Bolsas “Mais Valor em Saúde” vão premiar este ano a valorização do SNS

18 de Março 2022

A 2.ª edição das bolsas "Mais Valor em Saúde", que apoia projetos para melhorar a assistência aos doentes e a gestão dos recursos públicos, vai distinguir este ano uma entidade que tenha contribuído para valorizar o Serviço Nacional de Saúde.

A iniciativa, que atribui desde o ano passado quatro bolsas de valor total de 200 mil euros em formação/consultoria para ajudar a concretizar projetos apresentados por entidades de saúde públicas, arranca na segunda-feira, com o primeiro de dois “workshops” que servem para capacitar os hospitais a perceberem melhor o que é o ‘mais valor em saúde’ e a prepararem as suas candidaturas.

Em declarações à Lusa, Vitor Papão, da Gilead, um dos promotores, explicou que o projeto “ajuda a capacitar profissionais de saúde em áreas que se estendem da clínica até à gestão” e que as bolas têm também “enorme impacto na motivação, valorização e no envolvimento dos recursos humanos dos hospitais”.

“Como consequência, pensamos que vai haver uma melhoria na prestação de cuidados de saúde, dos resultados para cada doente e para a sustentabilidade dos sistemas e das unidades hospitalares”, disse, a propósito das quatro bolsas atribuídas no ano passado a dois projetos envolvendo a Unidade de Saúde Local de Matosinhos, um do Hospital de Santa Marta (Lisboa) e outro da Unidade Local de Saúde do Alto Minho.

O responsável sublinhou ainda: “Não e só uma questão de números, é uma questão fundamental para o sucesso das organizações as pessoas sentirem-se valorizadas e empenhadas no que estão a fazer”.

Os projetos premiados no ano passado envolvem o acompanhamento de doentes à distância, com dispositivos móveis, para avaliação de úlceras por pressão (Matosinhos); a criação de unidades de diagnóstico rápido para agilizar a realização de exames (Matosinhos); a monitorização remota para prevenir a descompensação da insuficiência cardíaca (Santa Marta) e uma melhor articulação hospital/cuidados de saúde primários para acompanhamento da dor crónica (Alto Minho).

Questionado pela Lusa, Vitor Papão explicou que os projetos ainda estão em desenvolvimento e que no dia da atribuição das bolsas deste ano (29 de novembro) os vencedores farão um ponto de situação do trabalho.

A iniciativa junta a Associação Portuguesa dos Administradores Hospitalares (APAH), a Exigo, a Gilead, a IASIST/IQVIA e a Altice e conta com os apoios institucionais das ordens dos médicos, farmacêuticos e enfermeiros, cujos bastonários são também membros do júri, presidido pela antiga ministra da Saúde Maria de Belém.

Também em declarações à Lusa, Jorge Félix, da Exigo, disse que “os cuidados de saúde com base em valor partem da premissa de ter o doente no centro do sistema, mas vão muito além disso”, exemplificando: “Os hospitais conseguem gerar valor pela sua intervenção quando satisfazem as expetativas e necessidades das pessoas, com qualidade e com métricas bem definidas (…), mas também conseguem trazer valor pelo facto de gerirem bem os recursos que têm ao seu dispor”.

“A saúde é maioritariamente financiada pelos impostos e, quando se trata de um bem público, há uma responsabilidade acrescida pela gestão eficiente desses recursos. (…) Os hospitais também conseguem gerar valor na garantia de acesso aos cuidados, nas mesmas condições, (…) sendo elásticos o suficiente para reconhecer que se alguém no sul tiver um problema mais urgente do que a pessoa do norte, é preciso diferenciar. Tudo isto é valor para a sociedade”.

Sublinha a importância de conseguir medir resultados e reconhece: “o sistema [de saúde] tem sido muito orientado pela produção, com os hospitais estimulados a produzir. No entanto, assistimos cada vez mais a uma organização dos hospitais no sentido da produção de indicadores de saúde e não tanto da quantidade de consultas que fazem”.

Sobre o trabalho desenvolvido pelo Serviço Nacional de Saúde (SNS), afirma: “O SNS tem vários problemas, mas enfrentou uma pandemia – um “choque externo” violento – e respondeu. Por isso, para quem sentencia que SNS está moribundo… Conseguiu dar uma resposta minimamente adequada, mantendo ainda assim níveis de desempenho bons, mesmo com algum impacto nas outras patologias”.

“O SNS tem conseguido cumprir, com grande valia, os seus principais desígnios: ser um serviço disponível para toda a população, de acesso igual para todos e tendencialmente gratuito na sua utilização”, acrescentou.

O projeto “Mais Valor em Saúde” terá dois ‘workshops’ (21 de março e 21 de abril). O período de candidaturas decorre entre 01 de maio e 30 de junho e as bolsas serão atribuídas em novembro.

LUSA/HN

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