Especialistas preveem mais birras e frustrações nas crianças no novo confinamento

25 de Janeiro 2021

A falta das brincadeiras e da socialização, aliadas a um aumento da exposição aos ecrãs, podem originar mais birras, desentendimentos e frustrações das crianças e jovens que regressam a casa para um novo confinamento, asseguram especialistas.

De acordo com especialistas ouvidos pela Lusa, mais birras, impaciência, raiva, frustração e situações de conflito são situações espetáveis de acontecer neste regresso a casa das crianças e dos jovens para um novo confinamento.

“Não estamos a entrar neste confinamento como entrámos no outro, em que tudo era desconhecido e uma incógnita”, lembrou Raquel Raimundo, presidente da delegação regional do sul da Ordem dos Psicólogos.

O medo, a angústia, a tristeza, a inquietação e a insegurança podem facilmente despoletar estas manifestações, acredita a psicóloga escolar, uma vez que o regresso a casa significa deixar para trás mais momentos e etapas “cruciais na vida” destas crianças e jovens.

“Eles já têm uma ideia do que é estar confinado”, salientou.

Para a presidente da Sociedade Portuguesa de Pediatria, Inês Azevedo, o novo confinamento, delineado de “forma intempestiva e não programada”, deixará marcas no futuro das novas gerações.

“Nunca passamos por uma situação de confinamento de crianças tão dramática como esta”, afirmou a pediatra, acrescentando que o prolongamento do confinamento vai ter “impactos negativos, tanto na aprendizagem formal como informal”.

Da mesma forma, a “incompreensão do que se está a passar e o medo do desconhecido” podem ter repercussões na saúde mental e desenvolvimento das crianças, defendeu Vera Ramalho, psicóloga especialista em psicoterapia.

“Os pais devem clarificar à criança porque voltamos para casa, explicando o que se passa com palavras adaptadas à sua idade, garantindo que elas compreendem”, esclareceu.

As três especialistas defenderam igualmente a necessidade de não se deixarem as crianças e jovens cujas famílias são “mais disfuncionais” desprotegidas.

“A escola é um suporte muito importante, é assim que muitas situações são sinalizadas e é por isso importante não deixar estes miúdos desprotegidos”, disse Raquel Raimundo.

Além de não brincarem ou socializarem, o regresso a casa faz-se acompanhar de uma preocupação partilhada pelas especialistas: a exposição aos ecrãs e meios digitais.

“O facto de estas crianças estarem em casa não significa que estão seguros, mesmo à distância podem começar a ser alvo de situações de ‘cyberbullying’ e é preciso que os pais estejam atentos às relações que eles estabelecem ‘online’”, alertou Raquel Raimundo.

À semelhança da psicóloga escolar, também Inês Azevedo alertou que muitas horas de exposição aos meios digitais podem revelar-se “dramáticas” e influenciarem o neurodesenvolvimento das crianças e jovens.

“Em termos de saúde cardiovascular vamos ter reflexos desta dependência dos meios digitais. As redes já eram um problema que agora vai ser maior”, assegurou a pediatra e docente na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP).

A par do neurodesenvolvimento, esta exposição pode vir a ter impactos na saúde mental das crianças e jovens, com os níveis de ansiedade, depressão e ‘stress’ a intensificarem-se.

O fundamental, assegura Vera Ramalho, é encontrar um “equilíbrio” e existir uma “negociação”, especialmente com os mais velhos que “precisam de sentir que também controlam a situação”.

“Muitas crianças tornam-se dependentes do ecrã porque não encontram alternativas de entretenimento, e os equipamentos eletrónicos acabam por substituir a interação com outras pessoas”, alertou a psicóloga diretora do Psiquilibrios.

As especialistas consideram ser necessário estabelecer rotinas, promover horários de sono, uma boa alimentação, atividades físicas e até estimular a socialização.

“É importante passar a mensagem de que a pandemia não vai ser para sempre e que o confinamento há de terminar”, defendeu Raquel Raimundo.

Todas as escolas de todos os níveis de ensino estão encerradas desde sexta-feira e durante duas semanas, uma medida anunciada na quinta-feira pelo Governo para conter a pandemia de Covid-19.

Além das escolas, também todas as creches e ateliês de tempos livres vão permanecer encerrados durante 15 dias, o mesmo acontecendo com os tribunais de primeira instância, que só funcionam para atos processuais urgentes.

As medidas, entre outras, foram anunciadas na quinta-feira pelo primeiro-ministro, António Costa, e seguem-se a outras já anteriormente tomadas para tentar conter a propagação da Covid-19.

António Costa disse que as decisões de quinta-feira se justificam pelo aumento do número de casos de uma variante mais contagiosa do novo coronavírus, que cresceram de uma prevalência de 8% na semana passada para os atuais 20%.

Em Portugal, morreram 10.469 pessoas dos 636.190 casos de infeção confirmados, de acordo com o boletim mais recente da Direção-Geral da Saúde.

LUSA/HN

0 Comments

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

ÚLTIMAS

Klépierre lança ‘Hora Serena’ para inclusão no autismo

A Klépierre implementou a “Hora Serena” nos seus centros comerciais em Portugal, uma iniciativa que ajusta luzes e sons para criar um ambiente inclusivo para pessoas com perturbações do espectro do autismo (PEA) e hipersensibilidade sensorial.

Estudo português revela: VSR mais letal que gripe em adultos

Estudo realizado no Hospital de Matosinhos confirma que o vírus sincicial respiratório (VSR) em adultos, embora menos prevalente que a gripe, resulta em maior mortalidade, complicações e custos hospitalares, sublinhando a urgência de prevenção em quem tem mais de 60 anos.

ANDAR Celebra 30 Anos de Apoio aos Doentes com Artrite Reumatóide

A ANDAR celebra 30 anos de dedicação aos doentes com Artrite Reumatóide no Dia Nacional do Doente, a 5 de abril. A associação promove eventos em Lisboa para reforçar o apoio aos pacientes e divulga avanços terapêuticos nas suas Jornadas Científicas.

Daniel Gaio Simões Assume Liderança da Bayer Portugal

Daniel Gaio Simões é o novo Country Head da Bayer Portugal, sucedendo a Marco Dietrich. Com uma carreira sólida na indústria farmacêutica e regulamentação, assume a liderança num momento de reorganização global da Bayer, integrando o cluster ibérico sob Jordi Sanchez

SNS Abre 200 Vagas para Progressão na Carreira Farmacêutica

O Serviço Nacional de Saúde (SNS) vai abrir 200 vagas para progressão na carreira farmacêutica, incluindo 50 para avaliadores séniores e 150 para avaliadores. A medida integra um acordo entre o Ministério da Saúde e o Sindicato dos Farmacêuticos, com revisão salarial e integração de residentes.

Doença de Parkinson: BIAL expande opções terapêuticas com KYNMOBI®

A BIAL anuncia o lançamento de KYNMOBI®, o primeiro filme sublingual para tratar episódios OFF na doença de Parkinson. Disponível em Portugal e Espanha, esta solução inovadora promete alívio rápido dos sintomas, melhorando a qualidade de vida dos doentes.

Especialistas reúnem-se em Lisboa para debater linfomas e apoio ao doente

A Associação Portuguesa Contra a Leucemia (APCL) organiza, a 12 de abril, o 3.º Seminário sobre Linfomas no Auditório do Metro de Lisboa. O evento abordará desde o diagnóstico até à retoma da vida, reunindo especialistas e promovendo apoio a doentes e cuidadores.

Congresso Update em Medicina Reconhece Excelência Social

Dois projetos inovadores que promovem o acesso à saúde para mulheres migrantes e pessoas sem-abrigo foram distinguidos com o Prémio Fratelli Tutti 2025. As iniciativas já estão a transformar vidas e serão celebradas no Congresso Update em Medicina, de 30 de abril a 2 de maio, em Coimbra.

MAIS LIDAS

Share This
Verified by MonsterInsights