Instituições portuguesas na Argentina ajudam no combate à pandemia

6 de Julho 2020

Duas instituições da comunidade portuguesa na Argentina ofereceram as suas instalações para se tornarem hospitais de campanha, ajudando a descomprimir a ocupação da rede de Saúde e exaltando a solidariedade dos portugueses no exterior.

“O objetivo dessa iniciativa é que não se sature a capacidade do sistema de saúde, público e privado, para que todos possam ser bem atendidos. Aqui vão ficar pacientes com sintomas leves”, indica à Lusa o presidente do Clube Português da Grande Buenos Aires, Víctor Estanqueiro.

O ginásio do clube onde antes da pandemia se praticavam desportos, deu lugar ao que se denomina oficialmente como Centro de Isolamento Social, Preventivo e Obrigatório, pronto a receber os primeiros pacientes.

São cem camas, com dois metros de distância entre si, que receberão doentes a cada 14 dias, período em que ou o paciente recupera, ou passa a uma internação hospitalar mais intensiva. Com a chegada dos doentes, outras cem pessoas, entre médicos, enfermeiros e seguranças, vão começar os trabalhos.

A estrutura está prevista para enfrentar uma realidade de desigualdade social, própria da América Latina, considerada um dos desafios na propagação do vírus.

Os bairros mais populares desta região são compostos por moradias precárias, onde num espaço reduzido, equivalente a um quarto, podem conviver várias pessoas de uma mesma família. Essa vulnerabilidade social impede que o contagiado ou o suspeito de contágio possa isolar-se dos demais.

“Estamos a estender mão solidária a quem tem problemas habitacionais. Basicamente, este centro é para os mais necessitados que não podem isolar-se em casa, mas que não estão [numa situação tão grave] a ponto de um internamento hospitalar”, aponta Estanqueiro.

O Clube Português da Grande Buenos Aires foi um dos primeiros a disponibilizar o quarteirão que ocupa, ainda nos primeiros dias de abril. O processo para condicionar o ginásio com aquecimento para temperaturas invernais abaixo de 10 graus, instalações elétricas, iluminação, câmaras e ligação à Internet durou dois meses, até à semana passada.

“Estamos prontos. Está iminente a chegada dos primeiros pacientes”, anuncia Víctor Estanqueiro.

A instituição portuguesa fica na cidade de Isidro Casanova, no distrito de La Matanza, o mais populoso da região periférica de Buenos Aires.

A região metropolitana é composta pela capital argentina, com três milhões de habitantes, além de dez distritos, com 13 milhões de habitantes, formando um conjunto urbano, entre a cidade e os seus subúrbios e ‘satélites’ (conurbação), que vive uma quarentena total e obrigatória.

Enquanto 54,1% das camas de Cuidados Intensivos estão ocupadas na região metropolitana de Buenos Aires, a ocupação em La Matanza, especificamente, chega a 69,6%.

Nesse distrito, 40 clubes, igrejas e associações ofereceram as suas instalações para se tornarem hospitais provisórios. Juntas vão ampliar em quatro mil o número de camas disponíveis nos 16 municípios do distrito. O Clube Português é a referência para Isidro Casanova.

“Quisemos devolver um pouco do que recebemos quando os imigrantes portugueses, nossos pais e avós, chegaram aqui. Isidro Casanova é uma cidade praticamente feita por portugueses. A pandemia mundial leva-nos a cumprir o nosso papel social, além de representarmos o braço solidário de Portugal”, orgulha-se Víctor Estanqueiro.

Na cidade de Villa Elisa, distrito de La Plata, a Casa de Portugal – Virgem de Fátima é a outra instituição portuguesa que se ofereceu para se tornar hospital de campanha. A iniciativa foi uma decisão unânime da sua direção, antes mesmo de a Argentina se declarar em quarentena total, em 20 de março.

“Vimos que a situação se complicava e que a ocupação de leitos seria o grande desafio. Colocamo-nos à disposição das autoridades municipais que nos incluíram numa lista como instituição disponível para emergências”, explica à Lusa o secretário-geral da Casa de Portugal, Carlos de Oliveira, destacando que “as autoridades locais ficaram bem impressionadas com a iniciativa da comunidade portuguesa”.

Com uma situação mais administrável do que La Matanza, as autoridades de La Plata ainda não iniciaram o processo para que a instituição portuguesa se torne, na prática, um centro de socorro, mas os primeiros passos já foram tomados perante a contingência.

“Esvaziámos o ginásio e os espaços que poderiam ser úteis. Está tudo vedado à espera de um pedido das autoridades, mas ainda não há camas nem equipamentos. Estamos prontos para o caso de sermos acionados”, avisa Carlos de Oliveira.

“Essas iniciativas refletem os valores portugueses da solidariedade e da partilha. Nessas coisas, especialmente nas adversidades, os portugueses são exemplares. O cidadão português no exterior revela-se tão bom cidadão do país que o acolhe quanto do país de origem”, emociona-se o embaixador português na Argentina, João Ribeiro de Almeida, em declarações à Lusa.

A comunidade na Argentina é composta por 21 mil inscritos no Consulado, um número que duplica com os lusodescendentes.

Com 45 milhões de habitantes, 75.376 contagiados e 1.481 mortos, a Argentina é o terceiro país da América do Sul a melhor administrar a pandemia, depois de Uruguai e Paraguai, respetivamente. O governo considera que o país aproxima-se das semanas de maior contágio e estendeu a quarentena até, pelo menos, 17 de julho.

LUSA/HN

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