Idosos sem Covid-19 sofrem o mesmo impacto que os infetados

5 de Junho 2020

O Webinar “Casos Clínicos: impacto do Covid-19 no sénior” realizado esta quinta-feira demonstra que o confinamento tem o mesmo impacto negativo num idoso que não tenha sido diagnosticado com o vírus do que num idoso infetado. A sessão que decorreu durante duas horas contou com a participação de médicos de Medicina Interna, nutricionistas e fisioterapeutas. 

O impacto da pandemia nas pessoas mais idosas foi o foco central do webinar. Ao longo da sessão, os especialistas referiram que a pandemia impulsionou graves distúrbios alimentares nos idosos. O médico de Medicina Interna do CHUC e Presidente do Hospital da Figueira da Foz, Manuel Teixeira Veríssimo, garantiu que a sessão trazia “casos que nos transportam para a realidade” onde o tema central seria focado em duas áreas “essenciais” que comprometem a saúde dos idosos.

De acordo com o médico “os idosos são os que mais sofrem com esta pandemia”, uma vez que “têm uma maior deficiência da sua funcionalidade”. É neste sentido que Manuel Teixeira Veríssimo alerta para a necessidade de olhar para “duas áreas que são a base da saúde dos idosos”, identificando a nutrição e a atividade física. “A desnutrição, ao contrário daquilo que se pensa, é o principal problema dos idosos dos países desenvolvidos”.

Relativamente aos casos clínicos, coube à Médica de Medicina Interna do Centro Hospitalar de Lisboa Ocidental São Francisco Xavier, Sofia Duque, a sua apresentação. A especialista referiu que foram analisados dois casos clínicos em que o impacto da pandemia foi igual num idoso que contraiu a doença e num idoso não infetado. Na mesma linha que o médico Manuel Teixeira Verissimo, a especialista referiu, também, que a desnutrição foi um dos grandes impactos provocados pela Covid-19.

Sofia Duque explicou que nos dois casos clínicos foi feita “uma avaliação geriátrica global”. De acordo com a médica esta avaliação compreendeu as doenças orgânicas e capacidade funcional e cognitiva, tendo sido necessário “envolver vários profissionais de saúde que dialogaram entre si para conseguir integrar um quadro de planeamento coerente”.

No primeiro caso, a médica referiu que o idoso de 81 anos foi diagnosticado com Covid-19, sendo hospitalizado ao sexto dia com uma pneumonia provocada pela doença. Durante o processo teve complicações de diarreia (comprometendo a absorção de nutrientes), imobilidade e lesão renal aguda. Passados 25 dias de ter estado hospitalizado foi dada alta para o domicílio.

Relativamente aos antecedentes pessoais relevantes, a médica explica que o estilo de vida era pouco ativo, realizando curtos percursos a pé. Sofia Duque garante que o doente tinha doença pulmonar obstrutiva crónica, enfisema tabágica, doença obliterativa arterial, hipertensão arterial, doença cerebrovascular e anorexia. Todos estes antecedentes agravaram a recuperação do idoso.

A médica conclui que “para tratarmos da desnutrição temos de assentar em dois pilares, a nutrição e atividade física”.

A nível dos planos nutricionais coube à nutricionista do Hospital de Santa Marta, Diana Mendes explicar o plano que melhor se enquadrava. De acordo com a especialista, o Covid-19 veio realçar a importância de prevenir a desnutrição dos idosos. Diana Mendes explicou que para retirar o doente da desnutrição decidiu implementar um programa com “uma correta hidratação”, uma dieta “pastosa” e suplementos orais com arginina. A nutricionista optou por batidos e gelados para substituir alimentos que o idoso não estivesse recetivo para consumir.

A nível da atividade física, o fisioterapeuta do Hospital São José, Germano Ferreira, chama a atenção para as sequelas resultantes dos doentes depois de contraírem a doença. O fisioterapeuta explica que o historial clinico levou ao sedentarismo e ao declínio do seu estado funcional.

No que diz respeito ao tratamento, o fisioterapeuta explicou que para a capacidade cardiorrespiratória, dispneia e fadiga devem ser indicados exercícios aeróbicos; para o aumento da força muscular e da massa isenta de gordura devem ser feitos exercícios de força; para o aumento das amplitudes de movimento pode recorrer-se a exercícios de flexibilidade e para o aumento da coordenação, equilíbrio estático e dinâmico e diminuição do risco de queda devem ser feitos exercícios de equilíbrio.

Os especialistas explicam que o impacto do Covid-19 em idosos põe em causa o bem-estar nutricional. No primeiro caso, o vírus impulsionou a perda de peso e distúrbios alimentares que provocaram a desnutrição. No entanto, os especialistas alertam que a desnutrição também atinge idosos mesmo que não sejam diagnosticados com o novo coronavírus.

No segundo caso apresentado, a médica Sofia Duque revela que o confinamento de uma idosa de 86 anos prejudicou a sua saúde alimentar e emocional. De acordo com a especialista, a idosa frequentava um centro de dia onde tomava 5 refeições por dia, participava em aulas de grupo de ginástica três vezes por semana e era acompanhada pela filha que trabalhava como enfermeira.

Relativamente aos antecedentes, a idosa tinha já problemas na mobilidade, tinha osteoporose, alzheimer, problemas no maxilar, incontinência urinária. No entanto, a médica salienta que a alimentação a que estava habituada preenchia todos os requisitos de uma dieta saudável e rica.

O confinamento trouxe várias consequências para esta idosa que, ao ver o centro de dia fechado, foi obrigada a permanecer no seu domicílio sozinha, uma vez que a profissão da filha representava um elevado risco. A falta de acompanhamento fez com que começasse a ter depressão, a esquecer-se da toma da medicação e de algumas refeições.

Para o tratamento, a nutricionista defendeu uma dieta personalizada com duas sopas, uma refeição principal, duas sobremesas “para dar um aporte mais energético”, dois pacotes de leite e duas sandes”. E acrescentou que os alimentos devem de ser de fácil acesso, indicando enlatados e refeições refrigeradas prontas para regenerar. Estes devem ser colocados num local estratégico que esteja ao alcance da idosa.

Já o fisioterapeuta referiu que para a incontinência urinária devem ser ensinados exercícios de fortalecimento dos músculos do pavimento pélvico; para a disfunção da ATM pode recorrer-se à terapia manual e exercícios terapêuticos; no caso das dores na mobilidade defende que deve haver um incremento da atividade física; para a mobilidade funcional e risco de queda devem ser ensinados exercícios terapêuticos “visando o equilíbrio, a força e a coordenação”.

A sessão, que contou com o apoio da Associação Portuguesa de Nutrição Entérica e Parentérica (APNEP) e da Nestlé Health Science, focada em dois casos específicos demonstra que a pandemia da Covid-19 acaba por ter um forte impacto no bem-estar alimentar dos idosos. Independentemente de contrair o vírus ou não, a malnutrição pode atingir qualquer idoso que não seja acompanhado durante o seu confinamento.

HN/ Vaishaly Camões

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