Os produtos farmacêuticos europeus foram temporariamente poupados das tarifas recíprocas anunciadas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no dia 2 de abril de 2025. Esta decisão representa um alívio momentâneo para as empresas do setor, que têm exercido pressão considerável para obter esta isenção junto da administração norte-americana. No entanto, analistas e executivos da indústria alertam que esta exclusão pode ser de curta duração, uma vez que Trump já sinalizou a intenção de implementar tarifas específicas para o setor farmacêutico num futuro próximo.
Na recente declaração feita no Jardim das Rosas da Casa Branca, o presidente norte-americano deixou clara a sua posição em relação às empresas farmacêuticas, afirmando que estas irão “voltar com força” para os Estados Unidos e advertindo que, caso não o façam, “enfrentarão um grande imposto a pagar”. Este discurso é interpretado por especialistas como um sinal inequívoco de que o setor permanece no radar da administração Trump, com o objetivo de incentivar o regresso da produção farmacêutica para território americano.
De acordo com análises do banco suíço UBS, o risco para o setor farmacêutico continua elevado, apesar da atual isenção. O banco destaca que a indústria farmacêutica continua a ser um foco prioritário para a administração dos EUA, que poderá adicionar uma ronda separada de tarifas visando especificamente este setor. Estimativas apontam para uma possível taxa de aproximadamente 20% sobre as importações de produtos farmacêuticos europeus, alinhada com as tarifas gerais estabelecidas para as importações provenientes da União Europeia.
A possível implementação destas tarifas representa uma ameaça significativa para a economia europeia, dado que os produtos farmacêuticos constituem a categoria de exportação mais lucrativa da UE para os Estados Unidos. O setor registou um excedente comercial recorde em 2023, com as exportações para a América a representarem quase 15% da produção bruta total europeia. Dados do Censo Comercial dos EUA revelam que, em 2024, os Estados Unidos importaram 127 mil milhões de dólares (121,4 mil milhões de euros) em produtos farmacêuticos, evidenciando a dimensão económica em jogo.
Irlanda e Dinamarca destacam-se como os principais exportadores farmacêuticos europeus para os EUA, impulsionados pelo sucesso de empresas como a Novo Nordisk, cujos medicamentos para perda de peso GLP-1 representaram uma percentagem significativa das importações norte-americanas. Estas economias poderão ser particularmente afetadas caso as tarifas venham a ser implementadas.
O mercado financeiro já reagiu a estas notícias, com as ações do setor farmacêutico europeu a apresentarem comportamentos mistos. Empresas como a GSK e a AstraZeneca, que possuem grande exposição ao mercado norte-americano, registaram subidas de cerca de 2% em bolsa após o anúncio da isenção temporária. No entanto, a incerteza continua a pairar sobre o setor, com investidores atentos a qualquer sinal de mudança na política comercial de Trump.
A União Europeia, por sua vez, já sinalizou que está a preparar contramedidas para responder a estas e outras tarifas impostas pelos Estados Unidos. Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, alertou para as consequências negativas destas medidas protecionistas, prevendo um aumento da inflação e uma disrupção nas cadeias de fornecimento a nível global que afetarão milhões de consumidores, nomeadamente em setores como os supermercados, farmácias e transportes.
Trump anunciou que irá continuar a utilizar as tarifas como instrumento de negociação comercial, mostrando-se aberto a acordos com países sobre as taxas de importação. No entanto, o presidente norte-americano destacou que tais acordos só seriam negociados após a entrada em vigor das tarifas recíprocas. Esta postura reforça a estratégia de “America First” que tem caracterizado a política comercial da sua administração.
Num cenário mais alargado, economistas da Goldman Sachs preveem que as novas tarifas dos EUA sobre produtos da UE poderão reduzir as exportações europeias em, pelo menos, 85 mil milhões de euros, com impactos negativos sobre o crescimento económico da zona euro. O banco aumentou também a sua previsão para a inflação subjacente na Europa em 2025 para 2,1%, com potencial para atingir 2,3% caso as retaliações da UE agravem as pressões sobre os preços.
Para as empresas farmacêuticas europeias, a incerteza permanece como o principal desafio. Analistas recomendam que o setor comece a preparar-se para um cenário de tarifas elevadas, explorando alternativas estratégicas como o aumento da produção em território norte-americano ou a diversificação de mercados de exportação, enquanto aguardam pelo desfecho desta tensão comercial crescente entre os Estados Unidos e a União Europeia.
PR/HN/MM
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