Hugo Rodrigues: “A vacina é a única forma que temos para prevenir a meningite”

12/19/2020
A vacinação tem vindo a ser olhada com alguma desconfiança por parte da população, colocando em perigo a prevenção de doenças altamente perigosas. Numa conversa sobre a meningite, Hugo Rodrigues, […]

A vacinação tem vindo a ser olhada com alguma desconfiança por parte da população, colocando em perigo a prevenção de doenças altamente perigosas. Numa conversa sobre a meningite, Hugo Rodrigues, Pediatra na Unidade Local de Saúde do Alto Minho, alerta que a vacina é “única forma que temos para prevenir esta infeção”, defendendo a utilização das mesmas armas dos grupos antivacinas num combate “fogo com fogo”.

HealthNews (HN)- Como se manifesta a meningite meningococica?
Hugo Rodrigues (HR) – A meningite não é uma doença única, pode ser provocada por vários microorganismos, dentro dos quais o meningococo que é a bactéria mais frequente. Neste sentido, a meningite meningococica é provavelmente a meningite mais grave que temos atualmente.

Os sintomas são um pouco inespecíficos nas primeiras horas, sendo esse o grande problema. Esta pode progredir muito rapidamente, mas nas primeiras horas os principais sintomas são: febre, irritabilidade, vómitos e, acima de tudo, o mal estar geral do bebé, principalmente quando baixa a febre.

HN- Se os sinais da doença são pouco específicos. Quais são os sinais de alerta?
HR- Para além dos sintomas que referi, se for uma criança maior poderá queixar-se de dores de cabeça e podem surgir, nas primeiras horas de febre, umas manchas na pele, que quando se carrega na pele elas não desaparecem.

Portanto, os sinais de alarme serão: o mal geral quando baixa a febre, a progressão rápida do quadro e o aparecimento dessas manchinhas nas primeiras 24 horas de febre, já que quando aparecem antes ou depois da febre não têm grande significado, mas quando surgem nessas primeiras horas são sempre um sinal de alarme.

HN- Referiu que a meningite meningococica era uma doença bastante grave, isso significa que pode levar à morte?
HR- Sim. Essa é a consequência mais temida. A doença tem uma taxa de mortalidade de 5 a 7% e, por isso, uma probabilidade de mortalidade significativa.

Para além da mortalidade uma em cada cinco crianças pode ficar com sequelas.

HN- E que tipo de sequelas são essas?
HR- Podem ser a nível neurológico, epilepsias, alterações no tórax, uma surdez ou mesmo um atraso de desenvolvimento que afetará o défice intelectual. Qualquer área do cérebro que fique danificada por esta infeção pode deixar uma sequela nessa função.

Ficam também sequelas não neurológicas e à cabeça as amputações que são relativamente frequentes nesta situação, podendo ser muito condicionantes da qualidade de vida.

HN- As sequelas neurológicas são permanentes?
HR- A maior parte sim. Os nossos neurônios não têm capacidade de se dividir. Quando são lesados pelo processo infeccioso alguma função pode ser recuperada, mas as células que deixaram de funcionar ficam mesmo assim, não se conseguem regenerar.

HN- Apesar de afetar principalmente crianças, a infeção pode atingir também adultos?
HR- O grande pico de meningite meningococica são as crianças pequenas até aos dois anos. Se falarmos da meningite pelo meningococo B, que é o mais frequente no nosso país, estamos a falar de um pico de incidência aos dois meses.

Há um segundo pico na adolescência que não é assim muito evidente, mas existe.

A doença atinge também adultos, principalmente outros tipos de meningococo, nomeadamente o W e o Y. Na verdade, não há nenhuma idade que seja de risco zero.

HN- O impacto é o mesmo?
HR- Depende… não é exatamente o mesmo, mas a mortalidade e a probabilidade de deixar sequelas existe em todas as idades. Não é mesmo do ponto de vista numérico, mas é semelhante.

HN- Qual o papel da vacina nesta área?
HR- A vacina é a única forma que temos para prevenir esta infeção. Não há outra forma de prevenir. Podemos atenuar o contágio por medidas que diminuam a transmissão de gotículas respiratórias, uma vez que o meningococo também de transmite por gotículas. Felizmente, hoje em dia, as pessoas estão muito alertas por causa da Covid-19. Portanto, todas estas medidas que estamos a aplicar agora (em que somos obrigados a utilizar máscara, etiqueta respiratória, desinfeção das mãos e das superfícies e o distanciamento social) estão a ter repercussão numa série de outras doenças, nomeadamente a meningite meningococica. Por exemplo, os países europeus estão a ter este ano menos casos de meningite do que no ano passado.

Existem formas de diminuir o contágio, mas prevenir a doença só mesmo através da vacinação.

HN- Este ano a DGS incluiu a vacina contra a meningite B para todas a crianças no primeiro ano de vida. Este imunizante está, de facto, acessível a todos?
HR- Essa vacina foi incluída para todas as crianças que nasceram a partir de 1 de janeiro de 2019, ou seja, acaba por atingir as crianças de maior risco. As que não estão contempladas por este plano no programa nacional de vacinação se possível deveriam também fazer a vacina como um meio de proteção individual. Apesar de não serem o verdadeiro grupo de risco, como eu disse há pouco, não existe risco zero e a única forma de prevenir é a vacinação. Por isso, penso que, todas as crianças e adolescentem beneficiariam de estar vacinados.

HN- Temos vindo a assistir a um aumento de desconfiança nas vacinas, quase uma espécie de ceticismo. De que forma é que este novo fenómeno pode ser combatido?
HR- Este fenómeno tem que ser combatido quase fogo com fogo. Os grupos antivacinas são muito fortes na divulgação das suas mensagens. São baseadas em factos errados, erros de análise de estudos e apenas em crianças individuais e, portanto, do ponto de vista científico não têm validade nenhuma. No entanto, de modo geral, são bem transmitidas… muito através das redes sociais. Portanto, quando eu digo que é necessário combater fogo com fogo, acho que nós que temos toda a evidência e a ciência do nosso lado devíamos de comunicar bem. É preciso usar os canais de comunicação de forma adequada e ir ao encontro da população através dos meios digitais. Fazer as pessoas, não apenas entender, mas sentir a importância seria a nossa maior arma.

Entrevista por Vaishaly Camões

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