As feridas crónicas são um problema de Saúde Pública devido ao comportamento demográfico e de estilo de vida das populações. A prevalência de feridas crónicas a nível mundial e nacional […]

Avaliação de Úlceras por Pressão em contexto domiciliário

04/16/2024

As feridas crónicas são um problema de Saúde Pública devido ao comportamento demográfico e de estilo de vida das populações. A prevalência de feridas crónicas a nível mundial e nacional é elevada, e a prevalência de Úlceras Por Pressão (UPP) é também elevada nos vários contextos de saúde, onde se prestam cuidados a utentes de risco. Estes utentes apresentam vários fatores de risco de desenvolvimento de UPP, encontrando-se preferencialmente em suas casas, sendo aí acompanhados pelas equipas de saúde.
A transferência dos cuidados de enfermagem das Unidades de Saúde para o domicílio traz benefícios, tais como, a não deslocação de utentes em situação de imobilidade, a proximidade dos cuidados no ambiente do utente, a capacidade de avaliação in loco da situação individual de vivência e saúde, mas acarreta dificuldades na prestação desses cuidados, desde logo, no planeamento e programação do cuidado e nos recursos necessários para o prestar, no implementar das adaptações necessárias e no maior tempo despendido para o cuidado. No que diz respeito à avaliação e tratamento de UPP, o mesmo se processa, existindo dificuldades na observação direta e monitorização periódica da úlcera e na correta e fiel documentação do observado no local da prestação de cuidados.
Com o objetivo de implementar melhorias neste processo de avaliação e tratamento de UPP foi desenvolvido um projeto designado “Avaliação de Úlceras por Pressão em contexto domiciliário, com recurso a imagem digital/dispositivo móvel” tendo sido utilizados dispositivos móveis/App acessíveis para utilização por parte dos enfermeiros, sem grande prejuízo do normal fluxo de trabalho, para recolha de imagens e informação relevante para a completa avaliação da UPP. Melhorias nesta tarefa poderão conferir benefícios, quer na avaliação, quer na cicatrização das UPP, resultando, por conseguinte, numa melhor gestão dos recursos existentes, na diminuição da duração do tratamento, do sofrimento do utente e suas famílias.
Aliado à implementação deste procedimento, os enfermeiros dos Cuidados de Saúde Primários (CSP) podem recorrer à consultadoria na gestão de UPP, disponibilizado pelo Grupo de Trabalho de Úlceras (GTU) da ULSM, através dos meios pré-existentes (telefone e e-mail) ou de teleconsulta interprofissional em tempo real, utilizando as imagens que recolheram no local e um conjunto de 5 parâmetros da avaliação de UPP (categorização das UPP, sua localização e topologia, percentagem de tecido de granulação e desvitalizado, presença de tecido necrosado) e, que demonstraram ser fiáveis e concordantes na avaliação interobservadores, no local da observação e à distância por imagem, num estudo preliminar, realizado no mesmo contexto de cuidados.
O desenvolvimento do projeto envolveu várias atividades como a elaboração de um Guia Orientador de Boas Práticas na Avaliação e Tratamento de UPP, a aquisição de imagens de feridas e a utilização dos dispositivos móveis/App específicos para esta prática. Pressupôs, ainda, a integração de uma equipa multidisciplinar que proporcionou ao projeto uma abrangência e aplicabilidade, com vista à sua replicação para outras Unidades de Saúde. A integração dos profissionais das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC), em articulação com os Serviços Partilhados de Ministério da Saúde (SPMS), permitiu garantir a integridade, privacidade e segurança das imagens e dados e a sua integração, no Registo de Saúde Eletrónico (RSE) de cada utente, e a seleção dos dispositivos móveis/App, tendo em conta os requisitos mínimos e o modelo de dados pré-definido pelos SPMS.
Os principais objetivos propostos foram:
 Implementar melhorias no processo de avaliação de UPP, no domicílio, utilizando dispositivos móveis/App;
 Simplificar o processo de avaliação de UPP, no local, com recurso à utilização de informação digital;
 Otimizar a consultadoria com enfermeiros peritos através da avaliação de imagem digital de UPP em tempo real.
A implementação de melhoria no procedimento de avaliação de UPP reflete-se em resultados favoráveis no processo de avaliação e cicatrização de UPP. A medição do benefício destes resultados para o utente/família/cuidador informal são de extrema importância, sendo para isso necessário preparar os sistemas de informação para a recolha dos dados necessários para a obtenção de métricas medíveis, atingíveis e valorizáveis para todos os intervenientes e, em particular, para o utente.

Para a prossecução deste projeto foram definidos os seguintes critérios de inclusão:
-Existência de diagnóstico de UPP Presente
-Utilização de um smartphone com uma aplicação móvel (Healico, Urgo Medical, França), para permitir a recolha de imagem, monitorização e avaliação de UPP e a partilha de informação com grupo de peritos.
Para o desenvolvimento do projeto foi fundamental a realização de formação aos profissionais envolvidos sobre o teor do projeto e sobre temáticas do conhecimento especializado em feridas e em tecnologias digitais, como: o Guia Orientador de Boas Práticas na Prevenção, Avaliação e Tratamento de UPP, a aquisição de imagens de feridas e a utilização dos dispositivos móveis/app específicos para esta prática.
As atividades e tarefas planeadas envolveram todos os intervenientes no projeto e foram acompanhadas pelo gestor do projeto, tendo sido apresentados os diferentes relatórios aos parceiros. Os dados recolhidos antes e após a utilização da App foram analisados e apresentados no relatório final do projeto. Foram efetuadas auditorias aos registos clínicos permitindo avaliar a qualidade/fiabilidade dos dados apresentados, bem como a avaliação da satisfação dos utilizadores.
As questões ético-legais foram acauteladas cumprindo o procedimento de obtenção de consentimento em utilização na instituição e submissão do projeto a parecer da Comissão de Ética e Comissão Local de Proteção e Segurança da Informação.

RESULTADOS
As atividades e/ou tarefas realizadas durante o período de vigência do projeto foram planeadas e executadas envolvendo todos os intervenientes e foram cumpridas quase na sua totalidade, à exceção da possibilidade de integração dos dados recolhidos na admissão e através da App com o Registo Eletrónico de Saúde (RSE) do utente com UPP, em seguimento em cuidados domiciliários.
No período em estudo estiveram integrados em ECCI 124 utentes com UPP. A idade média dos utentes foi de 78,8 anos, sendo que a idade mínima observada foi de 19 anos e a idade máxima de 97 anos. Cerca de metade dos utentes, 51,6%, são do sexo feminino.
O número médio de UPP por utente foi de 2,1 UPP. O número mínimo de UPP registadas por utente foi uma e o máximo nove, mas esta situação apenas corresponde a um utente. A localização mais frequente das UPP é a região sacro, os calcanhares, a anca e o pé. De um total de 255 UPP identificadas, foram observadas no sacro (27,1%), no calcanhar (23,1%) e na anca (13,7%).
Para a totalidade de UPP com mais de um registo de monitorização, o tempo médio entre monitorizações foi de 12,8 dias.
O tempo médio de cicatrização das UPP em contexto de ECCI na maioria dos casos não ultrapassou os 120 dias.
Não foram observadas alterações significativas no que se refere à monitorização da taxa de efetividade diagnóstica de UPP no momento da admissão, quando comparado com os dados pré utilização e pós utilização de APP, com valores identificados de cerca de 65%.

No que se refere ao cumprimento do objetivo “Aumentar a proporção de UPP melhoradas, nas UCC para 45% (média de 12/2020 foi de 42,8%)”, verifica-se que a proporção de UPP melhoradas, para cada ECCI é muito elevada com proporções iguais ou superiores a 75%. No entanto, salienta-se que a informação relativa ao score inicial e/ou final é omissa em 26 das 59 (44,1%) UPP monitorizadas e os resultados devem ser interpretados com precaução.
Não foi possível a concretização do objetivo “Desmaterializar e simplificar o processo de avaliação da UPP, no local da realização do tratamento, com recurso à utilização da informação digital e à integração da informação entre sistemas digitais”, por inexistência atempada de uma aplicação portuguesa, com os requisitos necessários.
Ao longo do período em que decorreu este estudo foram efetuadas várias reuniões com os parceiros para melhoria da APP, e avaliação da possibilidade de integração da informação no Registo Eletrónico de Saúde (RSE), até ao momento sem resultado. Mas foram efetuadas pequenas melhorias na aplicação, decorrente de sugestões discutidas em reuniões. Os dados foram recolhidos em simultâneo no RSE e na App Healico, tendo representado um trabalho acrescido para os enfermeiros das Equipas de Cuidados Continuados Integrados (ECCI).
Como referido anteriormente e dando resposta ao objetivo “Uniformizar procedimentos de recolha de imagens de UPP e a sua avaliação através de imagem” foi efetuada formação aos utilizadores sobre o funcionamento e potencialidades da App e entregue um guião onde consta a norma para recolha de imagem.
A visualização da imagem recorrendo á App tornou-se facilitadora no processo de consultoria com os elementos do GTU, evitando a deslocação dos mesmos ao domicílio do utente e diminuindo o tempo de resposta.
Quanto à avaliação da satisfação dos utilizadores com o dispositivo móvel/App para avaliação e monitorização da UPP, através da utilização de grelhas ou escalas de avaliação pré-existentes, esta foi avaliada em dois momentos: antes do inico da utilização da App e no final do estudo. Na avaliação global da satisfação dos utilizadores da App, utilizando o System Usability Score (SUS), que considera o valor de referência de 68, a partir do qual os resultados da avaliação da satisfação do utilizador são satisfatórios. Obtivemos, 2 utilizadores com valores de 65 e 67,5 e outros 2 utilizadores com valores muito baixos de satisfação de 27,5 e 37,5.
A facilidade da articulação entre profissionais das ECCI com os elementos do GTU com vista ao apoio de consultoria foi uma grande vantagem sentida no decorrer do estudo.

CONCLUSÃO
A melhoria em termos assistenciais e de gestão em Boas Práticas já instituídas é uma missão de qualquer Instituição ou Profissional de Saúde, devendo essas melhorias assentar nas necessidades identificadas e nas ofertas existentes.
Perante os resultados obtidos consideramos que seria necessária uma amostragem maior para uma avaliação efetiva da utilização da App na avaliação e monitorização de UPP e para a satisfação dos profissionais relativa à utilização da App. A facilidade da articulação entre profissionais das ECCI com os elementos do GTU com vista ao apoio de consultoria foi uma grande vantagem sentida no decorrer do estudo.
Consideramos que o desenvolvimento futuro deste projeto seria otimizado se a App fosse alterada de acordo com as reais necessidades dos utilizadores (ir de encontro à normalização do SClínico) e se fosse possível a integração da informação produzida na App no sistema RSE de informação em uso na instituição.

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