Desespero e incertezas nos corredores de hospital da província moçambicana de Manica

22 de Agosto 2023

Rostos de desespero e incerteza cruzam-se apressados nos corredores das enfermarias e nas urgências do Hospital Provincial de Chimoio, à procura de atendimento, num momento em que médicos e profissionais de saúde estão em greve, exigindo melhores condições.

“Minha filha teve um acidente de mota, está inconsciente e com vários ferimentos na cabeça e estamos há quase duas horas à espera do atendimento, além de terem pedido para que comprássemos soro e linha de sutura numa farmácia privada”, disse à Lusa Amélia Joaquim, sentada no banco de socorro do Hospital Provincial de Chimoio (HPC), na província de Manica, centro de Moçambique.

Os serviços de urgência, reanimação e pediatria atingiram um nível de alerta no Hospital Provincial de Chimoio, a unidade de referência na província de Manica, com mais 90% dos médicos moçambicanos em greve, disse uma fonte da Associação dos Médicos Moçambicanos (AMM) em Manica.

Do total de 49 médicos moçambicanos afetos ao HPC, dois não aderiram à greve e estão a prestar serviços mínimos com outros quatro médicos que se dedicavam a serviços administrativos naquela unidade de saúde.

Os médicos moçambicanos estão em greve desde 10 de julho, com a observância dos serviços mínimos nas unidades de saúde, protestando sobretudo contra cortes salariais, no âmbito da aplicação da nova tabela salarial da função pública, e falta de pagamento de horas extraordinárias.

A greve dos médicos foi prorrogada no domingo pela segunda vez, por mais 21 dias.

A situação foi agravada com a adesão à grave, no sábado, de outros profissionais de saúde, através de um anúncio feito pela Associação dos Profissionais de Saúde Unidos e Solidários de Moçambique (APSUSM), e que também asseguravam que vão prestar os serviços mínimos.

“Cheguei pela madrugada com um corte na sobrancelha, não consegui atendimento e tive de voltar esta manhã, quando consegui atendimento”, disse Samuel Penicela, outro paciente do HPC.

A Lusa apurou no local que quase todos os serviços no HPC estão condicionados: o banco de socorro está a ser atendido por um médico no lugar de quatro médicos por turno (de 8 horas). O mesmo cenário pode-se ver nas enfermarias, estando a ala pediátrica e a maternidade a ressentir-se mais das ausências.

Após segunda-feira não ter nenhum médico de plantão na maternidade do HPC, hoje pelo menos um médico estava a prestar serviços na ala, constatou a Lusa no local.

“Tivemos ausências na maternidade, sobretudo, de 10 enfermeiras de saúde materno infantil que estavam colocadas na maternidade e na sala de parto” no primeiro dia da greve dos profissionais de saúde, disse à Lusa Flávio Roque, médico chefe provincial.

O responsável admitiu a ausência de profissionais de saúde em vários setores, embora realçando que o cenário tinha melhorado hoje, comparado com os dias anteriores.

Os profissionais de saúde moçambicanos iniciaram no domingo uma greve geral de 21 dias exigindo ao Governo que sejam “satisfeitas” as exigências do setor, incluindo as da classe médica, que já está greve desde julho.

Entre as exigências dos profissionais de saúde colocadas ao Governo contam-se “providenciar medicamentos” aos hospitais, que têm de ser adquiridos pelos pacientes, aquisição de camas hospitalares, e resolver a “falta de alimentação e de alimentação adequada” nas unidades de saúde.

Equipar ambulâncias com materiais de emergência para o suporte rápido de vida ou de equipamentos de proteção individual não descartável, cuja falta de fornecimento vai “obrigando os funcionários a comprarem do seu próprio bolso” também constam nas reivindicações.

LUSA/HN

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