medo, a desconfiança, a agressividade, a intolerância vieram ao de cima.

E ainda estamos nesse ponto. Na semana passada, um doente meu foi ter comigo dizendo que deixou de ver de um dos olhos em março do ano passado mas só agora me procurou porque tinha medo de sair de casa. Não sei se conseguirei reverter as lesões entretanto instaladas…

A informação foi mal gerida. E a desinformação, como sempre, ganhou terreno. As “fake news” tiveram aqui o seu momento de glória, com as teorias mais espantosas, dignas de um filme de Hollywood. E os adeptos, ferrenhos, não desarmam até hoje.

Morreram muitas pessoas, embora a contabilidade seja ainda pouco clara nos seus critérios.

A Ciência reagiu rapidamente pela necessidade, pela urgência, mas também porque muitos dos pilares estavam já bem fundados.

O meu mundo está diferente. O vosso também. Não sei quando irei dar um aperto de mão a um doente ou beijar uma criança. Receio ser mal interpretado e não sei quando isso irá mudar.

Sofro com o sofrimento dos que perderam familiares, dos que estiveram gravemente doentes, dos que perderam o emprego, o negócio de uma vida, dos que ficaram sem futuro.

A nossa relação com os microrganismos é de sempre. Os que vivem fora de nós e os que habitam em nós. Por vezes, essa relação torna-se mortífera, pela gravidade da infecção e/ou pela sua contagiosidade.

O que aconteceu poderá repetir-se porque não existe modo de o impedir ou de o prever e um dos desafios será saber como reagir sem paralisar o mundo como agora se fez, colocando sofrimento em cima de sofrimento, pobreza em cima de pobreza, segmentando doenças e definindo artificialmente prioridades. Neste caso, covid versus tudo o resto… Não faz sentido. Não pode acontecer.

Sei que tive sorte. Não fiquei doente. Quem está próximo de mim também não. Não fiquei sem trabalho. Não me posso queixar, embora não goste destes tempos. Mas com tantas pessoas piores do que eu, nem me atrevo a fazê-lo.

Por isso disse que não me apetecia falar deste ano. Ainda por cima, ele teima em prolongar-se e arrastar-nos por mais uns tempos (quantos?..) sem viajar, sem nos vermos, sem nos tocarmos. As cicatrizes serão enormes, por dentro e por fora. A reconstrução económica, física e emocional será longa e penosa.

Fica a esperança de que, enquanto sociedade, aprendamos novos modelos de reacção, moldemos alguns dos nossos hábitos, respeitemos mais a natureza, o meio ambiente e os nossos semelhantes. Que sejamos mais unidos, que valorizemos o que a vida nos dá e que aprendamos novas formas de lidar com o que é novo e com o que é estranho.

O HealthNews foi um dos filhos desta crise, tendo nascido no olho do furacão. É um orgulho fazer parte desta equipa, onde diariamente se defende a informação, a liberdade editorial e se procura o rigor e a verdade.

É, portanto, uma das razões pelas quais apetece falar sobre este ano.

E por esse motivo o fiz.

 

 

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