04/07/2022 | Opinião

Associações improváveis: Presidentes da República e acidentes de trabalho!

António Sousa Uva
Médico do Trabalho, Imunoalergologista e Professor Catedrático Emérito de Medicina do Trabalho e Saúde Ocupacional (ENSP/UNL)
asuva@ensp.unl.pt

A propósito da “telenovela” noticiosa do (des)convite do Presidente Jair Bolsonaro ao nosso Presidente Marcelo Rebelo de Sousa que “canibalizou” os canais noticiosos deste “rectangulozinho à beira-mar plantado” tive um encontro com o que me pareceu ser uma sequela de um acidente de trabalho de um ex-Presidente da República Federativa do Brasil. Confesso que nunca tinha reparado nisso.

Com os cuidados inerentes à procura de informação na internet, foi muito fácil (e rápido) aceder a dois vídeos de entrevistas a esse ex-Presidente realizadas há poucos anos que confirmaram tratar-se de uma sequela de um acidente de trabalho (a perda das três falanges do 5º dedo da mão esquerda).

Para os muitos que associam os acidentes de trabalho ao trabalho operário convirá referir que, de facto, tal terá acontecido, no passado operário daquele ex-Presidente, mas será igualmente importante referir-se que os acidentes de trabalho podem acontecer em qualquer trabalhador e não apenas em operários.

Mas o que me fez escrever este breve texto é que existe uma rápida associação dos acidentes de trabalho aos operários o que é bem revelador da sua excessiva frequência ainda que, no caso em apreço, essa sequela tenha mais de cinquenta anos. É algo a que julgo não ter dedicado suficiente atenção, tanto mais que é um tema a que tenho dedicado muito tempo da minha vida.

Nesse espaço de tempo, pelo menos na Europa, a redução da incidência de acidentes de trabalho tem sido uma realidade que está, por certo, para além da também importante redução de actividade do sector secundário.

Representará o raciocínio da associação dos acidentes de trabalho ao trabalho operário um entendimento representativo de um correcto investimento em prevenção?

 Não representará isso uma espécie de “cumplicidade” com a inevitabilidade da sua ocorrência?

 O investimento em prevenção não deveria ser proporcional ao risco?

 Não bastará o conhecimento da completa preventabilidade desses acidentes para se investir mais na Saúde Ocupacional (ou Saúde e Segurança do Trabalho, se se preferir), no caso, na sua vertente Segurança do Trabalho?

Quero crer que se pode fazer muito mais do que se tem feito já que ainda se toleram muitas situações que deveriam ser totalmente inaceitáveis! O que faz mesmo falta é que se considere a Saúde Ocupacional parte integrante de qualquer trabalho e não uma espécie de “fringe benefit” de alguns!

0 Comments

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado.

Share This