09/08/2022 | Opinião, Opinião-Saúde

Liderança médica

Jaime C. Branco
Diretor do Serviço de Reumatologia no Centro Hospitalar de Lisboa Ocidental, EPE. – Hospital de Egas Moniz
Professor Catedrático da NOVA Medical School | Faculdade de Ciências Médicas da Universidade NOVA de Lisboa
Candidato a Bastonário da Ordem dos Médicos

Quando entrei para o curso de Medicina, no início dos anos 70, o meu irmão já era médico. O que me atraía, e o que ainda hoje atrai todos os jovens que escolhem esta vocação, era poder ajudar outras pessoas do ponto de vista do seu bem-estar.

Em mais de quatro décadas de profissão, fortaleci esta convicção: o sucesso das equipas médicas, dos serviços de saúde e da evolução dos nossos doentes depende da nossa capacidade de liderança. Mas algo externo a nós está a falhar. Temos sido confrontados com cada vez maiores responsabilidades e cada vez menor poder de decisão. As nossas escolhas, mesmo de ordem clínica, foram sendo entregues a terceiros, por via administrativa, ou incorporados noutros níveis de decisão – não raras vezes sem qualquer escrutínio médico competente.

Esta diluição paulatina e impercetível da liderança médica é um dos nossos mais importantes constrangimentos funcionais e tem consequências negativas para os serviços e para os próprios doentes. Há que reverter esta situação, para incentivar os médicos e revitalizar os serviços.

No interesse dos doentes e da população em geral, a liderança médica tem de extravasar o domínio clínico e técnico. Deve estender-se à gestão da saúde – que não pode ser entregue apenas a licenciados em gestão ou administração. Há excelentes exemplos de Centros Hospitalares geridos por médicos, que otimizam recursos, capacitam e motivam pessoas, estimulam equipas e integram a inovação para melhorar a oferta e a qualidade da prestação de cuidados. Defendo que só assim, com os médicos no centro da gestão, se garantem resultados, assegurando a sustentabilidade do Sistema de Saúde.

Para isso, é essencial um esforço concertado: incluir estas matérias nos currículos dos cursos de Medicina, insistir numa oferta ampla de formação médica contínua ao longo da vida e propor legislação que priorize os médicos com formação específica. Estas são ideias que estão na base da minha candidatura à Ordem dos Médicos.

Juntos, somos mais fortes. Com a evolução do conhecimento, a diversidade e especificidade tecnológica e a disparidade e singularidade das aptidões necessárias aos Cuidados de Saúde, com o envelhecimento populacional e o consequente crescimento das doenças crónicas não transmissíveis, comorbilidades e polifarmácia, a atitude profissional deve ser colaborativa, com o contributo de várias especialidades médicas e de outros profissionais de saúde. Para isso, os líderes médicos têm de estar dotados com saberes e atitudes, que, além das essenciais ciências biomédicas, incorporem as áreas comportamental, social e comunicacional. A liderança define-se por esta visão global e abrangente de todo o processo. Nada do que aqui é dito se cumpre sem o médico.

2 Comments

  1. Ana Maria Rebelo Pereira

    Totalmente de acordo nem menos uma vírgula. A vocação deve estar antes de qualquer interesse quer seja particular ou familiar. Não fiz medicina porque não conseguia suportar o sofrimento dos outros. Com pena de familiares porém fiz filosóficas. Ética.

  2. Ana Massena

    Há mais de 10 anos que formações em liderança e gestao de unidades de saúde são frequentados e concluído com sucesso e mérito por médicos. Mas infelizmente até a data foram poucos os que integrarem as administrações dos hospitais, não lhes sendo-reconhecido esse mérito e competência. Porquê ????

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