Rosa de Pinho: “Em Portugal até vamos tratando a hipertensão, mas de uma forma inadequada”

17 de Outubro 2023

No ciclo de conversas médicas conduzidas pelo Professor Catedrático de Medicina Interna da Faculdade de Medicina do Porto e Consultor Sénior de Hipertensão e Medicina Interna do Hospital Pedro Hispano, Jorge Polónia, a presidente da Sociedade Portuguesa de Hipertensão lamentou a falta de controlo da hipertensão a nível nacional, apontando o uso da monoterapia como uma fator de "inércia médica". "Se continuarmos a tratar doentes com fármacos de curta duração de ação em associações livres não vamos conseguir ter a hipertensão controlada nas 24 horas", afirma Rosa de Pinho. 

Sabemos que a Hipertensão Arterial não existe como um fator de risco isolado e que o controlo dos vários fatores de risco está muito aquém daquilo que seria desejado. Que fatores influenciam o controlo da HTA e dos restantes dos fatores de risco modificáveis?

Existe pouca motivação para as pessoas alterarem os seus estilos de vida. Sabemos que a situação económica, após a pandemia, piorou e que as pessoas hoje em dia têm mais dificuldade em comprar alimentos saudáveis. Quando falamos de hipertensão, diabetes e dislipidemia, o baixo consumo de sal é de extremamente importante.
Por outro lado, as pessoas que já estão diagnosticadas apresentam um outro problema que é o da adesão à terapêutica. A motivação para tomar a medicação é muito pouca… Em causa também podem estar razões económicas. Sabemos que na área da dislipidemia e da diabetes, os novos fármacos são muito mais eficazes, mas têm um custo mais elevado.
Temos ainda o problema da inércia médica. Estamos sempre a desculpabilizar o doente pela falta de controlo dos fatores de risco, dando sempre o benefício da dúvida, mas correndo riscos. É algo que temos que melhorar.

De que forma a pandemia afetou a relação médico-doente? 

Este relacionamento piorou nos dois sentidos. O doente viu o acesso ao seu médico de família impedido e o médico assistiu à uma sobrecarga de trabalho. A pandemia quebrou de certa forma a proximidade que existia entre o médico de família e o doente. Se já estávamos a melhorar em termos de níveis de controlo antes da Covid-19, com a pandemia regredimos. Portanto, temos um longo caminho para fazer.

Falou na inércia médica e nós verificamos em Portugal que, em termos de medicação anti hipertensora, a monoterapia ainda tem um peso importante e as associações fixas são pouco prescritas. Como podemos melhorar o controlo da pressão arterial com base nas novas guidelines?

É verdade. Infelizmente no nosso país até vamos tratando a hipertensão, mas de uma forma inadequada. Utilizamos ainda fármacos de curta duração de ação. Continuamos a usar a monoterapia apesar de sabermos que esta só deve ser utilizada nos idosos frágeis e nos casos de hipertensão grau 1.
Por outro lado, ainda temos muitas associações livres e associações fixas, mas nem todas com os fármacos de primeira linha que estão recomendados nas guidelines.
Se continuarmos a tratar doentes em monoterapia, com fármacos de curta duração de ação em associações livres não vamos conseguir ter a hipertensão controlada nas 24 horas.

Até que ponto é que o uso intermitente da medicação tem repercussões quando as opções medicamentosas não cobrem as 24 horas?

Nesses casos vamos ter uma grande parte do dia em que a doença não está controlada. Essa variabilidade da hipertensão vai provocando estragos na saúde dos doentes. Temos cada vez mais pessoas com lesão renal, AVC e enfarte. É por isso que seria importante usarmos fármacos de longa duração de ação e insistir com os doentes para a questão da adesão à terapêutica.

Qual o contributo que a telemedicina pode ter no processo de aproximação entre o médico de família e o doente?

O tempo de consulta que os médicos de família têm é muito pouco. Um doente com hipertensão tem uma série de outras doenças associadas e, no caso dos doentes mais idosos, a gestão da consulta é altamente complexa. Medir a pressão arterial do paciente requer tempo e tudo isto é cada vez mais difícil. Se temos que fazer mais consultas? Não. Na minha opinião temos é de conseguir gerir melhor o tempo que temos e, aqui, o trabalho em equipa tem um papel essencial. É extremamente importante que o médico de família tenha todo o apoio nas unidades de saúde. Por exemplo, aqueles doentes hipertensos que não têm tantas complicações podem perfeitamente ser avaliados pela enfermagem, ficando o médico mais liberto para as situações mais complexas.
Relativamente às novas tecnologias que temos disponíveis podemos conseguir com que os doentes nos forneçam um melhor feedback dos parâmetros que vão avaliando em casa. Esses dados do dia-a-dia do doente podem fazer a diferença.

Temos uma proliferação de aparelhos de medição neste momento. Que conselhos é que devem ser dados pelo médico antes da aquisição do aparelho? Considera que seria importante o doente levar à consulta este equipamento?

O ideal é que o doente tenha este aparelho em casa e que o médico indique aqueles que estão validados. Relativamente à estratégia que sugere penso que faz todo o sentido. Seria excelente que o doente trouxesse o aparelho que tem para que o médico verificasse se se trata de um equipamento validado; ver se o doente realmente sabe avaliar os valores e comparar os valores com o aparelho do médico para que o indivíduo também tenha essa visão.

O que é que a Sociedade Portuguesa de Hipertensão pode fazer para melhorar o controlo da doença?

Temos que intensificar o trabalho que até agora tem sido feito. Ou seja, temos que continuar a sensibilizar os colegas da MGF para a importância de melhorar os valores de controlo da hipertensão. Em Portugal, temos uma taxa de controlo baixa. Portanto, a Sociedade Portuguesa de Hipertensão vai lançar o desafio de conseguirmos ter até 2026 70% da população hipertensa controlada. É um número muito ambicioso. Temos de começar a mudar o discurso dos números de controlo e começar a falar em 130-70 mmHg.

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