Mário André Macedo Enfermeiro Especialista em Saúde Infantil e Pediátrica

Não há recusa do que não existe

02/21/2022

O fenómeno da hesitação vacinal é complexo, com várias causas e raízes. É um fenómeno bastante dinâmico, com vários gradientes, não se resumindo a uma posição dicotómica estática. É uma preocupação legítima da saúde pública e dos decisores políticos, tanto na Europa como na América do Norte. Mas não devemos projetar este problema para o resto do mundo. Antes de chegarmos à dimensão da recusa vacinal, é preciso passar pelas dimensões da disponibilidade e acessibilidade vacinal.

Ouvimos demasiadas vezes o argumento “os países pobres já têm acesso às vacinas, eles é que não as querem tomar!”. É uma narrativa que apaga a profunda desigualdade no acesso às vacinas e esconde que 80% dos residentes no continente africano, não tiveram acesso a uma única dose de qualquer vacina contra a Covid. Por outro lado, no continente europeu, o ECDC reporta que mais de metade dos cidadãos já teve acesso a uma dose de reforço.

Fica absolutamente claro, que esta enorme disparidade não é fruto da recusa vacinal. Mascarar a falta de acesso com recusa vacinal é desonesto e não contribui para a resolução do problema. O seu único ponto de contacto, é que são ambas o produto de uma construção material e social, com profundas raízes históricas. Por motivos diferentes aos verificados na Europa, a recusa vacinal e desconfiança da indústria farmacêutica ocidental, nos países de médio e baixo rendimento, tem complexos alicerces históricos e políticos. Não é preciso recuar muito no tempo para encontrar exemplos. Já neste século, desde ensaios da Pfizer com antibióticos experimentais na Nigéria sem cumprir nenhum preceito ético, ao envolvimento da CIA em falsas campanhas de vacinação, não faltam histórias que validam a desconfiança da população.

Talvez mais surpreendente para um observador ocidental, é que apesar deste passado recente, os estudos apontam que a recusa vacinal é menor em países de baixo e médio rendimento, atingido valores bem mais elevados nos EUA e Rússia que no Nepal ou Serra Leoa. A menor cobertura vacinal dos últimos, é mais fruto da dificuldade de acesso a cuidados de saúde, que da recusa a qualquer tipo de vacina. Em 2021, 99% dos pais da Serra Leoa, dizia que as vacinas são importantes para salvar a vida aos seus filhos e 95% afirma que são seguras. Nos EUA, estes valores descem para 87% para a perceção da importância para salvar vidas e apenas 73% para a segurança.

Também no ano passado, o CDC africano publicou um estudo onde é revelado que 80% dos habitantes do continente estavam disponíveis para receber a vacina contra a Covid. As declarações do CEO da Pfizer ou do primeiro ministro inglês, que afirmaram publicamente que “os africanos não querem tomar a vacina”, são, no melhor cenário, uma especulação não informada, ou na pior das hipóteses, uma tentativa de mascarar a realidade. O Ocidente tem feito pouco para corrigir a desigualdade no acesso mundial às vacinas, é mais fácil acusar o Outro de recusar a vacina, em vez de solucionar e partilhar a solução para a pandemia global.

Devemos evitar confundir hesitação vacinal com a falta de acesso. No nosso privilégio da abundância de vacinas e facilidade de acesso aos cuidados de saúde, é natural que haja mais atenção mediática aos 3-4% de portugueses que recusaram a vacina, que aos 96% que a aceitaram e cumpriram todas as indicações das autoridades de saúde. O sucesso português da vacinação em muito se deveu à sua população. Mas cuidado com as projeções e extrapolações para outros contextos. Não pode haver recusa de um bem que não está disponível.

0 Comments

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

ÚLTIMAS

Cuidados continuados integrados: o desafio da fragmentação em Portugal

A prestação de cuidados continuados em Portugal caracteriza-se pela fragmentação entre serviços de saúde e sociais, criando lacunas na assistência a idosos e pessoas com dependência. A falta de coordenação entre os diferentes níveis de cuidados resulta em transições inadequadas e sobrecarga para as famílias

O Paradoxo Português: Mais Médicos Não Significa Melhor Saúde

Portugal supera a média da OCDE em número de médicos, uma vantagem que esconde uma fragilidade crítica. A escassez persistente de enfermeiros compromete a eficácia dos cuidados, sobrecarrega o sistema e expõe um desequilíbrio perigoso na equipa de saúde nacional

Prescrição segura em Portugal: antibióticos e opioides ainda acima das melhores práticas internacionais

Portugal mantém níveis de prescrição de antibióticos nos cuidados primários superiores à média da OCDE, um padrão partilhado com outros países do sul da Europa. Este uso excessivo, aliado a uma tendência crescente para opioides, alerta para riscos de resistência antimicrobiana e dependência, exigindo uma estratégia nacional concertada para mudar práticas clínicas e culturais profundamente enraizadas

Prevenção em Saúde: A Cura que Portugal Ignora

Apenas 3% da despesa em saúde em Portugal é canalizada para a prevenção. Este investimento residual, estagnado há uma década, condena o sistema nacional a um ciclo vicioso de tratamentos caros e reativos. Enquanto isso, países como a Finlândia e o Canadá demonstram que priorizar a prevenção é a estratégia mais inteligente e económica para travar o tsunami das doenças crónicas

Inovação em Saúde Portuguesa: O Labirinto Burocrático que Prende o Futuro

O relatório “Health at a Glance 2025” da OCDE expõe uma contradição gritante em Portugal: apesar de uma investigação robusta e profissionais qualificados, a inovação em saúde enfrenta anos de entraves burocráticos, deixando os doentes à espera de terapias já disponíveis noutros países e travando a modernização do SNS

Trabalhadores Estrangeiros: O Esteio Insustentável do SNS

A dependência de médicos formados no estrangeiro tornou-se um pilar vital, porém frágil, do Serviço Nacional de Saúde. Enquanto a OCDE confirma esta tendência global, em Portugal a contratação internacional é a tábua de salvação para serviços à beira do colapso, mascarando uma crise profunda de atratividade e retenção de talentos nacionais

Cirurgia de Ambulatório: A Revolução Inacabada do SNS

Portugal aumentou a cirurgia de ambulatório, permitindo altas no mesmo dia e libertando camas. No entanto, o relatório “Health at a Glance 2025” da OCDE revela que o país está longe do seu potencial máximo. Barreiras culturais e organizacionais travam uma expansão que poderia ser decisiva para reduzir listas de espera e aumentar a resiliência do SNS

Preparação para Crises: A Lição Ignorada de Portugal

O relatório “Health at a Glance 2025” da OCDE expõe a vulnerabilidade de Portugal face a novas crises sanitárias. Com um investimento residual na preparação para emergências e capacidades de cuidados críticos, o país arrisca-se a repetir os erros da pandemia, sem ter reforçado a resiliência do seu sistema de saúde. A janela de oportunidade para agir está a fechar-se.

MAIS LIDAS

Share This
Verified by MonsterInsights