07/02/2022 | Consultório

Intervenção nutricional na depleção muscular do doente com cancro

Elsa Madureira
Mestre e Doutora em Nutrição Clínica pela Universidade do Porto
Nutricionista no Serviço de Nutrição do Centro Hospitalar e Universitário de São João, Porto

Os doentes com cancro são doentes com um elevado risco de malnutrição, o que tem um impacto muito negativo nos resultados dos tratamentos.

Esta malnutrição pode assumir diferentes apresentações. Desde a “simples” diminuição da ingestão alimentar associada a anorexia e outros sintomas com impacto nutricional. Pode resultar em caquexia se a estes sintomas associarmos a depleção muscular e a inflamação sistémica. Ou pode, ainda, refletir-se apenas no músculo, com perda de massa, função e força muscular, e estamos na presença de sarcopenia.

Comum a estas patologias é a depleção muscular, considerada a característica mais marcante da malnutrição oncológica.

Esta resulta da ação das citocinas proinflamatórias e outros mediadores tumorais que atuam em vários órgãos e que direta ou indiretamente tem impacto na massa muscular (bem como na massa gorda). Mas o tratamento a que estes doentes são submetidos também pode contribuir para esta degradação da massa muscular. Sabe-se já que muitos dos fármacos utilizados no tratamento oncológico (quimioterapia e imunoterapia) também têm uma ação na depleção muscular. Naturalmente, uma ingestão alimentar inadequada tanto em energia como em proteínas e insuficiente em alguns micronutrientes (ou o comprometimento da absorção intestinal) assim como a inatividade física, também contribuem para esta depleção da massa muscular.

E esta perda de massa muscular resulta em menor tolerância aos tratamentos, aumento das toxicidades e complicações associadas a tratamentos e cirurgias, maior risco de reduções de doses, adiamentos e interrupções, pior resposta ao tratamento e menor tempo de sobrevivência.

A recuperação da massa muscular é possível mesmo em doentes oncológicos (que não em estado terminal). Com uma intervenção multimodal é possível promover o anabolismo muscular  nestes doentes. É necessária a associação de uma alimentação adequada à prática de exercício físico orientado. Esta intervenção deve ser o mais precoce possível, se possível ainda antes do início dos tratamentos mas durante os mesmos é igualmente importante e eficaz. A intervenção nutricional deve ser sempre individualizada e adequada à situação clínica, sócio-familiar e aos gostos/preferências/tolerâncias do doente.

As recomendações nutricionais passam pela adequação do aporte energético e um aumento do aporte proteico.

Quanto à qualidade das proteínas, as de fonte animal são as que melhores resultados promovem a nível da síntese muscular. Os aminoácidos de cadeia ramificada, particularmente a leucina ou os seu metabolitos como o HMB (β‐hidroxi β‐metilbutirato) parecem ser os que têm melhor potencial para síntese muscular.  Uma distribuição da ingestão proteica ao longo do dia deve ser equitativa, ou seja, repartida em porções relativamente semelhantes pelas várias refeições do dia, uma vez que parece que estes momentos pós-prandiais são os de maior potencial para a síntese muscular.

Os ácidos gordos polinsaturados n-3 como o ácido eicosapentanoico (EPA) e o ácido docosahexanoico (DHA), graças à sua ação antiinflamatória, parecem ter um efeito positivo no controlo do processo de caquexia e depleção muscular e no aumento do apetite, pelo que é recomendada a sua ingestão

Relativamente a vitaminas e minerais, a suplementação apenas é recomendada em casos de manifesta ingestão deficitária e nunca acima das doses diárias recomendadas. A vitamina D, pela associação encontrada entre défices da vitamina e mais baixos níveis de massa muscular, deve ser alvo de preocupação e deve ser suplementada, em associação ao reforço proteico, para prevenção da depleção muscular e promoção da síntese proteica em doentes com cancro e em risco nutricional.

Pode ser útil o recurso a suplementos nutricionais orais com uma composição adequada de forma a ir  às necessidades específicas destes doentes.

Em conclusão, a depleção muscular é muito prevalente nos doentes com cancro e é transversal a todos os tipos de tumor, embora mais nos tumores digestivos. Passa frequentemente despercebida até ser evidente, pelo que deve ser rastreada precocemente. A intervenção multidisciplinar é essencial e a adequação da alimentação às necessidades específicas dos doentes com cancro pode prevenir ou reverter as situações de caquexia ou sarcopenia, melhorando sua qualidade de vida e o prognóstico.

 

 

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