Sónia Gaudêncio
Psicóloga Clínica e Directora da ESTIMA +; Especialidade em Psicologia Clínica e da Saúde; Psicogerontologia e NEE

Cérebro: Use it or lose it… o “segredo” da prevenção da demência?

08/06/2021 | Opinião

Segundo um estudo divulgado, em Fevereiro de 2020, pela Alzheimer Europe, o número de pessoas com demência em Portugal em 2050 irá duplicar, atingindo 3,82% da população, valores que ultrapassam a tendência europeia.

Todos sabemos que é uma realidade o envelhecimento da população, estando previsto, até 2050 um aumento significativo de pessoas da faixa etária acima dos 70 anos (mais do que duplicará). Sabemos também que a idade não deixa de ser o maior fator de risco das demências.

Assim sendo, estes números alarmantes e a evidência científica acerca das demências, devem despertar consciências para a urgência da aposta em políticas de prevenção destas doenças. Ainda para mais quando os especialistas defendem que há medidas que, podem e devem ser tomadas para reverter esta tendência ascendente, considerando que 40% dos casos de demência poderão ser evitados, se houver mudanças de comportamentos e uma aposta na diminuição de alguns fatores de risco.

Temos como alguns fatores de risco: a baixa escolaridade, as poucas ligações sociais, o sedentarismo, o tabagismo e o consumo de álcool, a exposição a ambientes poluídos, a depressão, a diabetes, a obesidade entre outros.

E rapidamente percebemos, que a prevenção passa pela mudança de comportamentos e que esta mudança deve ser o mais precoce possível. Todos envelhecemos diariamente, por isso cada um de nós deve ir “preparando” o seu envelhecimento, para que, este seja saudável e ativo. Isso passa pela adoção de hábitos de vida saudáveis, nomeadamente pela prática de exercício físico regular, que se sabe que promove a criação de novas células no cérebro e que melhora a capacidade de aprendizagem e de memória, para além das endorfinas que liberta e da sensação de bem-estar psicológico que potencia.

Estudos têm mostrado que o exercício físico praticado com regularidade, nomeadamente 2 a 3 sessões semanais, ao fim de 3 meses, já traz benefícios a nível cerebral, aumentando mesmo o tamanho de algumas estruturas essenciais como o hipocampo, que tem funções muito importantes ao nível da memória.

Mas, para além do exercício físico, nestes hábitos de vida saudáveis devemos integrar, sem dúvida a estimulação cognitiva.

Estimulação cognitiva que, no processo de envelhecimento, ganha particular importância, quando estudos demonstram que, melhorar a nossa robustez cognitiva, poderá ser um meio de prevenção do declínio cognitivo, e consequentemente, um meio de prevenção ou mesmo adiamento das demências.

Para além disso, os neurocientistas também defendem a necessidade de exercitar e cuidar do nosso cérebro, tal como cuidamos do corpo, para que continue a funcionar adequadamente, potenciando, desta forma, um envelhecimento saudável e ativo.

Use it or lose it deve ser o mote para estimularmos, diariamente, o nosso cérebro. Mas como o podemos fazer?

Com desafios que nos obriguem a pensar, a sair da nossa “zona de conforto”, a aprender alguma coisa nova. Com algo que ainda não dominamos, porque a partir do momento que já dominamos uma determinada tarefa, já não será suficientemente estimulante para o cérebro. Mas estes desafios devem ser suficientemente desafiantes, estando enquadrados entre a exigência elevada, que traz benefícios, mas num nível alcançável, que não crie frustração e não leve à desmotivação e desistência.

Aliás, desistir de desafios, exercícios e/ou atividades em que à partida sabemos que não somos muito bons, que não temos bom desempenho, deve ser a última alternativa. Pelo contrário, devemos esforçarmo-nos um pouco para encontrar a solução, aprender a fazer, mesmo que ao início seja difícil. É que ao fazê-lo estamos a estimular o nosso cérebro, na medida pretendida, e a criar mais redes de neurónios que nos poderão ajudar a prevenir ou a atrasar as demências.

Conclusão: tem que haver uma responsabilização de cada um de nós pela mudança de comportamentos e uma consciencialização “eu posso mudar os meus hábitos e devo fazê-lo o mais cedo possível”, pois isso pode “livrar-me” das demências. Mas também tem que ser passada esta mensagem às Instituições que trabalham na área do Envelhecimento, alertando para a necessidade desta estimulação cognitiva que é tão importante como a alimentação saudável e o exercício físico.

Todos nós temos de preservar as capacidades do nosso cérebro e de prevenir as demências, recorrendo aquilo ao que está ao nosso alcance mudar e controlar.

Use it or lose it?

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