Maria do Carmo Cafede
Médica especialista em MGF

“palavras em tempo de crise” 1

26/03/2021 | Opinião

«Estar em casa
Estar a estar
Dias e dias»2
26-IV-2020

 

Foi um sonho. Uma ou duas vezes acordei durante a noite, em sobressalto, sem saber bem onde estava. A ansiedade era evidente, ainda que sem causa, dificultando a retoma da realidade. Aos poucos, percebi o susto! Tinha-me esquecido da máscara…

Os novos gestos ocuparam os nossos corpos e, exaustos, reclamam o hábito. Outros foram esquecidos ou simplesmente adiados. Tudo está num limbo, à espera… sem concretizações, mas invadido pela esperança de dias distantes, de abraços, de festejos, de viagens, numa distopia sinestésica que todos desconhecem e querem. Ultrapassar o confinamento e o medo surgem como tarefas imediatas que todos temos de cumprir como se fossem os derradeiros desejos de condenados. Sensíveis a teorias que negam o presente apenas devido ao cansaço extremo, aspiramos a notícias tontas, “um primeiro de abril”, como dantes, com direito a primeira página e abertura de noticiário televisivo. Acabou…

Os dias não correm de feição. Um ano depois, continuamos com a vida de pernas para o ar, sem horizontes no olhar e com medo. Parece uma guerra mundial, sem aliados definidos contra um inimigo poderoso visível na dimensão abaixo de zero e com vítimas inocentes. A resistência, como em todas as outras guerras, foi-se organizando, de início envergonhada e depois com todo o seu esplendor criativo. A sobrevivência é uma condição inerente à humanidade e a adaptação às crises uma prova da nossa inteligência. Por aqui e por ali, abriram-se janelas para a música, para o teatro, para o cinema, para a pintura, para a literatura… e mais que eu não sei. A arte, alguém disse, pode ser encarada como um “efeito colateral” da tal sobrevivência, não no sentido de inferioridade, mas como inevitável. Por que sim, também serve.

Por defeito meu, gosto de livros. Sem preparo ou habilidade especial, gosto de saber o que se vai escrevendo por aí. E lendo. A leitura foi uma ambição muito partilhada, nos idos de março do ano passado. O tempo livre forçado antevia cumprir objetivos, quase sempre irrealistas, de leituras em atraso. Fizeram-se e divulgaram-se listas, para todos os gostos. Sobre todos os temas, mas com particular atenção aos que abordavam pandemias anteriores ou confinamentos de alguma espécie. Confesso que fiquei mesmo admirada com alguns exemplos, uns conhecidos, outros nem por isso.

“Isto era o princípio de Maio, embora o tempo estivesse temperado, variável, e bastante frio, e o povo ainda tinha esperanças.” Esta frase foi escrita por Daniel Defoe, sobre a peste de 1665 em Londres, ao jeito de um livro de memórias, com a particularidade de ser um diário inventado, «Diário do Ano da Peste»3, publicado em 1720. “Todos os festejos públicos, em particular pelas sociedades desta cidade, tais como jantares em tabernas, cervejarias e outros locais de entretenimento comum, serão proibidos até nova ordem e permissão (…)”, soa demasiado familiar, não é? Uma obra inovadora à época, misturando ficção e história, em doses razoáveis, do mesmo autor de Robison Crusoe. Por último, partilho uma breve nota sobre sintomatologia. “A outra particularidade é que muitas pessoas se sentiam bem, tanto quanto lhes era dado a perceber, considerando as observações que faziam delas próprias durante vários dias, notando apenas uma diminuição do apetite, ou um leve enjoo no estômago (…).”

Ainda sobre calamidades no passado não posso ignorar «Decameron»4, de Giovanni Boccaccio e algumas das suas palavras. “O pesadelo do início? Imaginei uma montanha cujas escarpas se apresentam perante os visitantes; mas logo a seguir, surge uma planície cuja beleza seduz e encanta tanto mais que a escalada e a descida acabam de ser rudes. Se a dor confina com a alegria, as misérias dissipam-se quando esta surge. Albert Camus escreveu “A morte do porteiro, pode dizer-se, marcou o fim deste período, cheio de sinais desconcertantes, e o início de um outro, relativamente mais difícil, em que a surpresa dos primeiros tempos se transformou, pouco a pouco, em pânico”, em «A peste»5. Apesar de ser um relato ficcionado sobre uma epidemia de cólera ocorrida no final do século XIX na Argélia, a sua publicação em 1947 permite uma potencial proximidade aos nossos dias. E talvez por isso, o livro esgotou.

Quando Herman Melville escreveu «Moby Dick»6, não imaginaria que viesse a ser um dos livros escolhidos para comparar o confinamento relacionado com o Covid-19. Os meus favoritos são, no entanto, «Viagem à volta do meu quarto»7 e «à rebours»8, de Xavier de Maistre e Joris-Karl Huysmans, respetivamente. O primeiro, escrito em 1794, relata uma viagem, real, à volta de um quarto, mobilado com uma cama, uma poltrona, uma mesa e uma lareira! “Depois da poltrona, caminhando para norte, encontra-se a minha cama, que está posta ao fundo do quarto e oferece a mais agradável perspectiva. A sua localização é a mais favorável: os primeiros raios solares vêm cintilar nas minhas cortinas”.  A fluidez da sua escrita e o tom sarcástico possibilitam uma leitura interessante, onde tentamos saber se a clausura é facultativa, ou não. O segundo livro, que ainda estou a descobrir, é um romance sem enredo, publicado em 1884. Centrado numa única personagem, usa a descrição em vez da narrativa, para nos mostrar a relação dela com várias obras de arte. Não ouso traduzir, como é óbvio. “Enfoncé dans un vaste fauteuil à oreillettes, les pieds sur les poires em vermeil des chenets, les pantoufles rôties qui dardaient, en crépitant, comme ciglées par la soufflé furieux d’un chalumeau, de vives flammes, des Esseintes [a personagem] posa le vieil in-quarto qu’il lisait, sur une table, s’étira, alluma une cigarrette, puis il se prit à rever délicieusement (…)”.

«Frente ao Contágio»9, do físico e escritor Paolo Giordano (que conhecemos de «A solidão dos números primos»), foi dos primeiros a ter obra publicada sobre a pandemia, logo em abril. “Decidi ocupar este vazio escrevendo. Para não ceder à inquietação, e para procurar uma melhor maneira de pensar tudo isto. Por vezes a escrita pode ser um lastro que permite manter os pés assentes no chão. (…) Quando estas páginas forem lidas, a situação terá mudado. Os números serão diferentes, a epidemia ter-se-á difundido mais, terá chegado a todos os cantos civilizados do mundo, ou terá sido dominada (…)”. A ingenuidade dos primeiros tempos é a caraterística principal de todas as pequenas crónicas presentes na obra.

O filósofo Slavoj Žižek também foi lesto na escrita, com o livro «A pandemia que abalou o Mundo» (nunca percebi o título enorme em português, quando na maioria dos países foi somente ‘Pandemic’). “(…) devemos resistir à tentação de tratar a atual epidemia como algo dotado de um significado mais profundo: a cruel, mas justa punição da humanidade pela impiedosa exploração de outras formas de vida na Terra», um conselho sensato, acho eu. E uma das minhas partes favoritas. «Talvez possamos aprender alguma coisa sobre as nossas reações à epidemia de coronavírus com Elizabeth Kübler-Ross, que no seu On death and dying propôs o famoso esquema das cinco fases que caraterizam a forma como reagimos à notícia de que sofremos uma doença terminal (…): a negação (…), a raiva (…), a negociação (…), a depressão (…), a aceitação (…)». Na minha opinião, estamos a meio. E muitos outros autores se seguiram, em vários géneros literários, abordando questões direta, ou indiretamente, ligadas à pandemia.

E por aqui? Apesar da crise económica, alguns autores conseguiram publicar as suas obras, escritas durante ou sobre a pandemia. Sem nenhum critério, saliento Teresa Veiga11, Adília Lopes2, José Luís Peixoto12, Djaimilia Pereira de Almeida13 e José Gardeazabal14.

Antes de terminar, gostaria ainda de referir dois números da revista «Granta» internacional. O número 151, foi publicado na primavera de 2020 e tem o título “Membranes”. A partir da definição de ‘membrana’, enquanto signo exclusivo da biologia e de uma só célula, o campo semântico é alargado, através das histórias contadas (texto e fotografias), para tecido, indivíduo, coletivo, nação, espécie e cosmos. Na introdução (brilhante!), escrita por Rana Dasgupta, podemos ler “Absortion and repulsion. No principles can be more fundamental than these. They arouse our great passions – and our greatest poems; societies brawl over their priority. (…) The protection we seek are imaginary and spiritual. Poets and philosophers must show us the way”. O número 152 intitula-se «Still life» e leva-nos numa viagem por outros confinamentos, subjetivando o ‘tempo’ e lembrando que ‘estamos vivos’. Sigrid Rausing escreveu “Time is the gift, but of course there are bigger issues to grapple with; questions of freedom and captivity, of responsability and existencial threat. (…) has described how observing a scene (…) without automatically collapsing the moment into language, deepens the experience of seeing”.

Divirtam-se!

“O poema é como uma casa, e a casa protege-nos.”12

(29 de março de 2020)

 

Obras e autores mencionados

1 «palavras em tempo de crise», Luís Sepúlveda, Porto Editora, setembro de 2013; escrito durante a crise económica deste século; Luís Sepúlveda foi uma vítima desta pandemia

2 «Dias e dias», Adília Lopes, Assírio & Alvim, setembro de 2020

3 «Diário do Ano da Peste», Daniel Defoe, Clássica Editora, setembro 2020

4 «Decameron», Giovanni Boccaccio, Mel Editores, junho 2011

5 «A Peste», Albert Camus, Livros do Brasil, maio 2016

6 «Moby Dick», Herman Melville, Relógio D’Água Editores, outubro 2005

7 «Viagem à volta do meu quarto», Xavier de Maistre, Tinta da China, abril 2015

8 «à rebours», Joris-Karl Huysmans, Garnier Flammarion, fevereiro 2021

9 «Frente ao Contágio», Paolo Giordano, Relógio D’Água Editores, abril 2020

10 «A Pandemia que abalou o Mundo», Slavoj Žižek, Relógio D’Água Editores, maio 2020

11 «Cidade Infeta», Teresa Veiga, Tinta da China, setembro 2020

12 «Regresso a Casa», José Luís Peixoto, Quetzal, agosto 2020

13 «Regras de Isolamento», Djaimilia Pereira de Almeida, Fundação Francisco Manuel dos Santos, agosto 2020

14 «Quarentena, Uma História de Amor», José Gardeazabal, Companhia das Letras, março 2021

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