Ocorrência de doenças neurodegenerativas nos desportistas requer investigação robusta

3 de Outubro 2021

A associação entre a prática desportiva profissional e o desenvolvimento de doenças neurodegenerativas requer estudo amplificado para aferir a “verdadeira dimensão do problema”, considerou hoje à Lusa o médico João Massano.

“Acho que há motivos para preocupação, mas não há razão neste momento para lançar um alarme generalizado sobre a situação. É muito importante desenvolver investigação sistemática e robusta para perceber qual o risco associado a cada tipo de modalidade”, aconselhou o neurologista do Centro Hospitalar Universitário de São João, no Porto.

Desportos de contacto e de combate, como futebol americano ou boxe, já possuem “bastante evidência científica”, enquanto ex-jogadores de futebol, râguebi ou lutas têm reportado situações compatíveis com doenças neurodegenerativas em idade avançada.

“Um estudo lançado há anos numa das mais importantes revistas mundiais de neurologia mostrou que os atletas de futebol americano têm duas vezes mais chances de morrerem ou terem uma doença neurodegenerativa face à restante população. Quanto à doença de Alzheimer e à esclerose lateral amiotrófica, essa hipótese é quatro vezes maior”, notou.

A dinâmica de jogo propicia “contactos violentos repetidos”, cujo “impacto de maior energia” supera a capacidade amortecedora do líquido cefalorraquidiano, entre o cérebro e as meninges, e do próprio crânio, gerando os “traumatismos cranianos de repetição”.

“Se os traumatismos de impacto muito elevado podem provocar hemorragias de elevada dimensão, os impactos de menor energia dos desportos de contacto podem causar micro-hemorragias, que danificam o tecido e causam uma inflamação local, destruindo células e favorecendo a progressão de doenças neurodegenerativas”, explicou João Massano.

Sendo certo que patologias como Alzheimer, Parkinson ou esclerose lateral amiotrófica “vão progredindo com o tempo”, menos taxativos são os distúrbios efetivos em cérebros com “formas localizadas e estáveis” de encefalopatia traumática crónica (ETC).

“Muitos doentes com ETC acabam por desenvolver demência, mas uma coisa não é sinónima da outra. Demência significa que a pessoa tem uma deterioração cognitiva a partir do estado basal, que o faz perder capacidade para ter uma vida autónoma”, constatou o docente e investigador da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto.

A forma mais comum é a doença de Alzheimer, ao representar 60% a 70% de uma estimativa mundial de 47,5 milhões de casos ativos de demência, dos quais cerca de 194 mil correspondem a Portugal, segundo os dados do relatório Alzheimer Europe 2019.

“No início do século XX, o antigo Presidente Theodore Roosevelt preocupou-se com isto e pediu à liga para estudar formas de tornar o futebol americano mais seguro. Por essa altura, começaram a aparecer descrições de pessoas com desequilíbrio postural, dificuldade em falar, tremor, lentidão e até alterações de personalidade”, rememorou.

Esses sintomas eram similares ao comportamento dos boxistas, cuja multiplicação pioneira de relatos de perdas cognitivas, comportamentais e motoras após a despedida dos ringues veio popularizar o termo de demência pugilística a partir da década de 1970.

“Não sabemos se há uma suscetibilidade diferente ao trauma repetido entre homens e mulheres. Os estudos não estão feitos e temos menos mulheres a participar nestes desportos de impacto que os homens. É de crer que as mulheres sofram um impacto de menor energia e isso até poderá ser um fator que joga a seu favor”, afiançou.

João Massano volta a focar o estudo ‘Neurodegenerative causes of death among retired National Football League players’, que conectou maiores riscos aos atletas dispostos em posições de velocidade, “sujeitos a maior impacto quando são travados pelo adversário”.

“No futebol há o problema dos cabeceamentos de repetição. Claro que a energia desse impacto difere muito de um murro no boxe ou uma placagem no futebol americano, mas há estudos que mostram alguma correlação entre o número de cabeceamentos e a chance de aparecerem biomarcadores ligados a doenças neurodegenerativas”, apontou.

Perante “muitas questões por responder”, o neurologista, docente e investigador acredita que o futebol foi percorrendo a “evolução possível”, mesmo se “poderá estar aquém” na sensibilização para uma temática capaz de “sujeitar as pessoas a riscos importantes”.

“Só vejo duas formas de diluir o risco: proibir os cabeceamentos ou tornar as bolas mais leves, sendo que ambas mudariam completamente a dinâmica do jogo. Se aparecerem fortes evidências científicas, não vejo outra maneira que não seja intervir e desenvolver estratégias preventivas para proteger os atletas em plena vida desportiva ativa”, fixou.

João Massano apela à utilidade de se “estudar muito bem estas pessoas, convencê-las a participar em investigação séria e bem feita e, se possível, doarem o cérebro quando falecerem”, na tentativa de compreender uma doença de “difícil diagnóstico em vida”.

LUSA/HN

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