Ana Catarina Pinheiro
MGF
Hospital da Luz

Candidíase vulvovaginal

29 de Julho 2024

A Candidíase vulvovaginal é uma infeção fúngica causada por espécies do fungo leveduriforme Candida que afeta milhões de mulheres todos os anos. Embora em 90% das mulheres a candidíase vulvovaginal seja causada por um sobrecrescimento de Candida albicans, a identificação de outras espécies de Candida sp. (C. glabrata, C. krusei, C. tropicalis…), como a causa desta infeção, parece estar a emergir.

A candidíase vulvovaginal está associada a um desequilíbrio da microflora vaginal por consequente alteração quantitativa e/ou qualitativa dos Lactobacillus e sobrecrescimento de outros comensais da mucosa vaginal, nomeadamente a Candida albicans. O principal reservatório de Candida é o reto, sendo comum a colonização vaginal. A evolução da colonização para infeção sintomática envolve múltiplos fatores associados à suscetibilidade e resposta inflamatória do hospedeiro e à virulência da espécie de Candida.

Ocorre mais frequentemente em mulheres pré-menopausa, mas também em mulheres pós-menopausa sob terapêutica hormonal de substituição (particularmente sob estrogénios). Os fatores de risco para a sua ocorrência são a atividade sexual, antibioterapia recente, gravidez, imunossupressão (p.e. doentes com diagnóstico de VIH e doença mal controlada), obesidade, diabetes, fármacos (corticoides orais, inibidores da SGLT2, imunossupressores), uso de anticoncecionais orais, utilização de dispositivos intrauterinos, espermicidas, preservativos e alguns hábitos de higiene.

Cerca de 75% das mulheres terão pelo menos um episódio na sua vida e 40-45% terão dois ou mais. 10 a 20% são portadoras assintomáticas e em cerca de 5 a 8 % das mulheres a candidíase vulvovaginal surge de forma recorrente (4 episódios em 1 ano).

A candidíase vulvovaginal manifesta-se por corrimento vaginal branco, grumoso e espesso, tipo requeijão, inodoro, que forma placas aderentes às paredes vaginais, eritema, edema e fissuras vulvares. A mulher refere habitualmente ardor e prurido vulvar e dispareunia. Apresenta-se frequentemente com sintomas mais severos, na presença de Candida não albicans ou perante um hospedeiro imunocomprometido.

O diagnóstico de candidíase vulvovaginal é essencialmente clínico e pode ser confirmado laboratorialmente com zaragatoa vaginal, por exame microscópico a fresco e/ou cultural (em meio de cultura específico para fungos leveduriformes). As secreções vaginais apresentam um pH <4,5 e o exame microscópico a fresco mostra leveduras e pseudo-hifas (40-60% sensibilidade). O teste de Wiff é negativo e o exame microscópico direto com coloração Gram revela células polimorfonucleares, leveduras – esporos e pseudo-hifas (> 65% sensibilidade). Na presença de candidíase vulvovaginal recorrente deve efetuar-se colheita de exsudado vaginal para cultura, devido à elevada probabilidade da presença de espécies não albicans.

O tratamento da candidíase vulvovaginal está recomendado apenas em mulheres sintomáticas e parceiros sexuais sintomáticos (com balanite). Não é recomendado o tratamento de mulheres assintomáticas. A identificação de Candida num exame cultural numa mulher assintomática não deve ser tratada, uma vez que cerca de 10-20% das mulheres têm fungos comensais na vagina. Da mesma forma, não é recomendado o tratamento de parceiros sexuais assintomáticos. Os antifúngicos azóis são o tratamento preferencial, na formulação tópica (clotrimazol, fenticonazol, miconazol, econazol, sertaconazol, isoconazol, tioconazol, nistatina) ou oral (fluconazol e itraconazol). Uma das principais ações dos antifúngicos azóis é a inibição da enzima CYP51, a qual impede a conversão de lanosterol em ergosterol, resultando numa acumulação de esteróis tóxicos e na deficiência de ergosterol na membrana celular fúngica. Por sua vez, a falta de ergosterol leva a uma membrana celular fraca e permeável, comprometendo a integridade da célula fúngica, bem como condicionando a interrupção do crescimento fúngico.

O esquema de tratamento deve ser diferente consoante se trate de candidíase não complicada ou complicada. Consideram-se ainda as candidíases complicadas severas, as recorrentes e as candidíases nalgumas situações especiais. Os esquemas orais e intravaginais são igualmente eficazes, com alívio dos sintomas e culturas negativas em 80-90% das doentes que completam o tratamento. No entanto, deve-se ter-se em consideração que a administração oral de medicamentos geralmente está associada a possíveis efeitos colaterais sistémicos mais graves do que a aplicação tópica.

Na Candidíase por Candida não albicans o tratamento ótimo não está definido. A Candida glabrata e krusei são resistentes ao fluconazol. Recomenda-se o tratamento oral ou tópico, 7 a 14 dias, com outro imidazol, ou a utilização intravaginal de um manipulado de ácido bórico durante 14 dias. Nas candidíases recorrentes, após terapêutica inicial, está indicada a terapêutica de manutenção durante pelo menos seis meses, verificando-se que 30-40% regridem após tratamento prolongado. Nestas, o tratamento do parceiro sexual é discutível e é recomendada a dupla abordagem terapêutica (oral e tópica). O uso de probióticos deve ser considerado em mulheres com candidíase recorrente como tratamento coadjuvante e em mulheres com contraindicações ou efeitos adversos da terapêutica antifúngica como tratamento alternativo.

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