Etiópia: Diretor-geral da OMS diz estar “há muito tempo” sem contactar familiares em Tigray

26 de Agosto 2022

O diretor-geral da Organização Mundial de Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, natural de Tigray, Etiópia, afirmou que não tem "há muito tempo" qualquer contacto com os seus familiares na região e não pôde ajudá-los enquanto “passavam fome”.

A declaração chega um dia depois de novos combates no estado no norte da Etiópia entre o exército federal e as forças leais à administração tigray terem quebrado uma trégua de cinco meses.

“Tenho lá muitos familiares (…) Nem sei quais estão mortos e quais estão vivos”, disse o responsável máximo da OMS numa conferência de imprensa em Genebra.

Esta não é a primeira vez que Tedros Ghebreyesus fala aos jornalistas sobre a situação no seu país e a situação humanitária em Tigray.

“Não posso enviar-lhes dinheiro. Estão a passar fome, sei que (…) não posso partilhar com eles o que tenho porque estão completamente isolados. Não posso falar com eles. Há muito tempo que não falo com eles”, afirmou.

Em 17 de agosto, o diretor-geral da OMS fez soar o alarme sobre a situação humanitária em Tigray, que considerou “a pior catástrofe do mundo”, culpando os líderes dos países desenvolvidos por negligenciarem a crise.

Há, disse hoje Tedros, seis milhões de pessoas que “estão a ser castigadas coletivamente”.

A região de Tigray voltou a estar isolada pelas forças militares federais depois do reacendimento dos confrontos na madrugada de quarta-feira, limitando a entrega de ajuda humanitária numa área onde mais de dois milhões de pessoas necessitam de assistência urgente. Foram ainda impostos cortes de eletricidade e telecomunicações.

“Todos os que estão envolvidos no trabalho humanitário estão desapontados com os esforços da comunidade internacional em relação à situação em Tigray. Não progredimos durante mais de 21 meses e o impasse criou condições desumanas”, afirmou Soce Ibrahima Fall, diretor-geral adjunto da OMS para a Resposta a Emergências, na conferência de imprensa.

“Esta é uma situação extrema que requer esforços excecionais da comunidade internacional para salvar vidas”, acrescentou Fall.

A França apelou hoje às autoridades federais etíopes e tigray para pararem imediatamente com os combates e retomarem as negociações, manifestando-se “muito preocupada com o reinício das hostilidades no norte da Etiópia”, de acordo com uma declaração do ministério francês dos Negócios Estrangeiros.

“A França apela ao governo federal e à Frente Popular de Libertação do Tigray [TPLF] para que retomem as negociações de paz sem condições prévias, sob os auspícios da União Africana. A prioridade deve ser assegurar o acesso da ajuda humanitária às populações afetadas pelo conflito, e a restauração dos serviços básicos no norte do país”, acrescenta a declaração.

A guerra em Tigray eclodiu em 04 de novembro de 2020, quando o primeiro-ministro etíope, Abiy Ahmed, enviou o exército federal para o estado no norte do país, com a missão de retirar pela força os dirigentes locais da TPLF que vinham a desafiar a autoridade de Adis Abeba há muitos meses.

O pretexto específico da invasão foi um alegado ataque das forças estaduais a uma base militar federal no Tigray, e a operação foi inicialmente caracterizada por Adis Abeba como uma missão de polícia, que tinha como objetivo restabelecer a ordem constitucional e conduzir perante a justiça os responsáveis pela sua perturbação continuada.

O conflito na Etiópia provocou a morte de vários milhares de pessoas e fez mais de dois milhões de deslocados, deixando ainda centenas de milhares de etíopes em condições de quase fome, de acordo com a ONU.

O reacendimento dos combates na quarta-feira marca o fim de uma trégua acordada no final de março e até agora respeitada.

As acusações entre o Governo federal e a administração tigray vinham a subir de tom nos últimos dias, com cada uma das partes a apontar à outra a intenção de retomar as hostilidades, apesar de nos últimos meses ambas reiterarem o respetivo compromisso relativamente às negociações, que ainda não começaram.

NR/HN/LUSA

0 Comments

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

ÚLTIMAS

Portugal, no documento “O Estado da Saúde Cardiovascular na União Europeia”: Baixa Mortalidade, mas Fatores de Risco Persistem

O relatório da OCDE “O Estado da Saúde Cardiovascular na UE”, tornado público hoje, analisa os padrões da doença na Europa. Portugal surge com uma mortalidade por doenças circulatórias das mais baixas do continente, um sucesso que se manteve mesmo durante a pandemia. No entanto, o país ainda enfrenta desafios significativos, como a gestão da diabetes, o consumo de álcool e a mortalidade prematura, especialmente entre os homens

Doenças cardiovasculares custam 282 mil milhões de euros à União Europeia

A União Europeia enfrenta um desafio significativo com as doenças cardiovasculares (DCV), que continuam a ser a principal causa de morte e incapacidade no território comunitário. Um relatório recentemente divulgado, antecedendo o lançamento do Plano Corações Seguros, revela que estas doenças são responsáveis por um terço de todas as mortes anuais na UE e afetam mais de 60 milhões de pessoas.

Universidade Católica Portuguesa lança curso pioneiro em Medicina do Sono Pediátrico

A Faculdade de Medicina da Universidade Católica Portuguesa (FM-UCP) vai iniciar a primeira edição de um curso avançado dedicado ao estudo e prática clínica do sono na infância, uma formação pioneira em Portugal. O curso, que arranca a 16 de janeiro, será ministrado em formato b-learning e em inglês, com um carácter internacional.

Ordem dos Nutricionistas cria Fundo de Apoio à Formação para profissionais desempregados

A Ordem dos Nutricionistas lançou, pela primeira vez, um Fundo de Apoio à Formação destinado a apoiar os profissionais de nutrição que se encontrem em situação de desemprego. Esta iniciativa surge no âmbito do Dia do Nutricionista, celebrado a 14 de dezembro, e tem como objetivo possibilitar a aquisição de ferramentas que promovam uma prática profissional atualizada e baseada na evidência científica.

Doação de gâmetas: um gesto cada vez mais essencial para ajudar a construir famílias

A doação de gâmetas — óvulos e espermatozoides — assume hoje um papel crucial na concretização do sonho da parentalidade para centenas de pessoas em Portugal. As mudanças sociais, o adiamento da maternidade e paternidade e o aumento dos casos de infertilidade tornam este gesto altruísta cada vez mais necessário.

MAIS LIDAS

Share This
Verified by MonsterInsights