Listas de espera são um “mal grave” do sistema de saúde

9 de Julho 2022

O cirurgião cardiotorácico José Fragata alerta que as listas de espera são um “mal grave” do sistema de saúde, causando o agravamento das doenças e, nalgumas especialidades, como a cirurgia cardíaca, acarretam uma mortalidade intrínseca agravada.

O alerta é feito no livro da sua autoria “A reforma necessária do sistema de saúde português”, que será divulgado quarta-feira, no Grémio Literário, em Lisboa, e cuja apresentação estará a cargo do economista e antigo ministro António Bagão Félix.

O médico e professor universitário ressalva que o problema das listas de espera não é exclusivo de Portugal e agravou-se nos dois últimos anos, principalmente pelos impactos pandémicos nos serviços de saúde, atingindo hoje “tempos verdadeiramente proibitivos” e “perigosos”.

“É o que se conhece por ‘legião de doentes não covid’, os doentes que ficaram para trás”, escreve no livro, sublinhando que o problema das listas de espera em Portugal é “ainda agravado pela teimosia política que continua a reclamar para o SNS a capacidade de lidar com elas, quando todos percebem que essa capacidade não existe mais”.

Em entrevista à Lusa, José Fragata disse que as listas de espera são para cirurgias, mas também para exames, devido à falta de profissionais.

“Não há radiologistas, anestesistas, agora soubemos que os obstetras também não chegam. Isto é uma bola enorme de neve que não se vai resolver nem com comissões, nem com contratações apressadas, nem com mais 10% ou 20% de ordenado”, alertou o especialista, para quem é preciso uma “reforma à séria” que ultrapasse “uma mera legislatura de quatro anos”.

Para José Fragata, o Estado lançou-se numa competição com o setor privado, mas não tem capacidade de mercado para o fazer e os médicos vão-se embora para onde têm melhores condições salariais.

“Mas não só condições salariais são condições técnicas e de aparelhagem porque o Estado há muito tempo deixou de se equipar, portanto, deixou de ser competitivo”, lamentou.

A crise que já se vivia foi agravada com a pandemia: “o serviço de saúde cristalizou” e refletiu-se no aumento da mortalidade por causas não covid, no “‘burnout’ brutal” dos profissionais e no número de doentes, sobretudo oncológicos, que foram deixados para trás e que perderam a sua janela terapêutica.

“São umas contas que não estão ainda bem feitas, mas não são umas contas simpáticas”, lamentou.

Mas, ressalvou, nenhum sistema de saúde estava preparado para uma pandemia com este, “daí a OCDE ter vindo com a noção de que os sistemas de saúde devem ser resilientes (…) com capacidade de se adaptar às crises e sair direitinhos dela”.

“Ora, isto foi aquilo que o nosso sistema não teve porque adaptámos à portuguesa, desenrascámos isto, não nos saímos muito mal, não há nenhuma crítica da minha parte em relação a isso, mas da resiliência faz parte voltar em boas condições e nós voltámos em condições muito piores”, frisou.

Sobre o que se aprendeu com a pandemia, o cirurgião apontou a necessidade de se ter serviços de saúde com “uma enorme flexibilidade” e o valor dos cuidados de proximidade e da integração dos cuidados de saúde.

“Aprendemos que é importante estratificar as populações de risco, porque as pandemias não fustigam da mesma maneira todos os mesmos grupos de risco” e que “as parcerias com as universidades, com as indústrias, com o setor privado, o setor social são imprescindíveis a qualquer sistema de saúde moderno”.

Contudo, disse, “eu não vejo, não sinto, que isso esteja a ser feito, mas isso podia ser incorporado numa reforma do sistema de saúde”, considerando que era altura de aprender e pôr mãos à obra: “Estamos, em princípio, numa legislatura estável com uma maioria que vai durar quatro anos, e numa altura em que, apesar da guerra e da crise económica que aí vem, vai haver injeção de dinheiro para projetos”.

“Mas na minha opinião é que mais dinheiro num sistema que está com as falhas destes é dinheiro queimado, não vale a pena”, sustentou.

“Nós podemos pensar em toda a bondade e beleza do projeto poético do Serviço Nacional de saúde que eu tenho vivido há 44 anos, mas na realidade as pessoas já não se guiam por essas paixões”, rematou José Fragata.

LUSA/HN

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