Conservar abacates em água durante semanas tem riscos para a saúde

17 de Agosto 2022

Uma jarra, água, abacates e um frigorífico. São estes os elementos necessários para colocar em prática uma técnica de conservação que promete manter os abacates frescos durante semanas. O vídeo tornou-se viral no TikTok e espalhou-se rapidamente a outras redes sociais. Mas o que não é referido é que esta receita traz riscos para a saúde.

“Submergir [os abacates] em água, pode diminuir um pouco a velocidade a que a oxidação acontece”, começa por explicar José Camolas, vice-presidente da Ordem dos Nutricionistas e professor na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e no Instituto Egas Moniz. “Só que depois há sempre o reverso da medalha: pode haver proliferação eventual de bactérias ou fungos”, acrescenta, considerando que a utilização de água como técnica de conservação é “um contrassenso”.

A maior parte das técnicas de conservação alimentar passam precisamente pela desidratação dos alimentos ou pela adição de açúcares – como, por exemplo, para fazer compotas de frutos. Ao retirar a água do alimento, reduz-se a capacidade de proliferação de bactérias ou fungos, o que diminui, por consequência, o risco de toxinfecção alimentar. Por outro lado, quando se utiliza água com o intuito de conservar, “o que podemos estar a fazer é um caldo muito favorável ao desenvolvimento de microrganismos”. E o alimento, que “aparentemente está bom para consumir, na prática, microbiologicamente não está”.

No caso particular dos abacates, a FDA – entidade que regula e controla os alimentos e medicamentos nos Estados Unidos,– detetou, através de um estudo realizado em 2014, a presença da bactéria Listeria monocytogenes em 17,73% das amostras de casca dos abacates e em 0,24% da polpa. “É uma bactéria relativamente frequente em situações de toxinfecções alimentares e é uma das que nos preocupa em termos de preparação, proteção e conservação de alimentos”, sublinha o nutricionista. No estudo também identificada a bactéria salmonela em 0,74% das amostras.

Listeria monocytogenes – que provoca a doença listeriose – tem a capacidade de se reproduzir a baixas temperaturas, entre 2ºC e 4ºC, e a sua propagação é também potenciada pela presença da água. “Os microrganismos têm mais facilidade em desenvolver-se em meios em que a água está disponível. A água é preciosa para os seres humanos e é também preciosa para a maior parte dos microrganismos”, acrescenta José Camolas.

Apesar de a técnica apresentada nos vídeos mostrar um abacate inteiro e ainda com a casca, o vice-presidente da Ordem dos Nutricionistas deixa um alerta a quem queira também aplicar este método de conservação a alimentos já aberto: “Se o fruto já estiver cortado, de certeza que [os microrganismos] vão colonizar também a própria polpa”, o que aumenta o risco de contaminação e de potencial toxinfecção alimentar.

“Não devemos manter qualquer alimento conservado durante demasiado tempo, ainda que no frigorífico. Os alimentos têm uma expectativa de duração e de propriedade para o consumo que é limitada no tempo. Por muito que tenha uma aparência bonita, vão estar a degradar-se. Esse é o processo natural. Os microrganismos – bactérias e fungos –, na grande maioria das vezes, não são visíveis a olho nu. Posso estar a olhar para um fruto que está muito bonito, mas pode estar completamente ‘infestado’ de bactérias ou fungos e não se perceber isso”, prossegue.

Se pretender guardar um abacate durante várias semanas – como é referido nos vídeos – a opção mais segura passa por congelar o alimento de forma a evitar a contaminação, aconselha o nutricionista. Por outro lado, se o objetivo for conservar o alimento durante poucas horas ou de um dia para o outro, a utilização de sumo de limão (um antioxidante natural) evita que o abacate oxide.

Texto publicado ao abrigo da parceria entre a plataforma de Fact Checking Viral-Check e o Heathnews.pt

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