Estudo português revela: VSR mais letal que gripe em adultos

2 de Abril 2025

Estudo realizado no Hospital de Matosinhos confirma que o vírus sincicial respiratório (VSR) em adultos, embora menos prevalente que a gripe, resulta em maior mortalidade, complicações e custos hospitalares, sublinhando a urgência de prevenção em quem tem mais de 60 anos.

O vírus sincicial respiratório (VSR), conhecido principalmente como causa comum de doenças respiratórias em bebés, revelou-se uma ameaça ainda mais grave para adultos do que se pensava anteriormente. Um estudo pioneiro em Portugal demonstrou que o VSR pode ser mais perigoso que a gripe, especialmente para adultos com mais de 60 anos, provocando maior mortalidade, complicações mais severas e custos hospitalares significativamente superiores. Esta investigação, denominada estudo ROSA, representa o primeiro e único trabalho a analisar o impacto deste vírus em contexto hospitalar em adultos no país, fornecendo dados cruciais para a saúde pública.

Realizado no Hospital de Matosinhos entre abril de 2018 e março de 2024, o estudo analisou dados de doentes adultos internados com infeções respiratórias agudas. Os resultados são preocupantes: apesar da prevalência do VSR ter sido inferior à da gripe nos períodos analisados, a mortalidade hospitalar foi substancialmente maior nos pacientes com VSR, atingindo 20% em comparação com 13% nos doentes com influenza. Esta diferença significativa na taxa de mortalidade sublinha a gravidade das infeções por VSR, que muitas vezes são subestimadas em comparação com a gripe sazonal.

por VSR. Os custos diretos por internamento de pacientes com VSR chegaram a 4.757 euros, enquanto os internamentos por gripe custaram em média 3.537 euros. Esta diferença de mais de mil euros por internamento reflete a maior complexidade e severidade dos casos de VSR, que frequentemente exigem cuidados mais intensivos e prolongados. O estudo, uma iniciativa da GSK que teve como investigadora principal a Professora Cristina Gavina, fornece assim evidências claras sobre o peso económico do VSR no sistema de saúde.

Filipe Froes, pneumologista, especialista em Medicina Intensiva e Doutorado em Saúde Pública, destaca que “a maior utilização de recursos de saúde, a par do aumento de mortalidade, é um indicador extremamente importante da maior gravidade dos pacientes com VSR”. O especialista, que também é autor do estudo, sublinha que estes pacientes apresentam quadros clínicos mais graves do que os pacientes com gripe, necessitando com maior frequência de cuidados intensivos e internamentos mais prolongados.

Um dado particularmente relevante do estudo ROSA é que mais de 80% dos indivíduos diagnosticados com VSR tinham idade superior a 60 anos, evidenciando a vulnerabilidade desta faixa etária. O perfil demográfico também mostrou uma maior proporção de mulheres (58,6%) entre os doentes com VSR, em comparação com 52% nos casos de gripe, e uma idade mediana ligeiramente superior (79 anos versus 77 anos). Estes dados apontam para um padrão específico de vulnerabilidade que deve ser considerado nas estratégias de prevenção.

Além da maior mortalidade e custos, a investigação identificou que os doentes com VSR apresentam maior risco de insuficiência respiratória, eventos cardiovasculares e sobreinfeção bacteriana em comparação com as infeções causadas pelo vírus influenza. Estas complicações contribuem para a maior gravidade dos casos e justificam a maior preocupação com este agente patogénico em adultos.

Face aos resultados alarmantes, os investigadores defendem a implementação urgente de medidas preventivas, particularmente dirigidas à população com mais de 60 anos. Filipe Froes salienta que os dados “justificam extensamente uma abordagem preventiva na população adulta”, contrariando a perceção comum de que o VSR é apenas um problema pediátrico.

Entre as recomendações, destacam-se intervenções nos fatores de risco modificáveis, resumidos no acrónimo ATCHIN: redução do consumo de Álcool, cessação Tabágica, controlo das doenças Crónicas, Higiene oral, uso criterioso de fármacos Imunossupressores e manutenção de um estado Nutricional adequado. Esta abordagem multifatorial visa reduzir a vulnerabilidade dos adultos mais velhos face ao VSR.

O estudo ROSA incluiu todas as internações hospitalares codificadas como infeções respiratórias agudas entre adultos com 18 anos ou mais, que possuíam um teste RT-PCR válido para VSR e influenza. Os dados destes doentes foram analisados até 90 dias após a admissão ou até ao final da hospitalização, fornecendo uma visão abrangente do impacto da doença a curto e médio prazo. Esta metodologia rigorosa assegurou a fiabilidade dos resultados e permitiu uma comparação direta entre os casos de VSR e gripe.

Esta investigação inédita em Portugal lança luz sobre uma problemática de saúde pública frequentemente negligenciada e sublinha a necessidade de estratégias preventivas específicas para proteger os adultos mais velhos do VSR. O estudo ROSA demonstra claramente que o vírus respiratório sincicial não é apenas um problema pediátrico, mas representa um sério risco para a população adulta, especialmente para os idosos com mais de 60 anos.

PR/HN/MM

0 Comments

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

ÚLTIMAS

AMI e IPST promovem prevenção e dádiva de sangue no ArrábidaShopping

No Dia Mundial da Saúde, 7 de abril, o ArrábidaShopping acolhe uma ação solidária com rastreios gratuitos e colheitas de sangue. A iniciativa, promovida pela AMI e pelo IPST, visa sensibilizar para a importância da saúde preventiva e do altruísmo na dádiva de sangue.

Investimento de 4 milhões em saúde nos Foros de Amora

A construção da Unidade de Saúde dos Foros de Amora arranca a 10 de abril na Quinta da Charnequinha. Este equipamento estratégico, com capacidade para 28 mil utentes e um custo de 4 milhões de euros, visa reduzir desigualdades no acesso à saúde no Seixal.

Redução da mortalidade e internamentos por DPOC em Portugal, revela relatório do ONDR 2024

O Relatório do Observatório Nacional das Doenças Respiratórias (ONDR) de 2024, que acaba de ser divulgado pela Fundação Portuguesa do Pulmão (FPP), evidenciou uma tendência geral de redução nos internamentos e na mortalidade associada à Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica (DPOC) nos últimos cinco anos, em Portugal, à exceção dos anos de pandemia (2020-2021).

MAIS LIDAS

Share This
Verified by MonsterInsights