Professor Doutor Manuel Carrageta Presidente da Fundação Portuguesa de Cardiologia

Correr pela sua saúde e pela Fundação Portuguesa de Cardiologia

09/27/2021

Os portugueses são o povo da União Europeia que infelizmente se destaca em todos os inquéritos por ser aquele que pratica menos atividade física, talvez porque ainda não assumiu a forte relação que existe entre o exercício, a saúde e o bem-estar.

No tempo dos nossos avós, poucos frequentavam os ginásios ou faziam marchas diárias nos tempos livres, mas em contrapartida, tinham uma vida física ativa preenchida pelas atividades diárias da sua profissão, em que, nomeadamente, os trabalhos agrícolas exigiam o desenvolvimento de esforço físico considerável.

O progresso tecnológico, com o advento da automação, do computador e dos transportes, mudou o estilo de vida das populações que se tornaram sedentárias e passam o dia sentadas a trabalhar ou a assistir a espetáculos. Os tempos livres das crianças e dos jovens, em vez de ser direcionados para as brincadeiras da sua idade, atividades desportivas e de ar livre, são passados à frente do computador ou da televisão. Este componente do estilo de vida dado à passividade é um dos principais responsáveis pela epidemia de obesidade e diabetes que grassa no nosso país.

Devemos ter presente que a inatividade física é uma das mais importantes causas de doença e de morte no mundo moderno. Em contrapartida a atividade física regular ajuda a controlar o peso e aumenta a “saúde” do aparelho cardiovascular, dos pulmões e do aparelho músculo-esquelético e até previne alguns cancros, nomeadamente o cancro da mama e do colon.

A atividade física regular reduz o risco de ataques cardíacos em mais de 30%, um benefício que pode ser comparável, por exemplo, ao obtido com a terapêutica redutora do colesterol. Uma das razões é por melhorar o perfil lipídico, com descida do colesterol total e das LDL, dos triglicéridos e aumento do colesterol das HDL.

Outra das razoes é que a atividade física regular é uma das melhores maneiras de descer a tensão arterial, particularmente em indivíduos com hipertensão arterial ligeira. Em média, a prática regular de atividade física aeróbia baixa a tensão arterial sistólica, em cerca de 10 mmHg e a diastólica em 5 mmHg, o que é suficiente para normalizar os valores da tensão arterial em grande número de indivíduos com tensões ligeiramente elevadas.

Não esquecer que a hipertensão arterial é o problema de Saúde Pública mais importante em Portugal, sendo responsável por elevado número de mortes e complicações cardiovasculares e está muito associada à obesidade e à diabetes. Em grande número de indivíduos, o excesso de peso e obesidade devem-se mais à inatividade física do que aos excessos alimentares. A atividade física aumenta a sensibilidade dos tecidos periféricos à insulina, o que melhora o metabolismo da glicose, ajudando a prevenir a diabetes. Saliente-se que o tratamento com medicamentos da hipertensão arterial, doença que afeta mais de mil milhões de seres humanos a nível mundial e é responsável por 14% da mortalidade total, é uma história de grande sucesso da medicina moderna com um enorme impacto favorável na saúde pública.

Vários estudos demonstram também que a atividade física diminui a ansiedade e a depressão, promovendo a sensação de bem-estar

Está hoje claramente demonstrado que a atividade física retarda o processo de envelhecimento, sendo atualmente uma das poucas medidas eficazes, a par com uma alimentação moderada, a propiciar um aumento não só da longevidade como da qualidade de vida.

Estima-se que, em média, a cada hora de atividade física corresponde um ganho de duas horas de aumento da esperança de vida. Por tudo isto, diz-se que se os benefícios do exercício pudessem ser adquiridos sob a forma de comprimidos seria certamente o medicamento mais benéfico e consumido de todos os tempos.

A Fundação Portuguesa de Cardiologia recomenda a prática de atividade fisica de intensidade moderada meia hora por dia, pelo menos cinco dias por semana, para reduzir significativamente o risco de doença cardíaca. Basta para isso correr ou andar em passo rápido cerca de meia hora por dia!

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