A vacina RTS,S foi desenvolvida por uma plataforma de cientistas africanos e destina-se a combater a doença que causa 94% das suas mortes na África subsaariana.
Gana, Maláui e Quénia foram os primeiros três países a introduzirem a vacina, em 2019, tendo sido administradas 2,3 milhões de vacinas e 800 mil crianças recebido pelo menos uma dose.
Na altura, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, afirmou: “Esta vacina tem o potencial de salvar dezenas de milhares de jovens vidas. Fizemos progressos incríveis nas últimas duas décadas, os casos de malária caíram para metade, mas, globalmente, os casos permanecem demasiado elevados, com 200 milhões de casos anuais e mais de 400.000 mortes”.
O maior financiador desta vacina é a Fundação Bill e Melinda Gates, que gastou mais de 200 milhões de dólares (195,2 milhões de euros) durante várias décadas para colocar a vacina no mercado.
Vendida pela GlaxoSmithKline como Mosquirix, é uma vacina com cerca de 30% de eficácia e que requer quatro doses.
A vacina contra a malária tem “uma eficácia muito inferior à que gostaríamos”, disse à agência AP o diretor de programas da Fundação Gates para a malária, Philip Welkhoff, acrescentando que se trata de uma vacina relativamente cara e logisticamente difícil de administrar.
“Se estamos a tentar salvar tantas vidas com o nosso financiamento existente, essa relação custo-eficácia é importante”, disse.
A decisão da Fundação Gates de se afastar do apoio ao lançamento da vacina em África foi tomada há anos após deliberações detalhadas, incluindo sobre se o dinheiro da fundação seria mais bem gasto em outras vacinas, tratamentos ou capacidade de produção contra a malária, referiu Welkhoff.
Alguns dos recursos que poderiam ter sido utilizados para levar a vacina a países foram redirecionados para a compra de novas redes inseticidas, por exemplo.
Alguns cientistas dizem estar perplexos com essa decisão, advertindo que poderia deixar milhões de crianças africanas em risco de morrer de malária, bem como minar os esforços futuros para resolver problemas intratáveis na saúde pública.
“Não é a maior vacina do mundo, mas há formas de a utilizar que podem ter um grande impacto”, disse Alister Craig, reitor de ciências biológicas na Escola de Medicina Tropical de Liverpool.
O mundo está a lutar para conter o pico da malária registado desde que a pandemia de Covid-19 perturbou os esforços para parar a doença parasitária, que matou mais de 620.000 pessoas em 2020 e causou 241 milhões de casos, principalmente em crianças com menos de cinco anos, em África, disse Craig.
“Não é como se tivéssemos muitas outras alternativas”, disse, acrescentando: “Pode haver outra vacina aprovada em cerca de cinco anos, mas são muitas vidas perdidas se esperarmos até lá”, numa referência a uma vacina que está a ser desenvolvida pela Universidade de Oxford.
A BioNTech, o criador da vacina Pfizer contra a Covid-19, planeia aplicar à malária a tecnologia de RNA mensageiro que utilizou para o coronavírus, mas esse projeto ainda está no início.
Outro grande obstáculo é a disponibilidade, uma vez que a GSK diz que só pode produzir cerca de 15 milhões de doses por ano até 2028.
A OMS estima que para proteger os 25 milhões de crianças nascidas em África todos os anos, poderão ser necessárias pelo menos 100 milhões de doses por ano.
Embora existam planos para transferir a tecnologia para um fabricante indiano de medicamentos, serão necessários anos para a produção de doses.
“Nem todo o dinheiro do mundo aliviaria as restrições de fornecimento de vacinas a curto prazo”, disse Welkhoff, da Fundação Gates.
Esclareceu, contudo, que a Fundação Gates continua a apoiar a aliança de vacinas Gavi, que está a investir quase 156 milhões de dólares (152,2 milhões de euros) para tornar a vacina inicialmente disponível em três países africanos: Gana, Quénia e Maláui.
“Estamos a apoiar o lançamento através do financiamento da Gavi, mas decidimos não dedicar financiamento direto adicional para alargar o fornecimento da vacina”, indicou Welkhoff.
David Schellenberg, da London School of Hygiene and Tropical Medicine, alertou para o risco de esta decisão “desencorajar outros que estão a considerar financiar a vacina contra a malária” ou de desincentivar as pessoas que trabalham com outras vacinas.
LUSA/HN
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