Peritos analisam resposta política à Covid-19

13 de Outubro 2020

À medida que o Reino Unido entra numa nova fase de medidas impostas pelo Governo para combater a Covid-19, uma equipa de peritos da Universidade de Kingston publicou um relatório que analisa a resposta inicial de oito países democráticos à pandemia, e como as políticas locais, nacionais e internacionais desempenharam um papel fulcral nos resultados.

O relatório “Covid-19 and Democracy, First Cut Policy Analyses: Country Case Studies”, analisa a resposta de oito países entre abril e 30 de junho, ou seja, nas fases iniciais da pandemia. O estudo inclui o Reino Unido, a Alemanha, a Bulgária, Roménia, Israel, Japão, Taiwan e os Estados Unidos.

De acordo com o líder do projeto, o Dr. Peter Finn, da Faculdade de Direito, Ciências Sociais e Comportamentais da Universidade de Kingston, o estudo visou olhar para a forma como as políticas tinham, ou não, sido implementadas, e como as decisões afetaram os resultados de cada nação, incluindo o impacto no número de mortes. “Cada país tem a sua própria narrativa em torno do coronavírus. No Reino Unido, o número de mortes devido ao vírus é uma tragédia”, referiu o investigador.

“Este relatório ilustra a natureza política da gestão da pandemia de Covid-19  até à data e mostra porque é que as ramificações políticas da pandemia levarão anos, se não décadas, a desaparecer”.

Uma área das áreas estudadas foi a forma como os países democráticos se prepararam para a pandemia – obtendo EPI, estabelecendo infraestruturas de teste e rastreio, desenvolvendo campanhas de comunicação –  e como a capacidade dos seus sistemas de saúde lhes permitiu enfrentar a pandemia quando esta os atingiu.

Os investigadores observaram que a Alemanha beneficiou do facto de ter um sistema de saúde robusto e uma intervenção precoce – trabalhando rapidamente com cientistas e líderes a diferentes níveis. “A Alemanha empenhou-se muito cedo, concebendo e armazenando testes durante o intervalo de tempo entre a identificação do surto e a disseminação na população”, referiu o Dr. Finn. “Quando ocorreram os primeiros surtos, o governo e as autoridades de saúde puderam imediatamente lançar os testes. Como consequência, a sua taxa de mortalidade, embora fossem milhares, é atualmente muito inferior à do Reino Unido”.

“Líderes como Angela Merkel parecem ter entendido a situação muito mais cedo e a sua forte liderança parece ter sido fundamental, embora este seja um cenário em aberto”, acrescentou o Dr. Finn.

A experiência anterior sobre pandemias também pareceu ajudar a preparação da resposta. “Países como Taiwan, que já tinham sofrido crises semelhantes, como o surto de SARS na Ásia entre 2002 e 2004, parecem estar em melhor posição para enfrentar os desafios colocados pela Covid-19. Curiosamente, a Bulgária também estava melhor preparada porque o Governo fecha escolas com alguma frequência sempre que o país é atingido por surtos sazonais de gripe. Isto significa que a população se ajustou mais facilmente quando a Covid-19 chegou”.

Ao examinar as políticas a nível local, nacional e internacional, o estudo concluiu que a gestão regional dos cuidados de saúde contribuiu para respostas deficientes em alguns países, enquanto noutros locais as respostas coordenadas entre as autoridades se traduziram em melhores resultados. A nível nacional, as divisões políticas pré-existentes, o prestígio nacional e a geopolítica tiveram uma enorme influência, constatou o estudo.

“No início, houve muitos apelos, e ainda os ouvimos agora, para retirar a política da Covid-19″, lembra Peter Finn. “Mas a política e a forma como os diferentes países são geridos, como os governos são colocados e mantidos no poder, e a política em torno do financiamento do setor da saúde, são realmente importantes. Isso tem influenciado a pandemia até à data e vai continuar a fazê-lo”.

“Quando se encontrar uma vacina bem sucedida para a Covid-19, a política global em torno do seu financiamento e distribuição, particularmente face aos ativistas anti-vacinação, será imensa”, prevê o Dr. Finn.

Entretanto, com a Europa a entrar numa segunda vaga de coronavírus, o Dr. Finn e os seus colaboradores advertem que “até haver uma vacina, há muito pouco lugar para a complacência na Europa. Como testemunhamos, a Covid-19 instala-se muito rapidamente no seio das comunidades”.

“O recente aumento das restrições anunciado pelo primeiro-ministro britânico Boris Johnson demonstra a situação perigosa em que muitos países, incluindo numerosas democracias, se encontram. Neste momento, os líderes precisam de pensar em como manter o equilíbrio entre a gestão do comportamento para mitigar uma segunda vaga e a proteção da transparência e responsabilidade que deve definir a governação democrática”, diz o investigador.

NR/HN/Adelaide Oliveira

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