António de Sousa Uva
Médico e Professor

+COVID-19: o “8 e o 80” ou o yô-yô que nos caracteriza?

10/06/2021 | Opinião

Na cronologia da pandemia voltamos ao yô-yô que tanto nos caracteriza. E o perfil adapta-se à realidade actual: menor gravidade da COVID-19, mensurada pela letalidade e internamentos em hospital (e UCI). De facto, as taxas de vacinação de grupos vulneráveis e de idosos recentra o alvo da partícula viral nos bem mais jovens que em muito menor percentagem determina situações de maior gravidade. E também eles, não nos esqueçamos, menos “militantes” da imunoterapia específica o que indicia que a tendência se manterá.

Como resultado disso, menos internamentos em enfermaria e em cuidados intensivos mas cada vez grupos etários mais jovens com casos, pelo menos em números absolutos, também em crescendo.

Os surtos crescem como gramíneas em meio familiar, escolar, social e profissional e as Unidades de Saúde Pública começam a “bater válvulas” e, pasme-se, há quem lhes atribua até uma das razões do agravamento pelo regresso dos atrasos nos inquéritos epidemiológicos, What????.

É o “déjà vu” revelador que mudamos muito para, no essencial, ficar tudo na mesma e em breve prevê-se o regresso dos militares (sempre prontos  a servir a Pátria) a realizar essas tarefas, ainda que com as deficiências esperadas determinadas pelo recurso a abordagens “simplificadas” do processo de esclarecimento de potenciais cadeias de transmissão.

Não serão os cerca de 18 meses de pandemia suficientes para melhorarmos mais do que temos melhorado?

Não deveriamos já ter iniciado o apoio de reforços na inquirição epidemiológica (espera-se mais especializada) cada vez mais determinante para o “controlo” da pandemia?

Ou estamos à espera, não de uma pressão nos hospitais como vivenciámos, mas no regresso de uma pressão económica e social que culminará no galopante agravamento da pauperização de cada vez mais portugueses e da “falência” da tão ansiada retoma económica?

Só é possível melhorar se interpretarmos as nossas fragilidades como “gatilhos” de melhoria contínua. Ao longo da pandemia o acme da inesperiência (ou mesmo “ingenuidade”) observou-se na transição da segunda para a terceira vaga (que a encavalitou) que todos recordamos no Natal de 2020 e nas semanas que lhe sucederam numa floresta de modelos matemáticos perspectivados quase como uma terapêutica para a pandemia (?).

Não será isso suficiente para sermos mais “agressivos” nas políticas públicas? Ou queremos perpetuar confinamentos também com o mesmo perfil yô-yô? É que sermos todos “agentes de Saúde Pública” não chega! É preciso que o que é mais precioso na gestão de risco não seja “desbaratado”. Refiro-me, claro, ao tempo de resposta adequado de respostas de políticas públicas igualmente adequadas! De que estamos à espera?

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