Cientista cabo-verdiano deixa Cambridge para liderar equipa de investigação nos EUA

21 de Maio 2022

O cientista cabo-verdiano Jay Brito Querido prepara-se para deixar a Universidade de Cambridge, no Reino Unido, e abraçar um novo desafio nos Estados Unidos da América (EUA), onde irá lecionar e liderar uma equipa de investigação.

Em entrevista à Lusa, o investigador de 38 anos, que se formou em Bioquímica Médica pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, contou que o facto de nunca ter vivido nos EUA contribuiu para aceitar esta mudança, uma vez que os sistemas científico e de ensino são diferentes daqueles a que está habituado, que são os sistemas cabo-verdiano e europeu.

“Ainda não tenho a experiência de viver nos Estados Unidos. Já vivi em cinco países diferentes, mas nos Estados Unidos será certamente um novo desafio. (…) Tenho plena consciência do grande desafio que será também liderar uma equipa e ajudar outros jovens investigadores a conseguirem realizar os seus sonhos de fazer investigação científica”, disse.

Jay Brito Querido iniciou a sua carreira como investigador no Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade Nova de Lisboa e, após um longo período a realizar investigação científica nesse Instituto, partiu para a França, para a Universidade de Estrasburgo, onde fez o doutoramento.

Seguiu-se o Reino Unido, onde, há quatro anos, iniciou um pós-doutoramento na Universidade de Cambridge e no ‘Medical Research Council Laboratory of Molecular Biology’ (Laboratório do Conselho de Investigação Médica de Biologia Molecular), na equipa de investigação liderada por Venkatraman Ramakrishnan, Prémio Nobel da Química.

Todo esse percurso levou-o até à Faculdade de Medicina da Universidade do Michigan, que integrará em setembro deste ano.

“Em 2020 fiz uma descoberta científica que foi considerada pela comunidade científica como uma descoberta importante. Descobri a estrutura do complexo que inicia a descodificação da informação genética em humanos e após essa descoberta tenho recebido vários convites para me candidatar a posições nos Estados Unidos, bem como na Europa”, contou.

“Candidatei-me a várias posições e tive a oportunidade de escolher entre as várias opções que tinha em cima da mesa, tendo optado por juntar-me à Universidade de Michigan que, através de concurso público internacional, ofereceu-me uma posição como professor e líder de uma equipa de investigação”, detalhou o cabo-verdiano.

Sobre o seu foco de investigação nos EUA, Brito Querido explicou que será tentar compreender como é que se dá a descodificação da informação genética durante as primeiras fases de desenvolvimento do cérebro humano.

“Também tenho um especial interesse em compreender algumas doenças neurológicas que estão associadas a erros na descodificação da informação genética. Então, diria que a minha ambição científica é tentar descobrir esses processos que depois podem nos ajudar a compreender aquilo que nós somos”, disse.

A par da atividade docente, o investigador anunciou que irá integrar o Center for RNA Biomedicine e o Rogel Cancer Center, além de ter recebido “um financiamento extremamente generoso” que lhe irá permitir contratar investigadores para o seu próprio laboratório, o “Brito Querido Lab”, assim como equipar esse espaço científico.

“Vou contratar tanto investigadores a nível do pós-doutoramento, quanto estudantes de doutoramento. Aquilo que procuro é um perfil bastante claro de investigadores que estejam altamente motivados, que queiram e sintam a ciência com a mesma emoção que eu sinto e que, acima de tudo, se divirtam a fazer ciência”, afirmou à Lusa.

Sobre o apoio que tem recebido de Cabo Verde, o cientista reconheceu as “muitas limitações financeiras” do país, mas sublinhou que tem sido feito “um esforço para investir na formação dos jovens”, nos vários níveis de ensino, quer a nível interno, quer no estrangeiro, através da cooperação com outras nações.

“Por exemplo, no caso da cooperação que Portugal tem com os Países Africanos de Língua Portuguesa, no caso de Cabo Verde isso tem ajudado a formar um grande número de quadros, quer a nível de licenciatura e mestrado, quer de doutoramento. Penso que é uma estratégia do país investir na formação dos quadros e da qual eu, e tantos outros jovens do país, temos beneficiado”, concluiu Jay Brito Querido.

LUSA/HN

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