João Sequeira Carlos: Médicos de MGF “irão identificar-se imediatamente com os temas que vão ser abordados” no Encontro na Luz

se não houver bem-estar dos profissionais de saúde, estes não poderão estar em condições ideais para tratar os doentes. O problema foi bem evidenciado durante a pandemia. Não que o fenómeno da exaustão profissional, da exaustão emocional, o chamado burnout, não existisse já, mas foi nesta fase um elemento mais percetível e menos ocultado

 

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O Encontro na Luz tem como público-alvo os médicos de Medicina Geral e Familiar, conta com um programa “organizado com um modelo inovador”, ao incluir formação em auditório e uma componente prática num centro de simulação, e espelha a organização de cuidados nas unidades da Luz Saúde, em que os cuidados de saúde primários fazem parte da rede hospitalar in loco. Por isso, no dia 12 de novembro, João Sequeira Carlos, médico de família e diretor do Serviço de MGF do Hospital da Luz Lisboa, quer ver a sua especialidade em peso no evento. Até porque “os colegas de MGF, ao verem o programa, irão identificar-se imediatamente com os temas que vão ser abordados”, com os quais lidam diariamente.

HealthNews (HN)- Duas ou três razoes pelas quais os médicos de família devem frequentar estas formações.

João Sequeira Carlos (JSC)- Desde logo, porque este evento tem como público-alvo os médicos de família. É dirigido a médicos que trabalhem no âmbito de cuidados de saúde primários. E porque foi um programa construído e organizado com um modelo inovador. Quando falamos de modelo inovador, não significa que não existam eventos similares, mas a grande novidade que este traz é ter uma componente prática, cujo palco será o centro de formação e simulação do Hospital da Luz. Vamos poder estar inseridos num centro pioneiro, mesmo em contexto internacional, por estar ligado a um centro médico académico baseado num hospital privado. Como tal, tem o equipamento mais avançado, mais inovador, com tecnologia de última geração, do qual vamos poder usufruir nas sessões práticas deste programa híbrido, com formação também em auditório.

O terceiro fator é o aspeto organizacional. O evento é um espelho da organização de cuidados no Hospital da Luz, em que há uma coordenação de cuidados entre a Medicina Geral e Familiar e as especialidades hospitalares, com a vantagem de estarmos na mesma estrutura física. O evento transparece este aspeto inovador, não apenas na componente formativa em equipa multidisciplinar, mas também no contacto direto com esta realidade organizativa: os cuidados de saúde primários fazem parte da rede hospitalar in loco, apoiados pelo pilar da formação e do ensino, num ambiente de última geração.

Vai ser transversal a todo o programa de formação esta proximidade, não só aos nossos doentes, como entre as equipas que constituem os grupos multidisciplinares de prestação de cuidados de saúde no Hospital da Luz.

HN- Olhando para o programa como médico de Medicina Geral e Familiar, é clara a pertinência dos temas escolhidos?

JSC- Estou convicto de que os colegas de MGF, ao verem o programa, irão identificar-se imediatamente com os temas que vão ser abordados. Quem faz consulta de Medicina Geral e Familiar percebe imediatamente que são problemas de saúde relevantes, que constituem motivos de consulta frequentes nos cuidados de saúde primários. São temas com que lidamos diariamente.

Está bem patente no programa o continuum de cuidados, desde a medicina preventiva e promoção da saúde ao tratamento e gestão de doença crónica, por vezes até avançada. É inevitável falar, por exemplo, da questão do risco cardiovascular. Nós sabemos o quão importante esta temática é na prática clínica da Medicina Geral e Familiar, em que não vemos apenas doentes, vemos também pessoas saudáveis, nas quais temos uma oportunidade única de atuar ao nível da prevenção e da identificação de risco – neste caso, risco cardiovascular.

Não há doentes a quem não tenhamos de incluir nas consultas de avaliação a abordagem do risco cardiovascular. Até em pessoas saudáveis e em idades muito jovens é preciso estratificar o risco, avaliar a predisposição para algumas doenças cardiovasculares, corrigir riscos identificados e tratar problemas que podem causar, potencialmente, uma doença ou um evento cardiovascular agudo. Diria que esta é uma sessão bandeira da Medicina Geral e Familiar e da forma como se concretiza a coordenação entre cuidados de saúde primários e cuidados de saúde hospitalares. Esta é claramente uma área de coincidência de esforços, de trabalho em equipa e de cuidados prestados numa perspetiva multidisciplinar. Queremos dar a conhecer como é feito este trabalho no Grupo Luz Saúde e no nosso hospital.

Ainda na área da medicina preventiva, falaremos dos rastreios – um tema forte e sempre atual. Realmente, o título da sessão diz tudo: “Rastreios oncológicos: quais, como e quando?”. Quando há tantas áreas cinzentas, quando há evidência do que tem uma boa relação custo-benefício, importa identificar as ações e os procedimentos que devem integrar programas de rastreios oncológicos – nos quais o médico de família está na primeira linha para acionar e executar – e quais são aqueles em que a evidência não é robusta ou é inexistente. Mais uma vez, vamos ter a perspetiva de equipas multidisciplinares. Especialistas de MGF e médicos de especialidades hospitalares, nomeadamente da Oncologia, vão-nos dar a conhecer a sua perspetiva sobre os rastreios oncológicos.

Mas, neste evento, não falamos somente da prevenção da doença e da promoção da saúde. Na sessão que vou moderar, entramos no âmbito da doença com a abordagem da tosse.  O tema é interessantíssimo, tendo sido já abordado neste tipo de reuniões que aproximam as especialidades hospitalares da especialidade de MGF. Pela sua importância, tinha de estar presente, porque é uma das queixas mais recorrentes em consulta médica e representa um verdadeiro desafio. A pergunta da sessão lança um repto: quem trata? Temos colegas de várias especialidades para responder, desde a Pneumologia à Gastroenterologia, à Alergologia e à Otorrinolaringologia.

Em todo o mundo, a tosse é dos sintomas que motivam mais idas ao médico, e nem falo apenas da era pandémica, em que estava imediatamente associada à doença Covid-19. Falo da tosse como um todo, como um sintoma que pode estar associado a problemas de várias origens. Isto é muito interessante, porque parece simples, mas tem uma complexidade tremenda, exigindo um trabalho de equipa, porque é nos cuidados de saúde prestados numa lógica multidisciplinar que se encontra a melhor resposta na abordagem destes doentes. Falo por experiência própria. Como médico de família no Hospital da Luz Lisboa há 16 anos, deparo-me frequentemente com este problema e já vivenciei a abordagem multidisciplinar nesta área, que permite chegar a um consenso, a uma resposta e a uma solução terapêutica para o doente.

Curiosamente, o mais difícil na abordagem deste problema é a etiologia estar por vezes fora do aparelho respiratório. Os doentes associam muito a tosse aos pulmões. Esse é o grande receio de um doente que vai à consulta com tosse – ter uma doença pulmonar. Quando abordamos estes doentes, explicando as bases fisiopatológicas do reflexo da tosse, mostrando inclusivamente como é que se desencadeia o sintoma, esclarecemos as suas dúvidas, ajudando a perceber que a origem pode ser outra. Falo de forma mais apaixonada deste tema e desta sessão não só porque estou a moderar, mas porque já acompanhei o processo e a marcha diagnóstica em muitos doentes, envolvendo as especialidades implicadas. É efetivamente interessante como algo aparentemente tão simples pode ser tão complexo.

Além disso, estará em discussão a questão da ansiedade e da depressão. Embora hoje se use muito o termo saúde mental, aqui falamos já de doença mental, como é o caso da perturbação de ansiedade e da depressão, em que se pergunta se serão mesmo as doenças do século e se as podemos evitar. Quando perguntamos se as podemos evitar, falamos da promoção da saúde mental e de como prevenir a doença mental. Quando falamos de doença estabelecida, discutimos a melhor forma de a abordar e a melhor solução para a tratar, ou como ter um plano de cuidados para contemplar a abordagem do doente com ansiedade e depressão. Vamos ter a participação ativa da Medicina Geral e Familiar, da Psiquiatria e da Psicologia Clínica. É nesta tríade que deve estar assente uma resposta sólida ao doente com estes problemas de saúde. Nesta sessão, vamos ter dois médicos de família: um moderador, especialmente ligado ao programa de médicos associados, e um preletor, com interesse e prática nesta área.

Este é um tema forte. A saúde mental e a doença mental ganharam um relevo especial com a pandemia, não só porque os doentes que já seguíamos nestas áreas viram agudizados os seus problemas crónicos, mas também porque quem não sofria de problemas nesta área passou a ter manifestações de ansiedade, depressão, humor deprimido e variações do humor relacionadas com todas as condicionantes que a pandemia veio impor à sociedade. Como tal, é uma temática pertinente, oportuna e que surge em tempo certo neste fórum de partilha de conhecimentos.

Ainda na parte da manhã, teremos uma conferência proferida pela CEO do Grupo Luz Saúde, Engenheira Isabel Vaz, que nos vai falar sobre “A importância da MGF em ambiente hospitalar | Passado, Presente e Futuro”. É um momento a não perder. É fundamental, porque a pessoa que dirige e lidera o Hospital da Luz sempre acreditou na importância de ter a Medicina Geral e Familiar dentro de um hospital, que foi algo pioneiro e inovador em Portugal. Apesar de haver experiências episódicas e similares no setor privado, nunca se tinha constituído um Serviço de Medicina Geral e Familiar dentro de um hospital. Vai ser certamente uma conferência inspiradora.

A tarde também reserva temas muito pertinentes. Serão abordados problemas de saúde com que nos deparamos muitas vezes na nossa consulta, ou áreas nas quais o médico de família tem de ter conhecimento para poder coordenar o continuum de cuidados. Mesmo que os doentes sejam referenciados a uma especialidade hospitalar, é fundamental sabermos como decorre a abordagem de um doente na Gastroenterologia quando vai ser sujeito a um estudo endoscópico. No ambiente de formação e simulação, é importante saber como é que alguns problemas de saúde agudos ou crónicos são abordados em equipa multidisciplinar, como é também o caso da insuficiência cardíaca, da síncope, da enxaqueca ou da fibrilhação auricular. Vamos ter apresentação de casos clínicos, numa abordagem prática e inovadora, sempre combinados com cenários de simulação. Posso garantir que serão experiências formativas memoráveis.

HN- Quais são os principais problemas que enfrenta hoje a Medicina Geral e Familiar?

JSC- Primeiro que tudo, não posso isolar a minha especialidade. Esta resposta tem de incluir também as outras especialidades. O que aflige a Medicina Geral e Familiar aflige também outras especialidades, numa conjuntura de saúde sistémica que não é simples. Desde logo porque é crescente a prevalência de doenças crónicas complexas. Os nossos doentes são cada vez mais idosos e sobrevivem a doenças de maior complexidade, pelo que a multimorbilidade é um dos principais desafios para os sistemas de saúde.

A medicina não é uma prática individual, de uma pessoa só, mas de equipa, e de equipas multidisciplinares. E estas devem ser cada vez mais multiprofissionais. O envolvimento de diversas profissões de saúde pode dar um importante contributo na abordagem de doentes cada vez mais complexos, a que o sistema de saúde tem de responder. Diria que o problema principal é o atual cenário epidemiológico das doenças crónicas, a que se somou algo que nos surpreendeu, a pandemia Covid-19.

Os sistemas de saúde têm de estar melhor preparados em força de trabalho e em capacidade técnico-científica, com resposta eficaz e acessibilidade adequada em unidades de saúde de proximidade à população que tem necessidades cada vez mais complexas. E o desafio é enorme, resultante de uma conjuntura única: mais tecnologia médica, população a envelhecer, mais carga de doença crónica, num cenário em que a capacidade dos sistemas e os recursos são finitos. Nesse sentido, é na garantia de sustentabilidade do sistema de saúde que tem de estar assente a sua gestão e a prática clínica.

Nesta dimensão “macro”, há desafios com que se depara especialmente a Medicina Geral e Familiar. A dificuldade em fixar profissionais é um deles. É claro que não podemos esconder que o problema aflige principalmente o Serviço Nacional de Saúde, mas, numa perspetiva sistémica, não posso deixar de falar desse tema.

Por outro lado, se não houver bem-estar dos profissionais de saúde, estes não poderão estar em condições ideais para tratar os doentes. O problema foi bem evidenciado durante a pandemia. Não que o fenómeno da exaustão profissional, da exaustão emocional, o chamado burnout, não existisse já, mas foi nesta fase um elemento mais percetível e menos ocultado. Estamos a falar de um fator crítico para a resiliência do próprio sistema e para a capacidade de resposta dos sistemas de saúde, bem identificado a nível internacional. No dia em que os profissionais de saúde não estiverem bem, o sistema poderá ter um elo fraco nesta cadeia importante, que tem de estar fortalecida. Mais uma vez, não só na Medicina Geral e Familiar.

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