Pedro Pita Barros Professor catedrático da Faculdade de Economia, Universidade Nova de Lisboa;

Do estado de emergência ao pós-COVID

05/05/2020

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Do estado de emergência ao pós-COVID

05/05/2020 | Opinião

A pandemia da COVID-19 alterou radicalmente a forma como estava planeada a minha vida profissional e pessoal até ao Verão, como sucedeu com praticamente todas as pessoas. No início de março estava em Boston, para um semestre de investigação. Assisti de longe aos primeiros casos de COVID-19 serem anunciados em Portugal e sem conhecer em detalhe os sentimentos locais. Pelas notícias conseguia-se perceber a preocupação em Portugal, em crescendo, atendendo ao que ao mesmo tempo ia sucedendo em Itália e em Espanha. E nos Estados Unidos começava nessa altura o encerramento progressivo, com uns dias de atraso face ao que foi decidido em Portugal. Falhei por isso as primeiras grandes polémicas da resposta à pandemia por ausência no estrangeiro. Regressei a Portugal no dia em que fecharam as fronteiras com Espanha, o mesmo dia em que a presidente da Comissão Europeia anunciava as limitações no transporte aéreo. Pouco depois foi declarado o Estado de Emergência em Portugal. Não houve período de adaptação. Instalaram-se rotinas novas, na vida do dia-a-dia e na vida profissional.
De um lado, as restrições de circulação quotidiana e as novas regras a seguir para evitar situações de contágio, cuidados com gestos habituais, como levar a mão à cara. De outro lado, a passagem para ligações através internet que substituem muito do que anteriormente era feito presencialmente. Felizmente, as minhas atividades profissionais tinham uma componente de ligação à distância crescente, e parte substancial do que ainda não o era pode ser facilmente transportado para plataformas online. A novidade acabou por estar mais na intensidade crescente na utilização de skype, zoom, webex e similares, no que na novidade dessas plataformas.
A principal mudança deste período não esteve, pois, na utilização da tecnologia por si, e mais no número de ocasiões em que passou a ser usada: reuniões, seminários, discussões de investigação, etc. O que me tem levado a algumas constatações.
A etiqueta das reuniões online é diferente das reuniões presenciais. A tendência (portuguesa?) de interrupção para colocar uma questão, ou deixar uma observação por cima de quem está a falar, desaparece em grande medida. Desde logo porque quem inicia a reunião online passa a ter à disposição a capacidade de calar a voz (literalmente) de quem está presente. E frequentemente pede-se que quem não está a falar desligue o microfone. Estas pequenas condições e regras alteram substancialmente a interação entre os presentes. Faz com que com as reuniões online acabem por ser mais organizadas (pelo menos, nas que tenho estado) do que as reuniões presenciais. Tem vantagens, de rapidez e eficácia. Mas para as reuniões de investigação, onde um certo caos de discussão é útil para fazer andar as ideias, a versão online acaba por ser um fraco substituto da riqueza da discussão presencial.
Uma segunda constatação é a (in)capacidade de organizar agenda é facilmente replicada na vida online – ter reuniões, ou mais propriamente sessões zoom, consecutivas, sem intervalo entre elas torna-se comum. E nessas sequências de sessões acaba-se por não ter o pequeno tempo de descanso mental que existe quando em reuniões presenciais se muda de sala, de edifício ou até de rua, dando um pequeno espaço para se respirar, mesmo que feito em passo acelerado. No mundo das reuniões online, é preciso aprender a encontrar os espaços de descanso entre sessões, sobretudo quando há mudança de tema em discussão.
A terceira constatação é a congestão das redes de telecomunicações, a necessidade de dentro da mesma casa se coordenar quem se liga quando, se usando o wifi ou os dados do telemóvel. O que até há pouco era um recurso essencialmente livre, tornou-se um bem escasso, com a necessidade de novas regras de utilização.
Várias destas mudanças vieram para ficar. Deixam também espaço para escolher melhor as reuniões presenciais futuras.
Mudemos do hardware, o como se trabalha, para o software, sobre que temas se trabalha. A evolução da COVID-19, em Portugal e noutros países, infetou também as discussões e análises, com a produção e divulgação de muitos textos e análises, com muita informação e desinformação a circular nas redes sociais. Os primeiros tempos foram caracterizados por uma explosão de análises baseadas em modelos matemáticos de evolução de epidemias e em modelos estatísticos de exploração dos (poucos) dados que foram surgindo. A necessidade, generalizada na sociedade, de procurar perceber quantitativamente e de prever tanto quanto possível a evolução da pandemia esteve muito presente, incluindo o acompanhamento diário dos números divulgados pela Direção-Geral da Saúde. E onde frequentemente as opiniões que muitos expressaram tinham, em doses variáveis, análise, esperanças e medos. Aos poucos, foi-se normalizando esse acompanhamento, sobretudo à medida que se tornava aparente que as piores expectativas, baseadas nas situações extremas que ocorreram e estavam a ocorrer noutros países, não se estavam a concretizar em Portugal. O acompanhamento da COVID-19 e de como a sociedade portuguesa estava a reagir passou também para o plano profissional, com o desenvolvimento de projetos que envolvem inquéritos regulares, um puramente nacional, outro internacional, procurando uma visão mais europeia. E os resultados que estão a surgir desses projetos ajudam a moldar, inevitavelmente, a visão que se desenvolve dos efeitos da pandemia na sociedade e na economia nacionais.
Foi clara a primeira fase de grande preocupação com a doença propriamente dita nos primeiros dias e semanas. Preocupação que começou a reduzir-se por volta da altura da Páscoa, ainda que de forma ligeira. Em sentido inverso tem-se a preocupação com a economia, com os efeitos na capacidade de gerar rendimentos, de manter emprego, das medidas de contenção do contágio. Uma grande maioria das pessoas à medida que a preocupação com a doença propriamente dita desce um pouco ganha cada vez mais preocupação com as consequências financeiras na sua vida. E numa visão internacional, esta atenção à COVID-19 em Portugal traduziu-se em sermos o país cuja população (numa amostra de inquiridos) mostrou melhor conhecer e aderir às recomendações de distanciamento físico, lavagem de mãos, etc.
Há, agora, a expectativa de saber como se processará a passagem para menos restrições de circulação e de atividade económica, saber se este período de dois meses desde o inicio da pandemia em Portugal, com 3/4 desse tempo passados em estado de emergência, transformou os nossos hábitos, e dessa forma se conseguirá manter a evolução da pandemia controlada. Se profissionalmente, os meus próximos tempos serão essencialmente uma continuação dos últimos dois meses, já socialmente será um tempo de ver o que se tem chamado de “novo normal”. Não será exatamente um tempo pós-COVID. Mais provavelmente será um tempo com-COVID (controlada). Sem certezas, de descobertas.

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