Três “choques” sucessivos sobre profissionais de saúde na última década

6 de Junho 2023

A última década teve três "choques" negativos sucessivos sobre os profissionais de saúde que resultaram na sua exaustão, numa perda de rendimento real e na crescente falta de condições de trabalho em infraestruturas e equipamentos, que se desgastaram.

Segundo um estudo elaborado pelos economistas Pedro Pita Barros e Eduardo Costa, da Nova SBE, o programa de ajustamento financeiro e das contas públicas, o período seguinte de reversão de medidas “de um modo que manteve grande pressão” sobre o trabalho dos profissionais de saúde e as exigências trazidas pela pandemia foram três “choques” sucessivos que contribuíram para a atual situação dos recursos na saúde.

No trabalho desenvolvido sobre os recursos humanos na saúde, os investigadores lembram que o ano de 2022 foi marcado pela insatisfação dos profissionais de saúde, nomeadamente os que trabalham no Serviço Nacional de Saúde (SNS).

“A falta de profissionais de saúde foi a face visível para o cidadão de problemas mais profundos, tendo gerado um retomar da discussão sobre a evolução demográfica das profissões de saúde”, lembram os investigadores, sublinhando que o “primeiro passo” na procura da mudança é reconhecer o efeito cumulativo destes três “choques” negativos da última década.

Lembram que “a capacidade formativa não acompanhou as necessidades impostas pelo crescimento da procura de cuidados de saúde e pela aposentação de muitos profissionais de saúde”, mas frisam que a falta de atratividade do SNS decorre mais destes três “choques” sucessivos do que da falta de atenção – “que existiu” – aos efeitos da demografia das profissões da saúde.

Defendem que a resolução dos desafios passa por “mudanças que não se limitam à abertura de vagas para formação e de concursos de recrutamento por parte do SNS”.

Os autores do estudo dizem que é preciso “uma diferente capacidade de gestão” para estabelecer, por um lado, condições de atratividade do SNS – cobrindo aspetos como remunerações, equilíbrio vida profissional/vida pessoal, melhoria das infraestruturas e equipamentos e uma estratégia para desenvolvimento profissional – e, por outro, “aproveitar as potencialidades de reorganização do trabalho nas unidades de saúde, propiciadas quer pela evolução das competências dos vários grupos profissionais da saúde quer pelo desenvolvimento tecnológico”.

“Todos estes elementos exigem, da decisão pública e da gestão do SNS, criatividade, flexibilidade e agilidade na ação”, defendem.

Em declarações à Lusa, Pedro Pita Barros assume que a necessidade de capacidade formativa e as vagas “são uma condição necessária” de base, mas sublinha: “a questão é saber se isso é suficiente”.

“Claramente o que temos visto nos últimos anos é que não é suficiente. (…) Tem-se visto que abrem concursos que ficam vazios, ou que ficam semi vazios para preenchimento das vagas, embora haja muita gente formada que opta por outros caminhos”, disse.

Aponta ainda casos de pessoas que entram, assinam contrato, mas depois desiludem-se e “acabam por sair”.

Lembra que nos últimos 12 anos “houve sempre um funcionamento sob grande pressão das unidades de saúde” e alerta que 20 a 30% das pessoas que trabalham nas instituições de saúde nunca conheceram outra forma de trabalhar que não fosse a “pressão permanente”.

“Doze anos é 1/3 de 36, basicamente o tempo profissional normal de trabalho das pessoas, o que significa que 1/3 da vida profissional dos que entraram em 2011 foi passada sob situação de emergência. O que significa que há, provavelmente, 20 a 30% das pessoas que estão a trabalhar nas unidades de saúde que nunca conheceram outra forma de trabalhar que não fosse estar sobre esta pressão permanente”, explica, acrescentando: “isto não pode ser bom”.

O investigador lembra igualmente que, estes recursos, que “nunca trabalharam de outra forma”, relatam apenas essa forma de trabalhar sob pressão constante para os que entram agora, o que desincentiva os jovens médicos.

“Não só as novas gerações podem ter preferências diferentes em termos de equilíbrio família/trabalho, de desenvolvimento e até de gestão, como veem um funcionamento que, se calhar, não é aquilo que eles querem”, alerta, insistindo: “Este é o principal dilema para quem tem de pensar a questão dos recursos humanos na saúde, sendo que, ao lado, tem um setor privado com outra flexibilidade, imaginação e rapidez de decisão”.

LUSA/HN

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