Stress e problemas de saúde psicológica no trabalho custam 5,3 mil milhões por ano

Stress e problemas de saúde psicológica no trabalho custam 5,3 mil milhões por ano

De acordo com o documento “Prosperidade e Sustentabilidade das Organizações – Relatório do Custo do Stresse e dos Problemas de Saúde Psicológica no Trabalho”, o absentismo custou 1,8 mil milhões de euros em 2022 às empresas em Portugal. Já o presentismo (quando os trabalhadores vão para o seu local de emprego, mas funcionam abaixo das suas capacidades por motivo) teve um custo de 3,5 mil milhões de euros, registando-se assim uma perda total de produtividade de 5,3 mil milhões por ano.

Em dias, estima-se que os trabalhadores faltem 7,4 dias por ano devido ao stress e aos problemas de saúde psicológica e que o presentismo seja ainda mais representativo, podendo chegar aos 15,8 dias por ano – números que subiram em relação a 2020.

Este cálculo, realizado pela OPP, refere-se apenas a custos indiretos do stress e problemas de saúde psicológica no trabalho, como os que envolvem a perda de produtividade (absentismo, presentismo, rotatividade e erros/acidentes). Não estão representados custos diretos, como os gastos com serviços de saúde, pagamento de seguros, problemas legais ou pagamento de multas e compensações.

Um recente relatório sobre os benefícios económicos do investimento em saúde psicológica (McDaid e A-La Park, 2022) reporta que o retorno sobre o investimento em saúde psicológica é de cinco euros por cada euro investido.

PR/HN/RA

 

Vítor Tedim Cruz: “Precisamos de um ‘exército’ bem organizado na luta diária contra o AVC”

Vítor Tedim Cruz: “Precisamos de um ‘exército’ bem organizado na luta diária contra o AVC”

HealthNews (HN)- O AVC é a principal causa de morte e incapacidade em Portugal. O que é que está a falhar no nosso país?

Vítor Tedim Cruz (VTC)- A redução da incidência de AVC na população é um dos objetivos mais difíceis de atingir. Os principais fatores de risco vascular modificáveis são muito frequentes e dependentes de estilos de vida – e.g.: hipertensão arterial (HTA), colesterol elevado, diabetes, tabagismo, obesidade, sedentarismo –, sendo que metade dos indivíduos, quando atingem os 50 anos de idade, já apresenta pelo menos três destes fatores.

Rever o controlo destes fatores, anualmente, com o médico de família, é um passo crucial. Um outro aspeto importante é garantir o acesso a prevenção secundária a todos os doentes identificados como de elevado risco vascular, muitas vezes depois de um evento como um AIT, AVC ou EAM, que motiva uma avaliação vascular mais extensa. Todas as oportunidades para reduzir o risco individual e coletivo são cruciais nesta luta permanente contra o AVC.

Relativamente ao tratamento agudo, importa garantir o acesso a estes cuidados de forma homogénea em todo o país. Existem grandes áreas do país onde os serviços estão bem organizados e onde existem bons indicadores de qualidade de acesso a tratamento de fase aguda. No entanto, é importante replicar os bons resultados de organização e qualidade em todo o território, nomeadamente nas regiões interiores, sul e ilhas.

No âmbito da reabilitação, o problema é de uma dimensão maior e mais complexa, pois é necessário garantir e manter serviços de qualidade por longos períodos de tempo após um AVC. Esta área carece de maior atenção, recursos e, eventualmente, reorganização dos recursos disponíveis. O nosso objetivo é devolver as pessoas íntegras à sociedade.

Assim, e em resumo, garantir o acesso da população a prevenção primária e secundária e a qualidade do tratamento agudo são o caminho a seguir para reduzir a incidência e aumentar a sobrevivência sem sequelas.

HN- Quais são os grandes desafios a resolver a curto/médio prazo nos quais a Sociedade Portuguesa do Acidente Vascular Cerebral poderá intervir?

VTC- Continuar a apostar na sensibilização da população ao longo de todo o ano, com a promoção de atividades locais, nacionais e mesmo internacionais, no sentido de repetir as mensagens fundamentais para a deteção e ação rápida (e acertada) perante um AVC. Qualquer pessoa deveria conhecer os sinais de alerta do AVC, os 3 F – alteração na fala, alteração na face (os doentes identificam uma boca ao lado) e perda de força num dos membros do corpo –, e saber que, na presença de um destes sinais, deve ligar-se de imediato para o 112 para ativar a Via Verde do AVC. Esta é uma ‘autoestrada’ para que, no meio da confusão que são os serviços de emergência, as pessoas possam rapidamente ter acesso ao tratamento. O cérebro é um órgão muito delicado e, ao contrário de outros, não aguenta muito tempo sem circulação. As primeiras horas são determinantes. É por isso que a SPAVC insiste na mensagem de que “tempo é cérebro”.

Estas ações de sensibilização constituem atividades presenciais, como palestras, rastreios, sessões de atividade física, entre outras, habitualmente organizadas a propósito de datas ligadas à patologia: Dia Nacional do Doente com AVC (31 de março) e Dia Mundial do AVC (29 de outubro); mas também ações digitais em permanência, quer através das redes sociais da SPAVC, quer na associação a campanhas com componente online (como é o caso da campanha global “Fast Heroes”, dirigida às crianças e jovens).

Neste ponto, a comunicação social cumpre um papel fundamental e insubstituível de fazer chegar à população (espetadores, leitores, ouvintes) mensagens de prevenção e tratamento atempado.

Paralelamente, a SPAVC pretende intervir também, a curto/médio prazo, na área da investigação, promovendo estudos (já em curso, através de grupos de trabalhos constituídos) para conhecer melhor a realidade dos hospitais que tratam AVC em Portugal, bem como caracterizar os doentes, para, assim, poder agir em conformidade com os resultados e principais desafios identificados.

Estes dados permitirão, também, que a SPAVC possa ter um papel mais ativo junto da tutela, com planos delineados a partir dos achados à escala nacional.

HN- Desde 2005, quais foram as maiores conquistas da SPAVC?

VTC- As principais conquistas não são da SPAVC, são da população portuguesa. É para a população que trabalhamos.

Nos dias de hoje e face a 2005, o AVC é menos negligenciado, quer pela população, quer pelos profissionais, instituições de saúde e SNS.

Salientaria dois aspetos essenciais: todos os hospitais que realizam trombólise têm uma Unidade de AVC ou estão muito próximo disso e sabem como se articular para garantir o acesso a tratamento endovascular na fase aguda do AVC, disponível nos centros de maior dimensão nacional; o INEM tem o AVC como prioridade e desempenha um papel crucial no pré-hospitalar para garantir que o doente com AVC chega ao local certo, na hora certa e com a informação certa.

Salientaria duas áreas de atenção máxima para onde devemos dirigir recursos: prevenção primária e secundária; reabilitação da fase aguda e das sequelas.

Nestas duas áreas, temos profissionais da melhor qualidade, mas é necessária maior atenção para garantir as devidas condições e meios de trabalho, de modo a conseguir responder à população em tempo útil e com qualidade.

HN- O que nos pode dizer sobre o 17.º Congresso Português do AVC?

VTC- O 17.º Congresso Português do AVC acontece entre os dias 2 a 4 de fevereiro de 2023, no Hotel Sheraton Porto. Este congresso representa o retomar do formato presencial, após dois anos em modelo 100% virtual, devido à pandemia Covid-19. No entanto, mantendo a internacionalização e facilidade de acesso que as edições anteriores, em formato 100% virtual, vieram acrescentar, a SPAVC mantém a opção de participação virtual para todos os não-residentes em Portugal Continental, com especial enfoque no Brasil e nos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), que têm demonstrado grande interesse em acompanhar os nossos congressos e não queremos que fiquem de fora.

O evento anual da Sociedade Portuguesa do AVC conta novamente com a participação de especialistas de referência em diversas áreas de interesse, quer do panorama nacional, quer além-fronteiras, incluindo 11 palestrantes estrangeiros já confirmados. A aposta da SPAVC em integrar convidados internacionais no seu congresso anual tem-se mantido uma constante, por considerarmos que a troca de experiências multiculturais e a partilha de exemplos muito distintos podem ajudar a reinventar a realidade nacional.

A variedade de temas incluídos este ano, na tentativa de percorrer as áreas da prevenção primária e secundária, do tratamento agudo e da reabilitação, mas também outros temas de reflexão e de grande atualidade, como a sustentabilidade na saúde ou a saúde mental, tornam este congresso verdadeiramente multidisciplinar e aberto a todos os que querem aprender e deixar o seu contributo.

A SPAVC disponibiliza ainda seis cursos formativos pré e pós-congresso, com públicos-alvo diferentes, em temáticas específicas como “Enfermagem Neurovascular”, “Técnicas ultrassonográficas para guiar decisões terapêuticas na Unidade de AVC”, “Como comunicar no pós-AVC com o doente que não consegue falar”, “Genética e AVC”, “A Via Verde do AVC em 9 perguntas” e “Metodologias MIND”. Este é o primeiro ano em que o congresso acolhe este número tão expressivo de cursos, despoletados por necessidades identificadas em anos anteriores, “o que demonstra o interesse dos profissionais de saúde em formação cada vez mais especializada como complemento ou aprofundamento das suas valências e/ou áreas de intervenção”.

Todas as informações sobre o programa, os intervenientes, os cursos, entre outras, podem ser consultadas no website da SPAVC.

HN- Para terminar, que mensagem gostaria de deixar aos sócios e aos nossos profissionais de saúde?

VTC- Precisamos de todos os profissionais de saúde neste combate ao AVC. A abordagem desta doença é verdadeiramente multidisciplinar: a Medicina Geral e Familiar é absolutamente fulcral na prevenção primária; na fase aguda, necessitamos da Neurologia, Medicina Interna, Neurorradiologia de Intervenção, Enfermagem, Cardiologia; na reabilitação, que começa na fase aguda, necessitamos de equipas de reabilitação completas e articuladas, incluindo a Fisiatria e também todas as intervenções como fisioterapia, terapia da fala, terapia ocupacional, nutrição, psicologia, entre muitos outros.

A formação é muito importante e a aproximação entre pares cumpre um papel importante nesta interdisciplinaridade exigida.

Juntem-se a nós neste debate. Precisamos de um “exército” bem organizado na luta diária contra o AVC.

Entrevista de Rita Antunes

Ministério da Saúde reforça ações preventivas para evitar novos ciberataques

Ministério da Saúde reforça ações preventivas para evitar novos ciberataques

“Não estão atualmente sinalizadas perturbações informáticas nos serviços do Ministério da Saúde”, disse à Lusa fonte oficial do gabinete liderado pelo ministro Manuel Pizarro.

Segundo o ministério, “na sequência dos incidentes do passado fim de semana e da monitorização levada a cabo pelos departamentos de informática das instituições, têm sido reforçadas as ações preventivas”.

As ações passam por “medidas de informação sobre segurança informática junto dos trabalhadores”, como por exemplo, alterar as palavras-passe com frequência, “ou restrições de acesso a plataformas digitais”, explicou o gabinete.

Na quarta-feira, o presidente executivo (CEO) da empresa Visionware, Bruno Castro, disse à Lusa que um grupo cibercriminoso “muito próximo” do Kremlin (Presidência russa), Killnet, que tem visado nos seus ataques países pró-Ucrânia como Portugal, lançou um apelo ao recrutamento de novos membros [“call to arms”].

Bruno Castro salientou tratar-se da segunda vez em menos de uma semana que a ‘Killnet’ lançou idêntico apelo, depois de o último ter afetado instituições ligadas à área da saúde em vários países, incluindo Portugal, tendo sido atingidos os portais da Direção-Geral da Saúde (DGS) e da Faculdade de Farmácia.

Segundo o CEO da empresa credenciada pela NATO em soluções de segurança da informação e cibersegurança, o grupo de ciberativistas russos tem lançado várias campanhas de recrutamento para ciberataques a vários países ocidentais, além dos Estados Unidos, alegadamente em resposta ao alinhamento pró-Ucrânia, em que Portugal está incluído.

Em 28 de janeiro, a Direção-Geral da Saúde (DGS) informou que o seu ‘site’ tinha sido alvo de um ciberataque que impediu o acesso aos dados e serviços, mas pelas 23:00 “estava funcional”, tendo sido contactado o Centro Nacional de Cibersegurança.

No mesmo dia, o jornal Expresso noticiou que os endereços de Internet da DGS e da Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa “encontravam-se inoperacionais desde, pelo menos, o início da tarde de sábado, na sequência de um ataque de um grupo de ciberativistas russos”.

“No circuito de contra e ciberespionagem circularam indícios de que o grupo Killnet, que costuma ser apontado como um braço operacional e propagandístico do Governo russo no submundo digital, lançou um repto para um ciberataque de congestionamento de redes contra instituições médicas de vários países que têm alinhado com a posição ucraniana – entre eles Portugal”, escreveu o Expresso.

LUSA/HN

Carlos Cortes e Rui Nunes: adversários com um desejo em comum

Carlos Cortes e Rui Nunes: adversários com um desejo em comum

Em fevereiro, os médicos portugueses terão como bastonário o especialista em patologia clínica Carlos Cortes (que recebeu na primeira volta 6.059 votos) ou o otorrinolaringologista Rui Nunes (no qual confiaram 4.045 médicos), terminado o escrutínio que será retomado no dia 7.

Rui Nunes disse ao HealthNews que “foi uma campanha eleitoral muito competitiva, com excelentes candidatos”. “Mas preponderou a vontade da mudança.”

“A minha candidatura surge muito mais tarde que as restantes (…), e verificou-se que há parte dos médicos e das médicas com uma enormíssima vontade de mudar, de mudar a Ordem dos Médicos, de mudar a medicina e de mudar as condições em que a medicina é exercida hoje, que não dá qualquer esperança ou qualquer futuro aos jovens médicos. Ou seja, apesar de haver candidaturas preparadas/organizadas há muito tempo e com outro nível de recursos, uma candidatura espontânea como a minha, (…) sem recorrer ao sistema, ao aparelho da Ordem dos Médicos, ao que quer que seja, conseguiu, pela (…) mobilização de muitos jovens e menos jovens médicos e médicas, ter este resultado expressivo”, explicou.

O seu adversário, Carlos Cortes, começou por expressar a sua “grande satisfação em relação ao aumento da participação”, embora reconheça que esta “deveria ser muito mais” significativa. “Portanto, continua, infelizmente, a ser uma abstenção um pouco superior aos 60%, mas houve aqui uma evolução muito importante e muito positiva”, frisou. A diminuição da abstenção dever-se-á ao “momento muito sensível que o país está a atravessar na área da saúde” e à “grande desmotivação” e “insatisfação dos médicos em relação àquilo que está a ser feito na saúde”, acredita o candidato, que também lê aqui “algum sentido de responsabilidade e um pedido de mudança, de rumo, precisamente para ajudar à melhoria dos cuidados de saúde”.

Depois, Cortes aproveitou para cumprimentar todos os que concorreram para o triénio 2023-2025 – e “não só” ao cargo que agora disputa – “no sentido do bem público, do bem da Ordem dos Médicos, de uma entrega à Ordem dos Médicos e àquela que é a missão da Ordem dos Médicos”. “Queria deixar este agradecimento”, reforçou, depois de uma campanha que, “globalmente”, correu “de forma muito serena”, com candidatos, “todos eles”, com uma “postura extremamente correta”.

“Vou continuar a fazer exatamente o mesmo trabalho que fiz na primeira volta, que é um trabalho de contacto permanente com os médicos, no terreno, ouvi-los, ouvir as suas dificuldades, ouvir as soluções que apontam para melhorar o sistema de saúde. Vou continuar a agregar, a juntar os médicos, a unir os médicos de volta deste projeto, porque eu sei muito bem quais vão ser as responsabilidades de um bastonário, porque, além de ter as responsabilidades que estão consagradas no estatuto da Ordem dos Médicos, nós não podemos ignorar este momento difícil que o país está a atravessar, com um impacto muito grave sobre os cuidados de saúde e, sobretudo, sobre os seus profissionais e sobre os médicos”, concluiu Carlos Cortes.

Questionado sobre os pontos fortes da sua candidatura, Rui Nunes não hesitou em destacar primeiro “a mudança”. “É absolutamente central mudar uma Ordem e uma medicina que estão no estado em que se encontram. Eu tive oportunidade de visitar ao longo dos últimos meses mais de uma centena de hospitais e centros de saúde, em todo o território nacional e nas regiões autónomas, e o que pude verificar é uma medicina completamente degradada, médicos e médicas, sobretudo jovens, sem qualquer expetativa de futuro, com os seus sonhos por realizar, salários baixíssimos que não dignificam a profissão médica, carreiras médicas inexistentes. Portanto, aquilo que é o cerne da minha candidatura e uma convicção profunda da vitória é que só uma verdadeira revolução na medicina e na Ordem dos Médicos é que pode inverter este ciclo de acontecimentos, porque obviamente se percebe que temos que ter uma classe médica fortemente unida, agregada, com vontade e convicção, com projetos e ideias, com equipas bem estabelecidas, e não é com os mesmos do costume que vamos conseguir resultados diferentes”, acrescentou.

Para Rui Nunes, “não é com aqueles que estão há mais de uma década na Ordem dos Médicos que vamos conseguir mudar o que quer que seja”. “Eles tiveram o seu tempo e, infelizmente, deixaram-nos, quer na medicina, quer na Ordem dos Médicos, na situação em que se encontram.”

Já Carlos Cortes vê a robustez da sua candidatura assente em “três pontos muito importantes”: “a defesa da qualidade dos cuidados de saúde”, portanto, “a Ordem dos Médicos como provedora do doente”; “a Ordem dos Médicos na defesa dos médicos, das suas condições de trabalho, do seu papel dentro do sistema de saúde”; “a modernização da Ordem dos Médicos”. Quer fazer uma mudança “profunda” na Ordem, “tanto do ponto de vista orgânico como do ponto de vista dos seus procedimentos internos”; quer “uma Ordem dos Médicos moderna e uma Ordem dos Médicos, também, com uma capacidade de intervenção e dialogante”.

Por último, Carlos Cortes deixou uma “mensagem de união dos médicos e de esperança no futuro”, com a convicção de que, se estiverem unidos, os médicos poderão “contribuir para uma mudança não só da Ordem dos Médicos, mas do sistema de saúde na sua globalidade em Portugal”.

Rui Nunes frisou que é “absolutamente indispensável que os médicos e as médicas portugueses pensem que têm que ser parte desta solução”. “Ou seja, não podem deixar os outros decidir por nós”, esclareceu.

“Faço um apelo a uma fortíssima expressão eleitoral (…), para que tomemos o futuro nas nossas mãos, para que sejamos autores desse mesmo destino, porque, se não tivermos uma classe médica fortemente unida, com uma grande expressão eleitoral, com um bastonário realmente mandatado pela classe médica para tomar decisões urgentes para melhorar as condições de trabalho dos médicos, realmente a medicina está condenada, e é muito triste ver isto acontecer. (…) Para mudar a medicina, temos que mudar primeiro a Ordem dos Médicos, que, infelizmente, se cristalizou num aparelho que muitas vezes não está à altura das expectativas dos médicos e das médicas”, concluiu Rui Nunes.

HN/Rita Antunes

UNICEF: “Ainda não fizemos o suficiente pelas crianças” com VIH

UNICEF: “Ainda não fizemos o suficiente pelas crianças” com VIH

HealthNews (HN)- “Ano após ano (…), a mesma história de crianças e adolescentes deixados para trás na resposta global ao VIH”, constata o relatório global da UNICEF, divulgado em novembro de 2022. Catherine Russell, diretora executiva, comentou que “estamos a falhar a próxima geração”. Mas o relatório não ignora o progresso e também mostra que há esperança. Devemos ver o copo meio cheio ou meio vazio?

Shaffiq Essajee (SE)- Eu sou pediatra e vi a mudança acontecer diante dos meus olhos; por isso, não posso negar que fizemos progressos. Quando comecei a trabalhar no VIH, em Nova Iorque, há muitos anos, estávamos a perder meia dúzia de crianças por mês para o VIH. As suas mortes eram dolorosas e na UCI.

As coisas mudaram drasticamente desde então. Temos a medicação disponível, em formulações cada vez melhores, mais opções para crianças, melhores formas de identificar as crianças do que nunca e, para mim, uma das conquistas mais notáveis da saúde pública em geral nas últimas décadas é a maneira como conseguimos prevenir a transmissão do VIH de mães para filhos. A redução do número de novas infeções nas crianças é incrível e não teria sido possível imaginar tal futuro há 20 anos. Portanto, houve definitivamente progresso.

O que eu acho que nos preocupa é que as pessoas pensam que o trabalho está concluído. Não se ouve falar muito sobre a SIDA em África, sobre a SIDA em geral. Acho que, em toda a parte, há uma espécie de aceitação de que é um problema de outra década, de que nesta década temos outras pandemias com que lidar, temos problemas maiores, há uma crise global, há fome e as crianças estão desnutridas e a morrer por desnutrição e doença evitável.

É nesse contexto que, às vezes, embora o copo possa estar meio cheio, não sei como iremos enchê-lo até ao topo. Temos motivos para celebrar, mas, ao mesmo tempo, preocupa-me muito que cheguemos ao final de 2030, fim dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, onde assumimos um compromisso global para acabar com a SIDA, e não estejamos lá para as crianças. Essa é a nossa verdadeira preocupação.

HN- Porque é que as crianças e os adolescentes estão a ser deixados para trás?

SE- Acho que parte do motivo é a história. Sempre foi mais difícil diagnosticar crianças, mais complicado tratá-las, havia menos dados sobre como os medicamentos funcionariam em crianças e se teriam maior toxicidade. Penso que, nos primeiros anos da epidemia, não entendíamos o suficiente sobre crianças, estávamos a sobremedicar e a ver muitos efeitos colaterais inaceitáveis. Podemos prevenir a infeção facilmente tratando as mães grávidas e garantindo que estas continuam em tratamento enquanto amamentam, para que o possam fazer em segurança. Mas a realidade é que continuámos hesitantes em tratar as crianças.

Bem, isso mudou. Se formos aos países mais afetados na África Subsaariana e África Austral, vemos que as crianças estão a ser diagnosticadas, estão a ser tratadas e que as suas taxas de cobertura são quase tão boas quanto as dos adultos. Mas não é o caso em muitas outras partes do mundo. Se olharmos para a África Central e Ocidental, por exemplo, vemos que as crianças, definitivamente, estão numa situação difícil. Aquelas crianças continuam a morrer com taxas inaceitavelmente altas, ainda não estão a aceder ao tratamento que deveriam ter. Por isso, para mim, o principal problema não é não sabermos o que fazer enquanto comunidade global, mas sim que não tenhamos assumido o compromisso, em todas as partes do mundo, de realmente enfrentar o desafio de tratar as crianças, apesar das dificuldades para usar estas novas ferramentas que temos disponíveis, e fazer a diferença na vida delas.

Acho que ainda existe esta ideia de que as crianças não infetam outras pessoas. Elas não podem transmitir o vírus aos outros porque, se o contraírem durante a infância, na idade adulta, provavelmente não estarão vivas. Num mundo que está agora muito focado em controlar a epidemia e prevenir novas infeções entre adultos, isso coloca as crianças numa categoria de prioridade inferior. Quer-se tratar os adultos que podem infetar outros adultos por meio da atividade sexual, de forma a evitar o próximo ciclo de infeções. Mas, para as crianças, elas não vão transmitir; então, os benefícios de tratá-las são realmente proteger a sua própria saúde e bem-estar.

As mulheres dizerem: “Obrigada, eu tenho tratamento agora, mas e o meu filho? É extremamente doloroso para mim ver o meu filho sofrer sem acesso a tratamento, quando eu tomo os remédios que me podem manter saudável”, essa voz tem faltado em muitas partes do mundo. Por causa disso, ainda não vimos o ímpeto político necessário para garantir que os casos pediátricos são priorizados no tratamento.

Portanto, costumava ser porque não tínhamos os medicamentos ou porque não podíamos testá-los bem. Agora temos todas essas coisas e o principal problema que sinto é a vontade política, uma determinação do governo nacional para dizer: “não, isto é inaceitável, temos que providenciar aos nossos médicos e enfermeiros as ferramentas de que precisam, temos que garantir que eles percebem o quão crítico isso é como prioridade”. Esse passo está a faltar em muitas partes do mundo. É por isso que continuamos a ver mais de cem mil crianças e adolescentes a morrer de SIDA todos os anos e mais de 300.000 novas infeções.

HN- O relatório afirma que “temos as ferramentas e abordagens de que precisamos para igualar os resultados do VIH para crianças e adolescentes e acabar com a SIDA nessa população de uma vez por todas”. Qual é a maior ferramenta da UNICEF? E qual a maior barreira?

SE- Em primeiro lugar, não são ferramentas da UNICEF. No início da epidemia, eram as organizações ocidentais como a ACT UP que lutavam pelo acesso ao tratamento, por medicamentos melhores. Pressionavam as autoridades reguladoras e os governos para garantir que esses medicamentos estavam disponíveis, gratuitamente, independentemente da capacidade de um cliente pagar por eles. Essa defesa foi absolutamente crítica e não poderia ter acontecido sem um movimento global. São sucessos partilhados, não apenas da UNICEF. Nós celebramos o trabalho dessa comunidade global.

Agora, temos medicamentos melhores do que nunca. Os medicamentos que temos hoje são mais seguros, são melhor tolerados, são uma vez ao dia. Anteriormente, as crianças precisavam de tomar medicamentos várias vezes ao dia, em horários diferentes – alguns medicamentos seriam duas vezes, outros seriam três vezes ao dia. Toda essa complexidade desapareceu. Agora, podemos dar à criança um comprimido, uma vez ao dia, numa formulação que é muito fácil para uma criança usar, para uma mãe dar ao filho. E é realmente mais eficaz, mais barato e melhor tolerado do que qualquer outro dos medicamentos que costumávamos ter.

O diagnóstico também é mais fácil. A COVID ensinou-nos que podemos testar-nos a nós mesmos e usar essa informação para tomar decisões sobre a nossa saúde e a nossa família. É, de certo modo, uma maneira revolucionária de pensar, mas nós temos essas ferramentas no VIH há muitos anos. Os testes rápidos de VIH têm sido capazes de diagnosticar a infeção com um grau de sensibilidade muito alto, em quinze minutos, e, embora tenha sido realizado em unidades de saúde, nos últimos anos vimos o mesmo teste ser fornecido aos próprios indivíduos, dizendo-lhes: “Façam o teste em casa, aqui está a embalagem, podem seguir as instruções e obter o resultado em casa”.

As crianças sempre foram muito mais difíceis de diagnosticar, especialmente as mais pequenas, porque qualquer criança nascida de uma mãe com VIH terá os anticorpos no seu sangue. Isso não significa que elas tenham o vírus, elas apenas têm os anticorpos. E o teste que usamos deteta os anticorpos. Então, todas as crianças nascidas de uma mãe com VIH terão anticorpos, vão testar positivo para o VIH, mas isso não quer dizer que realmente tenham a infeção. Detetar o próprio vírus costumava ser um teste muito complicado. Não estava amplamente disponível, especialmente em África, onde a necessidade era maior. Mas agora temos o que chamamos de point of care tests. São testes capazes de detetar a presença do vírus de forma muito confiável e simples. O equipamento não precisa de laboratório. Faz-se o teste e em 14 minutos obtém-se o resultado, se há vírus naquela amostra ou não. São inovações notáveis.

Também temos ferramentas de prevenção incríveis. Temos medicamentos que, se tomados diariamente, têm uma eficácia muito alta na prevenção da infeção pelo VIH – agora até disponíveis como injeção mensal. Pode-se receber uma injeção todos os meses que irá praticamente garantir que, independentemente da vida sexual, não se contrairá o VIH.

E os sistemas de saúde também são mais fortes. Os sistemas mudaram, os medicamentos são melhores, os testes são melhores, as tecnologias de prevenção estão amplamente aprimoradas, e estes ganhos foram alcançados por meio de um tremendo trabalho conjunto como comunidade global. Também temos isso. Temos o poder de uma comunidade global a trabalhar no VIH, a trabalhar para prevenir o VIH, de mãos dadas com as pessoas que vivem com VIH, com comunidades a viver com VIH. Estas são algumas das ferramentas. Ferramentas é uma palavra estranha, mas são realmente algumas das mudanças notáveis que tornaram o tratamento, a prevenção, o diagnóstico e os cuidados de que as pessoas precisam para levar uma vida saudável com VIH muito mais fáceis.

E qual é o nosso maior desafio? Eu já falei da vontade política, mas acho que também é um desafio monetário. Os medicamentos, embora sejam muito mais baratos do que já foram, continuam caros. Se pensarmos no orçamento nacional disponível para gastar em saúde per capita, na maioria dos países, esse orçamento está na faixa dos 5 a 10 dólares por indivíduo por ano – é o que eles têm para gastar em saúde pública por pessoa. Um medicamento para o VIH, por um ano, custa entre 50 e 70 dólares, dependendo do tipo de medicamento e de quanto se precisa. Portanto, há uma grande diferença entre o que os países podem pagar e o custo real para aquele indivíduo que precisa de tratamento. Tem sido possível durante todos estes anos porque doadores de grandes organizações multilaterais, doadores de organizações bilaterais e o Governo dos EUA financiam programas de VIH todos os anos.

O Fundo Global, que se reabastece anualmente com contribuições dos países, este ano [2022] conseguiu angariar mais 15 mil milhões de dólares para a resposta global à SIDA, TB (tuberculose) e malária. Estas instituições têm sido fundamentais no apoio à resposta global. Tem sido cada vez mais difícil para o Fundo Global reabastecer os seus recursos, e o Governo dos EUA, embora continue a dar apoio que vem dando… o valor gasto anualmente não mudou nos últimos cinco anos. Portanto, numa situação em que o dinheiro é limitado, os países estão a focar-se nas coisas que lhes darão mais valor: prevenir o VIH; assegurar que os adultos sexualmente ativos são tratados para garantir que não transmitem o VIH a outras pessoas.

Eu diria que o nosso maior desafio continua a ser o compromisso político de dizer que as crianças são igualmente importantes. Precisamos de garantir que direcionamos alguns fundos para os problemas das crianças.

HN- Quais são os problemas mais urgentes?

SE- Como pediatra, olho para a proporção de crianças com VIH em tratamento e é pouco mais de 50%. Isso significa que estimamos que existam 800.000 crianças com VIH e 400.000 adolescentes com VIH que não estão em tratamento. Então, para mim, é prioritário, em primeiro lugar, encontrar essas crianças, encontrar esses adolescentes e fornecer-lhes o melhor tratamento disponível. Porque nós sabemos que sem esse tratamento eles vão morrer.

O VIH é muito mais agressivo em crianças do que em adultos. Nem sempre é o caso e há diferenças consoante o tipo de vírus que se pode apanhar, que pode torná-lo mais agressivo num indivíduo, mas as crianças têm um sistema imunológico em crescimento, não são tão boas a defender-se contra o VIH, especialmente se o contraírem durante a gravidez ou na altura do parto. Se se apanhar VIH cedo, a probabilidade de morte sem tratamento é de 50% no segundo ano de vida. Quando se chega aos cinco anos, é de 80%. Se não se identificar essas crianças, elas morrem, e morrem de coisas comuns na infância. Elas podem apanhar tuberculose e morrer de tuberculose, podem apanhar uma infeção bacteriana grave, meningite, sepse… Podem estar gravemente desnutridas porque estão a usar toda a energia dos alimentos para combater o VIH e não têm a oportunidade de crescer e de se desenvolverem como deveriam; então morrem de desnutrição.

Muitas vezes, essas mortes nem são contadas como mortes por VIH – são ocultadas. A epidemia de VIH está escondida nessa mortalidade causada por outras condições. Acho que essa é provavelmente a maior prioridade: temos que descobrir novas maneiras de identificar essas crianças; temos que colocar essas crianças em tratamento o mais rapidamente possível. Mas o desafio não é apenas uma questão médica. Se fores a muitas partes da África Subsaariana, ainda encontras taxas muito altas de estigma e discriminação. As mães podem ter VIH e estar em tratamento, mas terem medo de levar os filhos a fazer o teste, ainda que estejam preocupadas. Elas temem que, uma vez conhecido o diagnóstico da criança, toda a família descubra, elas mesmas terão que revelar a sua identidade e o seu diagnóstico a outros membros da família, como é que essa criança apanhou VIH. As famílias têm tanto medo do estigma que, na verdade, isso impede-as de procurar cuidados para si e para os seus filhos. Acho que, além de fazer todo o trabalho médico, temos que enfrentar estes problemas de estigma e discriminação. Não são barreiras médicas, são barreiras sociais estruturais, de certa forma muito mais difíceis de enfrentar.

Podes desenvolver novos medicamentos, podes descobrir novas tecnologias para testes, mas não podes mudar o coração e a mente das pessoas com um comprimido ou com um teste. Isso requer um movimento social, requer governos que se levantem e digam que a lei proíbe qualquer tipo de discriminação. Exige que a sociedade civil diga que não podes expulsar uma mulher de casa porque ela te diz que tem VIH, que isso é crime. E acho que algumas dessas barreiras legais, estruturais e sociais são de certa forma as mais urgentes. Não temos pensado o suficiente nisso e focamo-nos nas coisas mais fáceis. Mas, se não abordarmos algumas dessas questões estruturais subjacentes, acho que não faremos o melhor uso das ferramentas que temos disponíveis.

HN- Para este Dia Mundial da SIDA, porquê “Equalize” como tema principal?

SE- O tema foi definido pela UNAIDS, o programa conjunto da ONU. De certa forma, só precisas de igualar algo se tiver havido progresso para um grupo ou numa área do mundo e falta de progresso para outro grupo e noutra área do mundo. É porque fomos bem-sucedidos que vemos essa desigualdade. É porque 76% dos adultos estão a receber tratamento que 52% em crianças parece incrivelmente baixo. Então, acho que o que equalize nos diz é que nós conseguimos, nós fizemo-lo para os adultos.

No Botswana, 95% dos adultos com VIH têm conhecimento do seu diagnóstico, 95% daqueles que foram diagnosticados estão em tratamento e 95% daqueles que estão em tratamento têm o vírus completamente suprimido e indetetável. Tem das taxas mais altas do mundo (20%/30% da população vive com VIH). Eles foram capazes de fazer isso para as suas populações adultas. Acho que o que queremos dizer com isto é que vimos essas concretizações notáveis, que antes eram inimagináveis, a acontecer em alguns dos países mais pobres do mundo, mas há pessoas que estão a ser deixadas para trás nessa resposta e precisamos de igualar a resposta para elas.

HN- Que mais pode a UNICEF fazer?

SE- Há coisas que a UNICEF faz bem e que devemos fazer continuamente. Em primeiro lugar está a defesa. Deveríamos ter mais entrevistas como esta, deveríamos estar em plataformas globais a falar sobre este assunto – e nós fazemos isso. Alertamos constantemente. É por isso que o comentário sobre o copo meio cheio vs meio vazio me fez sorrir, porque eu sinto que se nós enquanto UNICEF dissermos que estamos a ir muito bem, estamos a fazer um desserviço a essas crianças. Temos que continuar a alertar, temos que continuar a relembrar que existem 8,2 milhões de crianças e adolescentes não diagnosticados e não tratados que vão morrer de VIH se não os encontrarmos e tratarmos.

Temos que continuar a pressionar os governos, temos que continuar a pressionar os doadores, porque sem esse investimento estas crianças vão morrer. Com esse investimento, vimos crianças a ter uma vida saudável, a crescer na adolescência e, na idade adulta, a ter as suas próprias famílias.

O que antes era um diagnóstico mortal pode agora ser transformado numa vida normal, podendo-se ambicionar criar a própria família, ter um emprego seguro, receber educação e ter uma vida normal, que exigirá sempre tratamento para controlar o VIH.

Acho que a maior coisa que podemos fazer enquanto UNICEF é defender e garantir que as pessoas não esquecem que, apesar do sucesso, ainda não fizemos o suficiente pelas crianças.

Entrevista de Rita Antunes, dezembro de 2022

Desvendadas alterações que aumentam risco de desenvolver cancro gástrico hereditário

Desvendadas alterações que aumentam risco de desenvolver cancro gástrico hereditário

Em comunicado, o instituto do Porto revela hoje que o estudo, publicado na revista Lancet Oncology, identificou as alterações no gene CDH1 que “especificamente aumentam o risco de desenvolvimento dos cancros associados à síndrome de cancro gástrico difuso hereditário”.

A síndrome de cancro gástrico difuso hereditário, causada por alterações no gene CDH1, afeta perto de 50 mil pessoas por ano em todo o mundo, sendo que os portadores dessas alterações apresentam um elevado risco de desenvolver cancro do estômago (homens) e da mama (mulheres) em idade jovem.

Quando conhecida a causa genética da doença, a prevenção e sobrevida dos doentes são maximizadas se o estômago ou mama forem removidos profilaticamente após os 18 anos e antes de a doença se manifestar.

Na investigação foram estudadas as diversas variantes que ocorrem no gene CDH1 e provado que “apenas as alterações que eliminam a produção de Caderina-E aumentam o risco de desenvolver cancro da mama e cancro do estômago”, esclarece, citada no comunicado, a investigadora Carla Oliveira.

A clarificação das variantes do gene da Caderina-E que acarretam maior propensão de desenvolver a síndrome e os tipos de cancro mais prevalentes permitem “repensar os critérios clínicos para teste genético, no sentido de melhorar a gestão clínica de famílias portadoras destas variantes”, salienta, também citado no comunicado, o primeiro autor do artigo, José Garcia-Pelaez.

“Ao clarificarmos as mutações especificas no gene CDH1 que constituem um risco real para o indivíduo e quais as mutações que não são preocupantes, conseguimos avançar com três novos critérios clínicos, a somar aos atualmente utilizados, que ajudarão a identificar famílias em risco”, acrescenta o investigador.

O estudo abrangeu dados de 854 doentes portadores de 398 variantes raras diferentes do gene CDH1, assim como mais de 1.000 familiares que foram seguidos clinicamente e desenvolveram cerca de 2.000 cancros, acrescenta Carla Oliveira, notando que este foi um “trabalho multicêntrico”, ao recorrer a dados de 29 laboratórios de 10 países europeus.

Para a realização do estudo, os investigadores recorreram ainda a informação dos testes genéticos e dados clínicos disponíveis na Rede Europeia de Referencia em Síndromes de Risco de Tumores (ERN-GENTURIS).

As conclusões deste estudo “permitem propor critérios clínicos mais assertivos que maximizam a identificação de famílias em risco para esta síndrome”, salienta também a investigadora.

Estes novos critérios clínicos serão validados entre pares na próxima reunião do consórcio do projeto que reúne especialistas internacionais e decorrerá no Porto em 2024.

“As implicações não são apenas no sentido preventivo individual, estamos a falar de uma síndrome de cancros hereditários, ou seja, que tem implicações familiares, afetando os doentes e, com grande probabilidade, também os seus familiares de sangue”, acrescenta Carla Oliveira, lembrando que o estudo pode ajudar inúmeras famílias a tomar decisões informadas para a gestão individual de risco.

Além dos parceiros europeus da ERN-GENTURIS, a investigação contou com a participação dos grupos de investigação “Population Genetics & Evolution” e “UnIGENe” do i3S, do Ipatimup Diagnósticos e de equipas do Centro Hospitalar Universitário de São João, Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, IPO-Porto, GenoMed, Centro de Neurociências e Biologia Celular da Universidade de Coimbra e Porto Comprehensive Cancer Centre Raquel Seruca.

LUSA/HN