Miguel Castanho: “As doenças associadas ao cérebro são muito difíceis de tratar”

É como se de uma pedra preciosa se tratasse. O cérebro, um dos órgãos mais importantes, é o diamante do corpo humano capaz de impedir que a maioria dos medicamentos o atravessem. O seu mecanismo protetor pode torna-se um problema para o tratamento de algumas doenças. De acordo com o investigador do Instituto de Medicina Molecular da Universidade de Lisboa, Miguel Castanho, cerca de “98% dos medicamentos que usamos não chegam ao cérebro”.

HealthNews (HN)- As células tumorais de diferentes tipos de cancro acabam por entrar na corrente sanguínea e alojar-se no cérebro. Existem evidências científicas que expliquem este processo? 

Miguel Castanho (MC)- Esse processo ainda é objeto de estudo intenso. Ainda não se sabe como é que alguns cancros, nomeadamente o da mama, criam mais frequentemente metástases no cérebro ou nos pulmões, em vez de outros órgãos. A única evidência que existe até agora é a observacional. 

HN- Para além das doenças oncológicas, existem outras patologias clínicas que podem afetar o cérebro. Quais as que mais o preocupam?

MC- Uma das que mais nos preocupa é o Alzheimer. Aquilo que nos interessa mais é saber porque é que não conseguimos prever que uma pessoa está a desenvolver esta doença, a não ser quando começamos a notar os efeitos comportamentais. Não existe uma análise que possa ser feita ao sangue e que nos indique se a pessoa está em risco de desenvolver Alzheimer. De facto, nalguns tipos de cancro esta análise é feita. No caso dos homens, a partir de certa idade, são feitas análises ao sangue para procurar marcadores do cancro da próstata. No Alzheimer isto não é possível, já que o cérebro não liberta para o sangue quase nada daquilo que vai produzindo… Portanto, este é um dos aspetos que nos inquieta.

HN- E a nível cognitivo, qual o impacto que estas doenças que mencionou podem provocar? 

MC- O impacto vai depender do sítio onde se alojam os vírus, as bactérias, as células metastáticas ou onde se formam as placas amiloides.

As infeções virais é algo que nos preocupa bastante. Estávamos muito focados no vírus Zika, que é sobretudo gravoso para mulheres grávidas porque pode não só chegar ao cérebro da mãe, mas também ao cérebro do feto, provocando microcefalias. Isto acaba por se traduzir em deficiências cognitivas. 

Com o aparecimento do SARS-CoV-2 verificamos que este vírus também tem implicações neurológicas. É muito comum que pessoas que foram infetadas com este vírus passem a ter défices de atenção, perda de memória, falta de concentração, alterações do sono, perda do olfato e paladar. Apesar desses efeitos serem na maior parte reversíveis, o que é certo é que até para a Covid-19 também é preciso proteger o cérebro.

O VIH em alguns doentes também tem implicações neurológicas.

HN- Qual a importância de desenvolver fármacos capazes de bloquear o processo de disseminação das metástases para o cérebro? 

MC- As doenças associadas ao cérebro são muito difíceis de tratar por várias razões, uma delas é porque o tecido cerebral é muito sensível e, portanto, a probabilidade de os medicamentos, que estão a ser usados, terem outros efeitos no cérebro é bastante elevado.

Outra das razões é conhecermos menos do funcionamento do cérebro do que outros órgãos. Existe por vezes uma incapacidade de lidar com os fenómenos que surgem no cérebro porque são relativamente desconhecidos.

O terceiro fator é que é muito difícil fazer chegar fármacos ao cérebro porque as paredes das artérias formam uma barreira muito seletiva. Trata-se de um mecanismo protetor, mas que na hora de tratar doenças associadas ao cérebro isto é um grande problema porque os fármacos não conseguem ultrapassar essa barreira. De facto, 98% dos medicamentos que usamos não chegam ao cérebro.

HN- É coordenador de um novo projeto de investigação sobre o impacto que o SARS-Cov-2, o vírus da imunodeficiencia humana, o  dengue e o vírus Zika podem ter no cérebro. Quais as vossas expectativas? 

MC- Estamos a tentar desenvolver fármacos para prevenir o desenvolvimento de metástases no cérebro e a multiplicação de vírus no cérebro. Trata-se de moléculas que usam uma estratégia diferente… São uma espécie de proteínas muito pequenas e que se conseguem aderir às paredes do cérebro. 

Já temos um conjunto de moléculas que sabemos que chegam ao cérebro. Os resultados em ratos, com infeções virais associadas, revelaram uma melhoria da sobrevivência e da condição clínica. 

A nossa expectativa é continuar a aprofundar esse conhecimento e, uma vez obtida mais informação sobre a ação da molécula, em termos antivirais e de segurança, podermos vir a interessar parceiros industriais. 

Sempre nos interessou o desenvolvimento de fármacos para impedir a multiplicação viral para o sistema nervoso central. 

Entrevista de Vaishaly Camões

1 Comment

  1. Jorge Coutinho

    Acho que no início da vacina pode ter acontecido algum efeito no cérebro mas com um dois meses ,passa rápido.No meu entendimento, claro que todo o medicamento tem efeitos secundários,vacinas também,pode ocasionar febre o dor localizada.

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