Sete em cada 10 pessoas estão expostas ao risco de contrair meningite C

26 de Novembro 2021

Sete em cada 10 pessoas estão expostas ao risco de contrair meningite C, mesmo tendo recebido uma dose única da vacina aos 12 meses, segundo um estudo do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA).

O estudo visou analisar a proteção da população portuguesa contra o serogrupo C, causador da doença, 10 anos após a introdução da vacina no Programa Nacional de Vacinação (PNV), por forma a avaliar se a atual estratégia de vacinação no PNV continua a garantir a proteção da população ou se existe necessidade de uma dose de reforço da vacina na adolescência.

Para isso, os investigadores quantificaram os níveis de anticorpos séricos bactericidas contra o serogrupo C numa amostra representativa da população, que envolveu 1.500 pessoas com idades entre os 2 e os 64 anos que participaram no Inquérito Serológico Nacional 2015/2016.

Os resultados do estudo, a que a agência Lusa teve acesso, revelam que apenas 31,1% dos indivíduos continuavam protegidos, o que indica que uma dose única da vacina numa idade tão precoce não é eficaz a conferir proteção duradoura contra a Meningite C.

A proporção de indivíduos com títulos de anticorpos considerados protetores foi particularmente baixa em crianças dos 2 aos 4 anos que receberam uma única dose de vacina aos 12 meses, mesmo apesar da alta cobertura vacinal alcançada nesta coorte (98%).

As maiores proporções de indivíduos seroprotegidos foram observadas em adultos e jovens (15-24 anos), resultante da vacinação durante a campanha de recuperação dos 5 aos 15 anos.

“O nosso estudo, bem como estudos noutros países, demonstram que os programas de vacinação seguidos de campanhas de recuperação dirigidas a adolescentes e jovens adultos podem contribuir para a redução da proporção global de indivíduos em risco para a doença de meningite C na população, particularmente nas crianças”, defende.

O estudo recomenda que o esquema vacinal atual seja revisto, visando a introdução de uma dose de reforço da vacina meningocócica conjugada durante a adolescência.

Comentando os resultados deste estudo, o pediatra Luís Varanda salientou a sua importância, referindo que Inglaterra já tinha efetuado um estudo semelhante que verificou que ao longo do tempo se vai perdendo imunidade e quando se chega à adolescência, por exemplo, o nível de proteção é bastante baixo.

Atualmente, países, como o Reino Unido, Irlanda, Bélgica, Espanha, Itália, entre outros, já estão a adotar a estratégia de vacinação recomendada pelos investigadores do estudo.

O professor de pediatria da Faculdade de Ciências Médicas do Instituto de Higiene e Medicina Tropical explicou que a bactéria Neisseria, que causa a meningite, é transmitida sobretudo pelos adolescentes e pelos adultos jovens, daí a importância de estarem protegidos.

“Não são as crianças que transmitem a doença. São os adolescentes e os adultos jovens que transmitem a doença aos outros, seja às crianças mais pequeninas sejam aos mais velhos, os idosos”, que são grupos vulneráveis.

Para Luís Varanda, este estudo é muito importante porque “vai obrigar a pensar e eventualmente tomar decisões”.

Questionado se essa decisão seria uma dose de reforço na adolescência, o especialista afirmou que, do ponto de vista de proteção da população, “seria a decisão mais acertada”, mas sublinhou que é uma decisão que terá de ser tomada pelas autoridades saúde em função das análise custo-benefício.

“Se vacinarmos as crianças mais pequeninas não estamos a atuar no reservatório da bactéria que são os adolescentes. Ao vacinar os adolescentes atuamos no reservatório da bactéria e temos uma proteção alargada a toda a população”, defendeu, ressalvando que não quer que as suas declarações sejam tidas como uma forma de pressão sobre as autoridades.

“A Direção-Geral de Saúde já teve este assunto na agenda e penso que não avançou a discussão pela covid e, portanto, não é um assunto esquecido”, salientou.

Segundo Luís Varanda, a meningite C é uma doença é rara, com menos de um caso por 100 mil habitantes, mas deixa sequelas e tem uma taxa de mortalidade muito elevada.

A incidência da diminuiu em Portugal desde a introdução da vacina no mercado privado em 2001 e no PNV em 2006.

LUSA/HN

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