Em vésperas da vacina, EUA com mais mortes diárias do que no trágico 11 de Setembro

11 de Dezembro 2020

Quando os Estados Unidos parecem prestes a lançar uma vacina anti-covid-19, os números tornaram-se ainda mais sombrios, com mais de três mil mortes num único dia, superior aos do "Dia D" ou do "11 de Setembro", noticia a AP.

Segundo adianta hoje aquela agência noticiosa norte-americana, houve um milhão de novos casos no intervalo de cinco dias, colocando mais de 106 mil pessoas nos hospitais.

A crise em todo os EUA está a levar os centros médicos a uma situação de ruptura, deixando funcionários e profissionais de saúde pública exaustos e atormentados, entre o choro e o pesadelo.

Ao todo, a crise causou mais de 290 mil mortos em todo o país, que teve mais de 15,5 milhões de infeções confirmadas.

Os Estados Unidos registaram 3.124 mortes na quarta-feira, o maior total num único dia desde a pandemia, de acordo com a Universidade Johns Hopkins.

Até à semana passada, o pico tinha sido de 2.603 mortes em 15 de abril, quando a cidade de Nova Iorque foi o epicentro do surto no país.

O número de mortes na quarta-feira eclipsou as cifras de mortes de norte- americanos no “Dia D”, da invasão da Normandia durante a Segunda Guerra Mundial: 2.500, entre cerca de 4.400 aliados mortos. E superou também o número de vítimas em 11 de setembro de 2001: 2.977.

Novos casos diários estão em alta, com mais de 209 mil em média. E o número de pessoas no hospital com Covid-19 bate recordes quase todos os dias.

Um painel consultivo da Administração norte-americana endossou na quinta-feira o uso generalizado da vacina Covid-19 da Pfizer para ajudar a vencer o surto.

Dependendo da rapidez na aprovação da recomendação do painel pela Food and Drug Administrationdo (FDA), as vacinas podem começar a ser administradas no prazo de alguns dias, inaugurando a maior campanha de vacinação da história dos Estados Unidos.

Em Saint Louis, o terapeuta respiratório Joe Kowalczyk relatou que viu andares inteiros de seu hospital serem preenchidos com pacientes Covid-19, alguns deles com dois pacientes por quarto. Acrescentou que o fornecimento de ventiladores está a diminuir e os recursos tão limitados que os colegas de um turno tiveram que ventilar um paciente usando uma máquina “BiPAP”, semelhante aos dispositivos usados para tratar a apneia do sono.

Confessou ainda que quando vai para casa, para dormir durante o dia, no final de turnos cansativos durante a noite, às vezes tem pesadelos.

Em Dakota do Sul, o médico Clay Smith tratou centenas de pacientes com Covid-19 enquanto trabalhava no “Monument Health Spearfish Hospital” e no “Sheridan Memorial Hospital”, no vizinho Estado do Wyoming.

Descreveu que os pacientes ficaram presos na sala de emergência por horas enquanto aguardavam camas no andar principal ou transferências para hospitais maiores. As transferências estão a tornar-se mais difíceis e complicadas, com alguns pacientes enviados até Denver, a 400 milhas (644 quilômetros) de distância.

“Isso é um grande fardo para as famílias e para os sistemas de emergência porque quando alguém utiliza uma ambulância e envia um doente para um local a 400 milhas, aquela ambulância fica fora da comunidade basicamente um dia inteiro”, observou.

Smith referiu que alguns pacientes deixaram de pensar que o coronavírus era “uma farsa” para depois dizerem: “Uau, é real e sinto-me péssimo”. Mas também anotou situações de pessoas com Covid-19 que “continuaram descrentes” sobre a existência da doença.

“É difícil observar isso”, desabafou, acentuando que, no final do dia, o vírus não se importa se alguém acredita nele ou não”.

A diretora de saúde de Nova Orleans, Jennifer Avegno, contou à AP uma recente visita a um hospital, onde observou médicos, enfermeiras, terapeutas respiratórios e outros profissionais a exporem-se à doença numa longa e inútil tentativa de salvar um paciente moribundo com Covid-19. “Alguns começaram a chorar depois”, confidenciou.

Na Virgínia, o governador Ralph Northam, um médico de formação, ordenou um recolher obrigatório à meia-noite e ampliou as regras de máscara para exigir que estas sejam usadas pela população ao ar livre e não apenas dentro de espaços fechados

O governador da Pensilvânia, Tom Wolf, suspendeu temporariamente os desportos escolares e outras atividades extra-curriculares, ordenou que academias, teatros e casinos fechassem e proibiu as refeições em restaurantes.

Em Idaho, o governador Brad Little não impôs a obrigatoriedade de máscara em todo o Estado ou promulgou restrições adicionais, apesar da agência de saúde pública anunciar que Covid-19 é agora a principal causa de morte naquele Estado.

O governador republicano advertiu que se os hospitais continuarem a encher e o Estado tiver que iniciar “padrões de crise de atendimento” o tratamento para salvar vidas seria reservado para pacientes com “maior probabilidade de sobreviver”.

Little foi um dos primeiros governadores a usar máscara publicamente na primavera e incentivou outros a fazê-lo, mas o sentimento anti-máscara é intenso naquele Estado norte-americano conservador (Idaho).

Na cidade de Nova Iorque, que foi devastada pelo vírus na primavera, um médico manifestou um relativo otimismo, justificando que agora os médicos são mais capazes de controlar o vírus do que no início da pandemia.

“No início da primavera não sabíamos o suficiente”, admitiu Jolion McGreevy, que dirige o departamento de emergência do Hospital Mount Sinai, concluindo: Agora, estamos a funcionar a partir de uma fase de conhecimento que se traduz num grande salto relativamente à primavera”.

LUSA/HN

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