Governos nos Balcãs enfrentam fanáticos e religiosos contrários à vacinação

23 de Janeiro 2021

Vários Governos nos Balcãs, além do desafio de obter e administrar rapidamente milhões de vacinas, têm que lidar com a desconfiança ou oposição aberta à vacinação contra o SARS-CoV-2 de líderes religiosos e fundamentalistas de extrema-direita.

O arcebispo Teodosie Petrescu, da Igreja Ortodoxa Romena, é uma das vozes influentes relutantes em receber a vacina. Depois de meses a desafiar abertamente as restrições em relação às missas e peregrinações, Teodosie garantiu que a vacina tem efeitos colaterais e que foi autorizada sem ter sido testada em humanos.

“A sagrada comunhão é mais forte do que qualquer vacina”, declarou o arcebispo da região eclesiástica de Tomis, junto ao Mar Negro, em 12 de janeiro.

A mensagem de Petrescu encontrou uma poderosa caixa de ressonância na rede social Facebook. Numerosos grupos de ideologia nacionalista e conservadora transmitem entrevistas e notícias com as declarações do religioso.

A posição de Petrescu não é oficial da Igreja Ortodoxa Romena, que não pediu a vacinação dos fiéis, como fizeram outros arcebispos individualmente, mas concordou em distribuir informações do Governo sobre o processo de imunização contra a covid-19.

Sem sair da Roménia, outro cético de destaque é a senadora e advogada Diana Sosoaca, que apelou para a justiça em nome de Petrescu, em relação às restrições impostas pelo Governo. A senadora pertence à Aliança pela Unidade da Roménia, que em sua primeira participação numa eleição parlamentar, em 6 de dezembro, obteve 9% dos votos. Em suas fileiras, há líderes que simpatizam com a Guarda de Ferro, o movimento fascista romeno durante a II Guerra Mundial.

A senadora recusou-se a ser vacinada, alegando que tem “um sistema imunológico muito forte” e que a vacina não foi suficientemente testada.

Na Bósnia, a comunidade muçulmana solicitou que fosse publicado se há componentes de origem suína nas vacinas, já que o consumo de carne suína é proibido pelo Islão.

Após a publicação desses detalhes, argumentam os líderes comunitários, permitirá que os muçulmanos, a maioria no país, decidam se querem ou não ser vacinados.

Na católica Croácia, a oposição à vacina é liderada pela Vigilare, organização conservadora que considera o aborto um crime e afirma que as vacinas são feitas com células de fetos abortados, o que esta associação denuncia como um ato de cumplicidade com o “assassínio de crianças por nascer”.

Especialistas em vacinas negam que essas drogas carreguem tecidos de fetos humanos extraídos de um aborto e especificam que usam culturas de células obtidas em laboratório.

Embora o Vaticano tenha declarado que a vacina é “moralmente aceitável”, alguns padres católicos expressaram reservas.

Outro argumento comum entre os que rejeitam a vacina é o da liberdade individual das imposições do Estado em nome da saúde pública.

Por exemplo, a Associação Croata de Pais Ativistas adverte contra a possibilidade de o Governo impor restrições à circulação de pessoas não vacinadas, forçando assim de facto todos a serem imunizados.

Na Sérvia, o rosto anti-vacinas é a psiquiatra Jovana Stojkovic, que lidera o movimento “Eu Vivo pela Sérvia”. Stojkovic opôs-se ao uso de máscaras e denunciou a existência de uma máfia farmacêutica, que aproveita o vírus para fazer negócios às custas do cidadão comum. Esta psiquiatra obteve 1% dos votos nas eleições parlamentares de junho passado, com uma candidatura aliada a um grupo ambientalista de extrema-direita.

A resistência à vacina na Hungria é liderada pelo médico György Gödény, que além de ser contra a vacinação, nega que a covid-19 seja uma doença grave. Gödény, que não tem o apoio de nenhum partido político ou igreja, foi interrogado em dezembro passado pela polícia por ter dito que vacinas contra a covid-19 são mortais.

De acordo com as pesquisas, a percentagem da população que se recusa a ser vacinada varia entre 30-35% na Hungria, Croácia e Roménia e 44% na Croácia, com altos números de indecisos em todos os casos.

As tendências mostram que a rejeição da vacina está a diminuir, enquanto o apoio à vacinação está a aumentar.

A pandemia de covid-19 provocou mais de dois milhões de mortos resultantes de mais de 97,4 milhões de casos de infeção em todo o mundo, segundo um balanço feito pela agência francesa AFP.

A doença é transmitida por um novo coronavírus detetado no final de dezembro de 2019, em Wuhan, uma cidade do centro da China.

LUSA/HN

0 Comments

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

ÚLTIMAS

IPG acolhe polo do Centro de Envelhecimento Ativo

O Instituto Politécnico da Guarda (IPG) vai acolher um polo do Centro de Competências de Envelhecimento Ativo, que irá desenvolver atividades para criar melhores condições de vida aos idosos da região.

UC integra estudo mundial sobre aumento da obesidade

Mais de um bilião de pessoas vivem atualmente com obesidade no mundo, segundo um estudo internacional em que participaram investigadores da Universidade de Coimbra (UC), divulgou a instituição.

MAIS LIDAS

Share This
Verified by MonsterInsights