Especialistas apostam na mudança nos estilos de vida para combater doenças crónicas

3 de Maio 2022

Diversos especialistas da área da saúde traçam, num livro a lançar na quarta-feira, a relação entre a qualidade da saúde e os estilos de vida, lembrando que se estes forem modificados ajudam a prevenir 80% das doenças crónicas.

Coordenado pelo médico reumatologista Jaime Branco e pela especialista em ciências da nutrição Conceição Calhau, ambos da Nova Medical School – Faculdade de Ciências Médicas, o livro faz parte de uma trilogia a lançar esta semana e que inclui outras duas obras: “Desafios do Envelhecimento para a Saúde, a Economia e a Sociedade” e “Novas Tecnologias”.

“São temas de grande atualidade e, além disso, são os temas de futuro na saúde”, disse à Lusa Jaime Branco, exemplificando: “o envelhecimento é problema por causa da multipatologia e da polifarmácia associada, os idosos tem níveis de escolaridade mais baixos, são mais iletrados do ponto vista digital e têm menos índices de atividade física e mais insegurança alimentar”.

Sobre o manual “Saúde e Estilos de Vida”, o professor catedrático da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa lembra que ”a generalidade dos fatores de risco das doenças crónicas não transmissíveis são profundamente alteráveis com a mudança dos estilos de vida”.

“O aumento que os custos com a saúde está a ter, de forma progressiva, continuada e muito significativa, faz com que, dentro de alguns anos, os estados não possam continuar a financiar serviços saúde como têm feito até aqui e ao ritmo de aumento anual com que o vêm fazendo”, considera.

Jaime Branco sublinha a importância da escolha das áreas em que se investe em saúde e exemplifica: “se pusermos água à mangueirada num balde roto nunca vamos ter água”.

“Temos de olhar para a sustentabilidade do sistema como um todo”, defende, considerando que a aposta essencial é na prevenção e na mudança de atitudes, para conseguir alterar fatores de risco que acabam por levar a doenças crónicas que, além de pesarem na qualidade de vida das pessoas, pesam na despesa dos sistemas de saúde.

Além dos fatores de risco habitualmente conhecidos, o livro aponta ainda fatores como a qualidade do sono, a importância da microbiota intestinal e os comportamentos dos pais, que acabam por influenciar os comportamentos dos filhos, e até a saúde mental.

“Este é o momento decisivo para a mudança de paradigma: ter um sistema de saúde que efetivamente dá primazia à saúde e não à doença. E isso passa por ter equipas multidisciplinares com profissionais de saúde devidamente treinados e articulados com toda uma estratégia política de âmbito nacional e intersetorial orientada para a promoção do estilos de vida saudáveis”, escrevem, na primeira parte do livro, o médico de saúde púbica Luis Pisco e o especialista em economia da Saúde Pedro Pita Barros.

A este propósito, Jaime Branco lembra: “Nos países da OCDE, só entre 3% a 5% do orçamento para a saúde vai para prevenção da doença, com medidas de saúde publica… isto é muito grave”.

O especialista diz que falta em Portugal “uma política consistente no tempo” e que tal não é possível fazer sem aumentar a literacia da população, sobretudo em relação às doenças que são preveníveis, como as doenças crónicas não transmissíveis”.

“Um grande plano de literacia em saúde é fundamental para a população portuguesa”, defende, destacando que este plano deve começar nos bancos das escoas e abranger igualmente a difusão de informação nos diversos órgãos de comunicação social.

Dotar os cuidados de saúde primários com instrumentos e meios humanos e materiais é outra das prioridades defendidas no livro. “Hoje chamamos centros de saúde a coisas que são sobretudo centros de doença”, refere Jaime Branco.

“Precisamos de centros de saúde e bem-estar (…). E deviam ter uma biblioteca e um pequeno ginásio onde as pessoas possam fazer exercício”, defende o médico especialista em reumatologia, lembrando que, nestes centros, as equipas multidisciplinares são essenciais.

Para incentivar os utentes a aderirem às mudanças de estilos de vida – “o mais difícil de fazer” – os especialistas que participam nesta obra defendem a criação de vales de compensação, com créditos para serem usados em centros de fisioterapia, tratamentos termais, ginásios ou até refeições saudáveis.

“É uma linguagem que as pessoas entendem”, afirma Jaime Branco, que defende que o Plano de Recuperação e Resiliência deveria servir para “alavancar este tipo de programa, que já devia ter começado”.

As obras da trilogia, todas em colaboração com a Fundação Amélia de Melo, a propósito dos 150 anos de Alfredo Silva, vão ser lançadas na quarta-feira, na Universidade nova de Lisboa.

LUSA/HN

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