Ucrânia: Incerteza dificulta para já novas previsões macroeconómicas

O impacto da guerra na Ucrânia na economia e finanças públicas portuguesas é certo, mas a incerteza em torno da duração do conflito e, por arrasto, das consequências, dificulta para já novas estimativas dos economistas para o cenário macroeconómico.

Os analistas consultados pela Lusa assinalam que o impacto do conflito chegará a Portugal sobretudo através de efeitos indiretos, quer através do impacto na economia da zona euro, quer dos preços da energia e das matérias-primas, obrigando a rever as previsões económicas para Portugal.

Em declarações à Lusa, em 02 de março, o ministro das Finanças, João Leão, admitiu que o conflito entre a Rússia e a Ucrânia deve levar a uma revisão em baixa nas projeções de crescimento de Portugal, seguindo a tendência da União Europeia.

João Borges de Assunção, coordenador do Católica-Lisbon Forecasting Lab (NECEP), assinala à Lusa que a previsão da instituição para 2022 “era de uma variação anual entre 3,3% e 5,3%, antes da invasão da Ucrânia pela Rússia” e, apesar dessa perspetiva já estar desatualizada, refere que a instituição ainda não tem uma nova.

“Também as metas do Orçamento do Estado para o saldo orçamental e a dívida pública se encontram desatualizadas”, assinala.

O economista nota que “as alterações orçamentais necessárias em todos os países da União Europeia recomendam um novo adiamento do regresso das regras do Tratado Orçamental”.

Em 02 de março, à Lusa, o ministro português mostrou-se, contudo, convicto de que Portugal irá continuar “a ser um dos países que mais cresce na Europa, mas revendo em baixa as previsões que tinha face há um mês. Portugal, apesar de tudo, é dos países menos afetados”.

Para Pedro Braz Teixeira, diretor do Gabinete de Estudos do Fórum para a Competitividade, “com menor crescimento económico e, provavelmente, com a necessidade de alguma forma de apoio à economia, para evitar uma desaceleração mais forte, é quase certo que o défice público será superior e a dívida pública também”.

Ainda assim, ressalva que, “quer a Comissão Europeia, quer os mercados financeiros não deverão mostrar grande inquietação com esta evolução, porque se trata de um problema mundial, tal como a pandemia já o tinha sido. Falta acrescentar que se espera um efeito positivo, ainda que diminuto, no sentido em que as taxas de juro da dívida não deverão subir tanto como se esperava anteriormente”.

A revisão em baixa das projeções de crescimento económico é transversal às várias economias europeias e o Banco Central Europeu (BCE) já cortou as previsões de expansão do Produto Interno Bruto (PIB) da zona euro em 2022 e subiu acentuadamente a de inflação.

A instituição presidida por Christine Lagarde prevê agora uma expansão do PIB de 3,7% este ano, quando previa 4,2% nas últimas projeções, e quanto à inflação aponta agora para 5,1% quando há três meses antecipava 3,2%.

A guerra “terá um impacto importante na atividade económica e na inflação, pelo aumento dos preços da energia e das matérias-primas e também pela perturbação do comércio internacional e da confiança”, disse hoje a presidente do BCE, Christine Lagarde.

A escalada do preço do petróleo desde a invasão tem sido uma das faces mais visíveis do impacto do conflito, o que leva o preço médio do barril a fixar-se acima do esperado pelo Governo na proposta do Orçamento do Estado para 2022 (OE2022). O Brent estava a negociar hoje acima dos 114 dólares.

“A evolução do preço do petróleo, antes da invasão da Ucrânia, já era suficiente para desatualizar o cenário macroeconómico do OE2022 em termos do défice externo e da inflação, e mesmo no crescimento”, refere João Borges de Assunção.

Para o economista, essas dificuldades agravam-se com a forte perturbação nos preços da energia nos mercados internacionais.

“Ainda é cedo para se concluir se estes preços do petróleo persistirão durante todo o ano ou apenas algumas semanas”, disse, salientando que a intensidade e a duração da guerra na Ucrânia, bem como o tipo de sanções económicas aplicadas à Rússia irão ditar a dimensão do agravamento na inflação e no défice e os custos em termos de crescimento.

João Borges de Assunção salienta ser “difícil antecipar hoje a dimensão destes efeitos”, vincando que “ainda não há dados de volume sobre as economias mundiais, mas apenas dados de preços em mercados financeiros fortemente perturbados”.

Pedro Braz Teixeira salienta ainda que o facto de os Estados Unidos decidirem banir as importações de petróleo russo colocou “simultaneamente” uma “grande pressão sobre os produtores americanos para aumentar a produção, para compensar aquela quebra”.

“Do Médio Oriente, sobretudo da Arábia Saudita, também se espera que haja resposta a estes preços excecionalmente elevados, que dificilmente são sustentáveis”, apontou, salientando que, “ainda assim, é altamente previsível a subida do preço do petróleo face aos níveis de 2021, o que deverá gerar um abrandamento da economia”.

Apesar de vincar que “o Governo decidiu finalmente aliviar os impostos sobre os combustíveis”, o economista do Fórum para a Competitividade defende que o executivo “deveria ir mais longe, para contrariar este efeito de abrandamento da economia”.

“Uma das três funções económicas do Estado é a estabilização da economia e as outras duas são a redistribuição do rendimento e a regulação dos mercados, pelo que deveria haver uma intervenção neste sentido, até porque a subida dos preços dos combustíveis é um dos canais principais de abrandamento da economia portuguesa. O outro canal é a desaceleração das economias que são destino das nossas exportações”, refere.

LUSA/HN

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