Maria do Carmo Cafede Médica especialista em MGF

Buzzword, bot e fake news

06/08/2020

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Buzzword, bot e fake news

08/06/2020 | Opinião

Escolhi um título só com estrangeirismos para garantir a leitura deste texto, pelo menos, até aqui. Caso decidisse por mais um cabeçalho «’qualquer coisa’ em tempos de pandemia por Covid-19», estou certa de que perderia leitores antes de o serem.

Tudo por causa do mimetismo mediático (o fenómeno tem nome), que leva a que todos os media produzam notícias de acordo com uma imitação delirante, um efeito ‘bola de neve’, explorando sem ética a hiper-emoção e causando uma intoxicação relacionada com o tema.

Os exemplos são inúmeros e lembro apenas alguns: a morte da Princesa Diana, o ataque às Torres Gémeas, os rapazes presos numa gruta na Tailândia. Apesar de se saber que o excesso de notícias tende para o zero em informação, é um estilo que se usa muito por estes dias. No entanto, a questão principal fica sem resposta. Como comunicar em tempo de crise? E este poderia ser um título mais aceitável, dirá alguém. Agora, que já começámos a analisar as consequências da pandemia e as primeiras ‘lições aprendidas’ são partilhadas, pode dizer-se que a comunicação tem uma importância fundamental, crítica mesmo, em situações de crise. A própria definição de ‘comunicação de crise’ (necessidade de superintender, com cuidado acrescido, os fluxos de comunicação em ambiente de instabilidade e em contextos dinâmicos, com cenários imprevisíveis), pressupõe que exista um Gabinete de Crise, permanente, mesmo em tempos tranquilos, que integre um ou mais profissionais de comunicação, cuja tarefa é aconselhar a gestão de topo e gerir todos os fluxos comunicacionais com os diferentes públicos.

O trabalho de um Gabinete destes requer um planeamento de estratégias e ações que visem minimizar os efeitos da situação – ou mesmo combatê-la. Sabe-se, ao longo dos tempos, que as instituições que tinham um Manual de Crise se adaptaram com mais sucesso e com menos danos, nomeadamente, em relação aos recursos humanos. Há que selecionar os Grupos Prioritários a quem se destinam as mensagens. Os colaboradores da instituição são diversos e têm expectativas diversas, também. Há que diferenciar as mensagens consoante se destinem aos média, aos clientes, aos líderes de opinião, às comunidades local, regional e nacional. Caso contrário, a perceção é influenciada negativamente, porque não se teve em conta a experiência, os interesses e as motivações dos destinatários.

A comunicação tem que ser verdadeira e certa. Do mesmo modo que não podemos precipitar a informação também não devemos prolongar os silêncios. A centralização dos fluxos de comunicação tem que ser feita por um (ou mais), porta-voz. Os comunicados devem ser expressos em linguagem clara, sem margem para interpretações ambíguas. Há que ser ativo e não reativo. Devem manter-se canais abertos que permitam a comunicação em sentido contrário. A informação que circula na opinião pública tem que ser vigiada para permitir adequar eventuais respostas. Atualmente, não podemos ignorar as agendas das redes sociais, quer a nível particular, quer de várias organizações (político-partidárias, corporativas e comerciais), que são verdadeiros cataventos digitais, e se transformam em caixas de ressonância de acontecimentos, que não criaram nem controlam. Mas então, o que é uma notícia? Que critérios e que fatores determinam a noticiabilidade dos acontecimentos? As respostas a estas questões são pedras basilares de um jornalismo ético e responsável. Assim como a verificação dos factos. Mas a dimensão ‘tempo’ traz uma pressão negativa à notícia, que tem de ser apresentada num determinado momento, ou quanto mais cedo melhor, levando o jornalista a parar a sua verificação.

A transmissão e a partilha imediata de mensagens obedecem a lógicas de um novo mundo, que integra outros protagonistas e outras dimensões, que com frequência se descontextualizam. Em relação às notícias falsas (e não falsificadas), há quem seja mais rigoroso e afirme que elas não existem. O que existe são consumidores indiferentes, ou mesmo cúmplices. Temos que olhar para o problema maior, as iliteracias digital e cívica. Embora existam plataformas de fact-checking, não resolvem o problema do seu aparecimento, sendo uma medida paliativa. Fake news é uma buzzword, ou seja, palavras que podem ou não já existir, que se tornam populares num determinado período. Geralmente têm origem em termos técnicos (jargão, acrónimos ou neologismos), desprovidos do seu significado principal e usadas para impressionar outros. Eis alguns exemplos, ‘startup’, ‘pensar fora da caixa’, ‘inteligência artificial’.

O termo pode ser um saco grande, onde cabem coisas distintas. Há as notícias falsificadas, que não se referem a nenhum acontecimento verdadeiro, sendo criadas com um propósito malicioso. Depois, temos as que correspondem a acontecimentos verdadeiros, mas foram modificadas ou apresentadas fora de contexto. A disseminação destas notícias faz-se através das novas tecnologias com os bot. São programas de computador, como se fossem aplicações, que varrem a internet, fazendo tarefas repetitivas e automatizadas, derivando da palavra ‘robot’. São, atualmente, responsáveis por mais de 50% do tráfego na net. A utilização pode ter propósitos pacíficos ou não. Terão sido os bot os responsáveis pela interferência da Rússia nas eleições de 2016, nos Estados Unidos. No entanto, as notícias sempre sobreviveram aos avanços da tecnologia e vão fazê-lo as vezes que forem necessárias.

As crises, momentos únicos de puro caos, não se podem prever nem ignorar. Há que tomar decisões na incerteza, alocar recursos materiais e humanos, num passo célere. Mas devemos munir-nos de ferramentas que visem a reação e a superação da crise. A comunicação entre intervenientes não deve ser descurada. De uma vez por todas, há que encarar esta necessidade como prioritária no sector da saúde. Nada pode ser deixado ao acaso ou para quem tem ‘jeitinho’. Há profissionais treinados e as suas competências têm que ser utilizadas criteriosamente.

Nota: Este texto não teria sido possível sem a ajuda de «Mini Guia de Comunicação em Crise», elaborado pelo Instituto De Ciências Sociais, da Universidade do Minho. E também com o artigo de Andreia Fernandes Silva,
«Porque é que as fake news se transformaram em protagonistas do
jornalismo contemporâneo?», Comunicação Pública [Online], Vol.14 nº 26 | 2019, posto online no dia
28 junho 2019, consultado o 02 outubro 2019.
URL: http://journals.openedition.org/cp/4139;
DOI :10.4000/cp.4139

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