Covid-19: doentes com infeção VIH controlada têm melhor prognóstico

2 de Julho 2021

Estudos de coorte, que procuram avaliar os desfechos clínicos e características da Covid-19 em pacientes com infeção pelo VIH, mostram que não existem diferenças significativas em relação à população em geral quando a infeção está bem controlada.

Existem dados escassos sobre a associação de Covid-19 e HIV na literatura, embora as pessoas que vivem com VIH sejam frequentemente colocadas no grupo de indivíduos com maior risco de desenvolvimento de doença grave por SARS-CoV-2. O estado de inflamação e de imunossupressão nesta população fazem recear um desfecho mais negativo mas a ação “in vitro” de alguns antirretrovirais faz com que os investigadores coloquem a hipótese de as pessoas que utilizam TARV poderem ter algum nível de proteção contra a infeção.

O estudo “Covid-19 and People with HIV Infection: Outcomes for Hospitalized Patients in New York City”,  avalia os dados de uma coorte de pacientes com VIH hospitalizados com Covid-19, comparando-os com um grupo de doentes não infetados pelo VIH que também foram hospitalizados com Covid-19. Foram identificados 88 pacientes com infeção pelo VIH. A média de idade foi de 61 anos e, entre os pacientes VIH positivos, a proporção de fumadores e de indivíduos com DPOC, cirrose ou neoplasia foi maior do que no grupo de controlo. A gravidade da apresentação da Covid-19 foi semelhante em todos os pacientes. A maior parte apresentava carga viral indetetável e contagem de linfócitos T-CD4 > 200 células/mm³.

Não houve diferença significativa entre os grupos relativamente à necessidade de admissão nas unidades de cuidados intensivos e a mortalidade também foi semelhante em ambos os grupos.  Após o ajuste de variáveis demográficas, presença de DPOC, tabagismo e valores basais de ferritina e leucograma, a presença da infeção pelo VIH não esteve associada a maior risco de morte.

Comparando os pacientes VIH que morreram com os que sobreviveram, o único fator de risco com diferença estatística encontrado foi ser recetor de transplante de órgão e, como fator protetor, o uso de inibidores de transcriptase reversa análogos de nucleosídeo.

Vizcarra et al. (2020), por sua vez, publicaram na JAMA os dados referentes a uma coorte prospetiva de pacientes com VIH num centro de referência espanhol. Dos 2.873 pacientes com infeção por VIH acompanhados no hospital em questão, 51 foram diagnosticados com Covid-19, resultando numa taxa de infeção de 1,8%. Como, de acordo com a política de testagem vigente na época do estudo, a pesquisa de SARS-CoV-2 por meio de RT-PCR não foi realizada em casos leves, 69% dos casos foram laboratorialmente confirmados, o que resultou numa taxa de infeção confirmada de 1,2%, enquanto 31% permaneceram como casos suspeitos. A proporção considerável de casos sem confirmação laboratorial impediu uma comparação fidedigna com as taxas de infeção da população geral.

A média de idade dos pacientes com confirmação laboratorial foi discretamente menor do que na população geral (53,6 anos vs. 59,7 anos, respetivamente) e a maioria dos casos ocorreu em indivíduos entre os 50 e os 59 anos de idade.

Quando comparados com os pacientes com VIH não infetados por SARS-CoV-2, os doentes com diagnóstico de Covid-19 não apresentaram diferenças significativas em relação a idade, nadir de células CD4, proporção de indivíduos que usavam TARV ou esquema de TARV utilizado. Entretanto, os pacientes que desenvolveram Covid-19 tinham maior IMC médio e maior prevalência de doenças crónicas concomitantes.

Os sintomas de apresentação mais comuns foram tosse seca, febre, dispneia e fadiga, com uma duração média de seis dias de sintomas até à procura de cuidados médicos. A maioria dos pacientes (55%) foi hospitalizada, enquanto 45% foram tratados no ambulatório. Setenta e cinco por cento dos pacientes foram classificados como tendo doença leve ou moderada e 25% como tendo doença grave, definida como a presença de febre ou infeção respiratória suspeita com FR > 30 irpm, sO2 ≤ 93% em ar ambiente ou SARA. Não houve diferença nas características clínicas, tratamentos ou desfechos clínicos entre pacientes com contagem de células T-CD4 superiores ou inferiores a 200 células/mm³.

Durante o acompanhamento, o estado de pacientes (12%) tornou-se crítico, necessitando de admissão em unidades de cuidados intensivos. Cinco necessitaram de ventilação mecânica invasiva.

A taxa de mortalidade geral foi de 4%, mais baixa do que a da população geral espanhola em geral naquele momento, mas comparativamente mais elevada quando se considerava apenas a faixa etária situada entre os 50 e os 59 anos. Nos doentes críticos, a taxa de mortalidade foi de 33%. Não houve diferença significativa em relação a idade, sexo, presença de comorbilidades, esquema de TARV ou tempo de infeção pelo VIH entre os que apresentaram doença crítica e os restantes. Os pacientes que morreram apresentavam carga viral indetetável e contagem de células CD4 de 137 e 636 células/mm³.

Por último, uma revisão sistemática publicada por Cooper et al. (2020), após pesquisa na literatura, incluiu 8 artigos que avaliavam a relação da infeção por VIH e o curso da Covid-19. Em relação aos pacientes com VIH bem controlado, pacientes com carga viral indetetável e níveis normais de linfócitos T-CD4, não houve diferença na apresentação clínica da infeção por SARS-CoV-2, com a presença de sintomas típicos como tosse, febre, dispneia e fadiga.

A maioria dos estudos avaliados não mostrou diferença significativa nas taxas de mortalidade por Covid-19 entre pacientes VIH bem controlados e a população em geral. Já em relação a pacientes com contagem de CD4 < 200 células/mm³, os dados dos estudos incluídos na revisão não puderam esclarecer de forma inequívoca se há ou não maior propensão dessa população para o desenvolvimento de piores desfechos clínicos.

Perante os dados destes estudos, “parece não haver diferenças significativas entre as características e desfechos clínicos da Covid-19 entre indivíduos infetados ou não pelo vírus VIH, especialmente nos que apresentam bom controle imunovirológico”, refere Isabel Cristina Mendes, infeciologista do Hospital Uiversitário Clementino Fraga Filho, no Rio de Janeiro, na PEBMED. “A apresentação clínica mais frequente nesta população foram os sintomas típicos de Covid-19, semelhante à população em geral. Faltam dados em relação ao prognóstico de Covid-19 em pacientes com infeção pelo VIH não controlada”.

NR/HN/Adelaide Oliveira

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