10/06/2022 | Opinião

Organizações de saúde: Governança e Liderança  

Joana Baltazar
Enfermeira

As instituições de saúde enfrentam inúmeros desafios, tanto em Portugal como a nível mundial. Encontramo-nos perante uma sociedade contemporânea com transições demográficas constantes, transformações epidemiológicas, avanços científicos e tecnológicos constantes e céleres, com existência de uma economia volátil, sendo estes possíveis fatores responsáveis pela complexidade atual da gestão das instituições de saúde. Assim, uma das questões que se coloca é: Como se podem as organizações de saúde tornar mais competitivas e sustentáveis perante todos os obstáculos presentes?

Ao longo dos tempos tem existido a necessidade de encontrar estratégias que sejam eficazes na gestão das instituições de saúde, no sentido de tornarem os seus processos mais eficientes, otimizando as boas práticas de gestão e, consequentemente, melhorando os cuidados prestados e a sua qualidade.

As necessidades crescentes, constantes e mutáveis das organizações de saúde contrastam com falhas na governação dos sistemas de saúde. É indispensável uma liderança assertiva e transformativa, aliada a uma governação mais sensível e centrada na melhoria dos processos e resultados das organizações de saúde. É neste sentido que surge o conceito de governança ou governação clinica.

O termo governação foi originado no mundo comercial, que definia a Corporate Governance como um regime pelo qual as companhias protegiam os investimentos dos acionistas e minoravam os riscos de fraude e má prática. A governança clínica é uma estratégia utilizada com vista à melhoria da qualidade dos cuidados, tendo surgido no ano de 1997, no sistema nacional de saúde do Reino Unido (NHS). Mais tarde, a Organização Mundial de Saúde (OMS) foi a entidade responsável pela disseminação deste conceito nas instituições de saúde por todo o mundo. Quando aplicado à saúde, a governança tem como principal objetivo melhorar de forma contínua a qualidade dos serviços de saúde, garantindo um alto padrão nos atendimentos e a criação de um ambiente de excelência clínica. Na adoção desta tipologia de governação existem princípios fundamentais para a melhoria; nomeadamente o desenvolvimento de uma cultura de aprendizagem, liderança, valorização e apoio aos profissionais de saúde. No sentido de alcançar o objetivo da governança clínica em hospitais e outras instituições de saúde, é essencial motivar o comprometimento dos gestores e profissionais no seguimento correto das normas estabelecidas, analisando não só os resultados quantitativos de um atendimento, mas todos aqueles que impactam no desfecho do serviço. Desta forma, é imprescindível a participação e o envolvimento de todos os profissionais nos processos de gestão e tomada de decisão nas organizações e nos serviços de saúde.

Desde há duas décadas que são conduzidos estudos com o objetivo de analisar as percepções dos profissionais de saúde em relação à governação clínica. A literatura demonstra que a mesma é percecionada como parte integrante da cultura organizacional, onde a melhoria da qualidade é uma consequência de uma maior “abertura” e “confiança” por parte dos profissionais, e onde os erros são vistos como oportunidades de aprendizagem e não como motivos de punição.

Esta forma de gerência expõe um ambiente onde a excelência de cuidados pode florescer, através do estabelecimento de bons relacionamentos entre a liderança de topo e os trabalhadores de primeira linha, pelo trabalho em equipa e pela partilha de valores. É neste sentido que a liderança eficiente pode manifestar a importância de uma parceria com a governança clínica na melhoria da qualidade dos cuidados de saúde prestados nas organizações.

A liderança apresenta-se como a área onde ocorrem processos com vista a influenciar indivíduos ou grupos, no sentido de obter o seu esforço e trabalho, com vista ao alcance de metas e objetivos organizacionais. Acrescendo que, a grande maioria dos trabalhadores manifestam sentir-se mais comprometidos com os objetivos de líder do que com os objetivos da organização, pode-se aferir que a forma mais eficaz de envolver os profissionais de uma empresa é a partir do seu líder.

A liderança assume particular relevância e importância ao alterar o rumo dos resultados das organizações de saúde! É necessário contemplar a liderança de uma perspetiva dinamizadora, forte, coerente e integrativa, possibilitando uma governação eficaz. Deve existir, também, uma crescente integração dos profissionais de saúde nos objetivos organizacionais. Frequentemente, esta integração passa por dar a conhecer alvos comuns, partilhar estratégias e dividir motivações, inspirando os trabalhadores a progredir utilizando o próprio exemplo do líder. Estas estratégias assumem total relevância e prioridade segundo a liderança transformacional, um dos modelos teóricos de liderança mais consensual do momento. A Liderança e governação clínica, mais do que centradas nos resultados em termos de eficiência das instituições, devem ser igualmente focadas na equidade, na qualidade e na satisfação dos utentes nos serviços públicos.

Inversamente, a frágil governança e liderança são fatores contribuintes para muitas falhas no atendimento dos doentes. Apesar da evidência científica demonstrar que a melhor maneira de atingir ganhos em saúde passa pela integração dos profissionais de saúde na tomada de decisão administrativa e de gestão, esta não é uma realidade habitualmente presente nas instituições de saúde portuguesas. Em Portugal continua a existir uma estratificação e divisão profissional bastante marcada, que impossibilita a coesão necessária a uma boa governação clínica. Mais do que realizar demonstrações teóricas sobre a importância de modelos de governação e liderança, é necessário colocar todos os profissionais das instituições da saúde a trabalharem para o bem comum, a trabalharem em equipa, a serem integrativos, a atingir objectivos comuns. Desmistificar postos, romper hierarquias e acabar com a repartição é absolutamente essencial para atingir melhores resultados em saúde.

Desta forma, é imprescindível a participação e envolvimento de todos os profissionais nos processos de toma de decisão das organizações de saúde com vista a uma gestão democrática. A instituição de uma liderança coletiva que valoriza a criatividade, a inovação e o crescimento qualitativo demonstram ser as premissas fundamentais para a prestação de cuidados de excelência e para a concretização da mudança que as organizações de saúde precisam.

 

 

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