Francisco Ramos
Professor Associado Convidado de Economia da Saúde na ENSP

Vencer o vírus; ganhar um SNS melhor

04/05/2020 | Opinião

A experiência de viver confinado num País em estado de emergência foi inovadora. Não careceu de aprovação pelo INFARMED, mas provocou efeitos secundários, ansiedade, medo, incerteza. Ansiedade também para perceber se a anunciada luz ao fundo do túnel é um sinal de esperança ou o Alfa Pendular. Foi possível colocar a saúde em todas as políticas. O que muitos reivindicaram durante décadas, o SARS-CoV-2 foi muito mais eficaz e global. A posição da política de saúde foi corajosa e decisiva, ao contrariar o parecer do Conselho Nacional de Saúde Pública quanto ao momento de iniciar o “encerramento” do País.
Perante a ameaça, a informação que nos chega é decisiva para construir opinião. Com a proximidade e facilidade das redes sociais, a intermediação por profissionais do jornalismo é reconfortante e indutora de confiança para alguém, como eu, prestes a entrar no grupo oficial dos idosos. Orgulhoso por ler em prestigiados órgãos de comunicação social internacionais, referências positivas ao desempenho de Portugal. Depois de nos terem jurado a pés juntos que o SNS estava exaurido e incapaz de responder a qualquer surto do que quer que fosse; que havia uma estreita janela de oportunidade para evitar uma enorme desgraça face ao crescimento exponencial da curva; traçarem cenários de catástrofe inevitável, não admitindo nem prós nem contras; afirmar-se em manchete do jornal Expresso, que o SNS foi apanhado com os calções na mão, como terá sido possível tal desempenho? Talvez o empenho dos recentes especialistas de virologia e de saúde pública, Marques Mendes, José Miguel Júdice, Paulo Portas e outros desconhecidos até agora. Ou a tão anunciada e repetida pronta resposta dos hospitais privados, apesar de queixas da CUF na demora em o Curry Cabral receber um doente ou do encerramento dos SAMS. São certamente infundadas ou prematuras as notícias que a indústria farmacêutica nem imagina quando e como vai disponibilizar terapêutica e vacina, ou que a indústria de dispositivos médicos não conseguiu fornecer atempadamente e na quantidade solicitada, materiais e equipamentos como ventiladores e equipamentos de protecção individual. Todos os que consideram como critério de sucesso a dimensão do número azul na linha final do excel, ficaram, nesta ocasião, bloqueados à espera das entidades públicas, das quais escarneceram até à véspera.
Um estudo da Escola Nacional de Saúde Pública ainda em publicação, demonstra que Portugal tomou medidas a tempo, a população aderiu, os bons resultados estão à vista. Ficou bem evidente a importância de uma estrutura de saúde pública, construída ao longo de décadas, que embora desprezada e esquecida nos anos mais recentes, soube responder mais uma vez e realizar o trabalho invisível de controlar o surto. Menos evidente mas igualmente importante, foi a opção de não acumular todo o trabalho clínico nos hospitais, recorrendo também à malha da saúde familiar para cuidar da maioria dos doentes COVID-19.
Com todas as dúvidas geradas pela incerteza do desconhecido, neste momento de “desconfinamento” venera-se o SNS, louvam-se os profissionais de saúde. Pela minha parte, passaram já quase dois anos que um grupo de profissionais do INEM, Santa Maria e Alcoitão me trouxeram de volta à vida. Para mim, não é novidade nem surpresa, que estes e muitos outros tenham dito presente quando foi necessário. A eles e a todos os que não se esconderam perante as dificuldades, o meu obrigado. Não é a primeira vez que fico em dívida para com eles, certamente não conseguirei retribuir como merecem.
Como será o dia seguinte? A preparação urge. Alguns já estão a caminho: o recente campeonato das mortes ocorridas em tempo de pandemia, já teve como consequência que Marta Temido, depois de uma recusa inicial, abriu a gaveta orçamental do SNS aos clientes habituais. A possível agenda é extensa. Agora que até a saúde pública evidencia os riscos do pluriemprego, vamos continuar a consentir? Agora que se conseguiu que os Portugueses evitem as urgências hospitalares (por bons e maus motivos, reconheça-se), vamos desperdiçar a oportunidade de corrigir uma entorse de décadas? Agora que se percebeu que todos são necessários, vamos continuar a insistir na discussão público-privado? Agora que ficaram evidentes as dúvidas e incertezas que persistem nas tecnologias disponíveis para a prestação de cuidados de saúde, vamos continuar a engolir as supostas inovações que nos enfiam goela abaixo? Agora que está clara a forma desumana como tratamos os velhos, vamos continuar a afirmar que isso é com o departamento do lado? Este pode ser o momento de corrigir algumas das conhecidas imperfeições e debilidades do sistema de saúde, começando por reforçar a sua capacidade de planeamento e controlo, valorizando os profissionais de saúde pública, reforçando o SNS, disciplinando a intervenção de todos os agentes. Vamos vencer o vírus e ganhar um sistema de saúde melhor.
Que falta (me) fazem o João Freire e a Catarina Sena, para ajudar em mais esta missão.

Abril de 2020

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