Filipe Froes: “A chegada de refugiados pode criar condições para um ressurgimento de nova atividade pandémica”

Segundo o especialista “o cenário de uma sexta vaga tem de ser contemplado”. Em entrevista ao nosso jornal, Filipe Froes deixa críticas à forma como está a ser encarada a pandemia, lamentando a menor vigilância e os atrasos na partilha de informação dos relatórios semanais. Questionado sobre o impacto que a baixa taxa de vacinação dos cidadão ucranianos pode ter a nível nacional, o infeciologista admite que esse é “mais um sinal” que justifica “mantermos a vigilância e a monitorização”. Caso não seja feita essa “avaliação”, podermos assistir a “um ressurgimento de nova atividade pandémica”.

HealthNews (HN)- Com as atenções viradas para a guerra na Ucrânia a Covid-19 passou para um segundo plano. No entanto, os dados da DGS apontam para um agravamento da situação pandémica. A subida dos indicadores que compõem a matriz de risco poderão fazer disparar os alarmes para uma sexta vaga de infeções?

Filipe Froes (FF)- Indiscutivelmente estamos a assistir a um aumento do número de casos por Covid-19… Nesta fase, e com base no relatório disponibilizado esta sexta-feira, relativamente ao período de 8 a 14 de março e, portanto, com quatro dias de atraso, não houve ainda uma tradução de aumento da gravidade. De qualquer maneira, o cenário de uma sexta vaga tem de ser contemplado e na minha perspetiva justificava-se manter ainda uma monitorização mais continua e, acima de tudo, sem estes atrasos de tantos dias.

HN- A Europa é o destino de milhões de refugiados ucranianos com livre acesso para os países da União Europeia. Tendo em conta que a cobertura vacinal na Ucrânia é relativamente baixa, como encara a situação?

FF- Como mais um sinal de mantermos a vigilância e a monitorização… Temos que compreender que estamos numa situação dramática para quem teve que abandonar o seu país e, por isso, é o nosso dever recebê-los, mas devemos fazer uma averiguação do seu estado de saúde e uma averiguação do seu estado vacinal e atualizá-lo à luz da nossa realidade?

HN- E essa “averiguação” está a ser feita?

FF- Sei que há vários colegas meus que estão a tentar fazer essa validação, mas não sei se os refugiados estão neste momento incluídos nos grupos de acesso à vacinação contra a Covid-19.

HN- Na sexta-feira o Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças alertou para o aumento de casos na Europa, classificando a situação portuguesa como muito preocupante. Este alerta confirma a realidade no terreno? 

FF- No terreno ainda não temos um acréscimo de gravidade que nos deixe preocupados. No entanto, o principal problema que eu encontro é a menor monitorização e o atraso na mesma. Isto significa que, se se verificar um aumento de gravidade, vamos ter uma resposta mais tardia e menos oportuna – demoramos mais tempo a diagnosticar e a intervir e em pandemia isso conduz para um maior impacto. Com base naquilo que já sabemos era perfeitamente viável e desejável manter nesta fase uma maior vigilância e em tempo real. Já temos dois anos de pandemia, temos uma estrutura montada, portanto não é preciso criar nada de novo… Bastava manter a informação para termos a certeza de que a situação está a evoluir favoravelmente e que este aumento de novos casos não se está a traduzir num aumento de gravidade. O que estamos a fazer agora é monitorizar à semana, mas quando recebemos o relatório já tem quatro dias de atraso… Na prática significa que andamos sempre com uma semana de atraso. Em pandemia, perder sete a dez dias é aumentar o seu impacto e perder tempo de reação.

HN- Já há especialistas a alertarem para que a linhagem BA.2 da variante Ómicron apresenta “alguma taxa de reinfeção”. Devemos olhar com preocupação para estes sinais?

FF- É evidente que esta linhagem ao ser diferente das anteriores está associada a um aumento da taxa de reinfeção. Isto é o que caracteriza estas novas linhagens. Portanto, era mais uma razão para mantermos uma vigilância mais apertada e em tempo mais oportuno.

HN- O bastonário da Ordem dos Médicos afirmou esta sexta-feira que a “libertação total” “dificilmente acontecerá em 15 dias”. Considera que as medidas em vigor são suficientes? Devem ser mantidas ou reforçadas?

FF- Acho que aquilo que o senhor bastonário queria reforçar era a importância de se manter a vigilância e a adequação da resposta. Neste momento, ao diminuirmos a nossa capacidade de vigilância numa situação de aumento do número de caso, estamos a criar condições para não decidirmos com os melhores critérios.

HN- Poderemos voltar a ver impostas medidas mais restritivas? Medidas que já foram implementadas no passado?

FF- Tudo vai depender da evolução, mas não é um cenário previsível. Digamos que se trata de uma situação possível, mas não provável. Dentro do cenário possível, é evidente que se a situação se acompanhar de um aumento da gravidade com tradução em termos de internamento em enfermaria, unidade de cuidados intensivos e do número de óbitos então teremos que voltar a implementar as medidas que numa determinada altura se demonstraram eficazes.

HN- É notória a sensação de “fadiga da pandemia” dentro da população. Consegue compreender a postura dos portugueses?

FF- Os portugueses estão saturados, mas também já deram provas que se lhes for explicada a situação, aderem a essas medidas. Portanto, a saturação combate-se com informação, conhecimento, envolvimento e adesão. Não se combate é minimizando os problemas e não disponibilizando em tempo útil a informação. Ninguém quer o pior para o país.

HN- Na China a situação epidemiológica é cada vez mais inquietante. O número de novos casos disparou de forma abrupta, levando ao confinamento de mais de 37 milhões de cidadãos. Podemos vir a assistir a uma espécie de ‘déjà-vu’ caso não sejam adotadas medidas pelas autoridades nacionais?

FF- A situação na China não tem paralelismo com a situação que se vive nos países da União Europeia. O governo chinês adotou uma estratégia diferente da nossa e que assenta numa tentativa de eliminação do vírus. Nós sabemos que essa tentativa não é possível e que devemos controlar a pandemia através de um reforço muito grande da vacinação.

Os chineses, perante o número de casos, ainda fazem confinamentos. Em Portugal não prevejo que se volte aos confinamentos. Só numa situação de um descalabro à escala global, e com uma nova variante para a qual as vacinas disponíveis não tivessem nenhuma eficácia, é que se poderia justificar um regresso aos tempos que vivemos com a chegada da Covid-19.

HN- A Pfizer já solicitou nos Estados Unidos uma autorização para uma quarta-dose da vacina para seniores. Já os peritos da DGS garantem não haver necessidade de uma quarta dose da vacina (para já). Qual a sua posição relativamente a este tema?

FF- Compreendo os dois lados. A Pfizer acautelou a possibilidade de uma quarta dose que neste momento não é necessária. Se vier a ser, todos nós beneficiaremos do facto de já estar autorizada.

Gostaria de deixar algum comentário?

É importante percebermos que a pandemia ainda não acabou e que esta situação da vinda de refugiados pode criar condições para um ressurgimento de nova atividade pandémica, pelo que é fundamental, sem alarmismos e sem alarido, mantermos uma vigilância da incidência da gravidade em tempo real.

Entrevista de Vaishaly Camões

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