Sofia Duque: “Esperamos revolucionar paradigmas na 5.ª Reunião do NEGERMI”

O Núcleo de Estudos de Geriatria (NEGERMI) vai realizar a sua 5.ª Reunião nos dias 10 e 11 de novembro, em Peniche. A sua coordenadora, Sofia Duque, explica que este encontro servirá para “fomentar a abordagem global da pessoa idosa”, revelando, ainda, que estarão em debate alguns dilemas terapêuticos da prática clínica, os quais tentarão dar resposta. A especialista aproveitou para referir que a Geriatria se encontra subdesenvolvida em Portugal, sendo esta uma oportunidade para mudar esse estado.

HealthNews (HN)- Sendo já a quinta reunião deste núcleo, o que é que traz de novo este ano?

Sofia Duque (SD) – A Reunião do Núcleo de Estudos de Geriatria é sempre uma oportunidade de abordarmos novos temas relevantes em Geriatria, abrangendo tópicos de natureza médica, mas também psicossocial e ética. Por outro lado, revisitaremos alguns temas já abordados em reuniões anteriores, mas que devem ser atualizados face à sua relevância no tratamento da pessoa idosa. De novo, teremos um workshop pré-congresso sobre sarcopenia e uma mesa de discussão multidisciplinar à volta de dois casos clínicos de doentes idosos.

HN- Quais os principais objetivos da reunião?

SD – O objetivo primordial desta reunião é fomentar a abordagem global da pessoa idosa, tanto no hospital como na comunidade e instituições, aproximando os vários profissionais de saúde que cuidam dos idosos, reconhecendo que todos são necessários para o tratamento completo do idoso. Esperamos contribuir para a melhoria dos cuidados de saúde dos nossos idosos, potenciando a sua autonomia e bem-estar.

HN- Quais os temas que merecem um maior destaque/ importância?

SD – Todos os temas selecionados são importantes e dada a grande abrangência e curriculum próprio da Geriatria foi um desafio eleger os temas a abordar nesta reunião. O Secretariado do NEGERMI construiu o programa desta reunião após um brainstorming, que procurou conciliar os tópicos mais específicos da Geriatria com as necessidades práticas da vivência clínica, sem esquecer os diferentes níveis de assistência clínica dos doentes idosos e os diferentes estádios funcionais e cognitivos das pessoas idosas.

HN- Quais os hot-topics em Geriatria?

SD – Na nossa reunião vamos falar sobre a comunicação com doentes idosos com défice cognitivo e auditivo. Focaremos várias síndromes geriátricas como a insónia, a fragilidade, a dor crónica. Teremos uma mesa especialmente dedicada ao doente com Doença de Parkinson, um exemplo paradigmático do doente geriátrico, e focar-se-ão as quedas e hipotensão ortostática e a disfagia. Também haverá sessões sobre a nutrição e a vacinação em Geriatria, dois pilares para um envelhecimento saudável e bem-sucedido. Vários desafios da prática clínica em Geriatria serão discutidos como a avaliação da capacidade de condução, a gestão do luto e a desprescrição de benzodiazepinas. Dois modelos de cuidados geriátricos especializados em Geriatria vão ser desvendados: a Oncogeriatria e a Medicina Geriátrica Peri-Operatória. Novos fármacos populares em Medicina Interna irão ser analisados à luz dos princípios fundamentais da Geriatria e tentaremos obter respostas para alguns dilemas terapêuticos da prática clínica: O tratamento da osteoporose deve ser diferente consoante o local do esqueleto com menor T score? No idoso frágil, os fármacos anti-hipertensores e alvos terapêuticos devem ser diferentes? E que fármacos e dispositivos inalatórios devemos eleger para tratar DPOC no idoso frágil? Também teremos uma apresentação dos Palhaços d’Opital e encerraremos com chave-de-ouro discutindo com uma verdadeira equipa multidisciplinar dois casos clínicos de doentes idosos, um hospitalizado e outro a viver na comunidade.

HN- Quais as doenças geriátricas que mais preocupam os profissionais de saúde?

SD – Pergunta desafiante e provocatória… Porque frequentemente as doenças que mais preocupam os profissionais de saúde nem sempre são as que mais preocupam os idosos nem as que mais influem na sua qualidade de vida. Esperamos na Reunião do NEGERMI tocar em várias doenças que preocupam os idosos, já que o nosso objetivo é preservar o seu bem-estar e qualidade de vida. Desta forma, é expectável e mesmo desejável que na reunião se fale de muitos aspetos que antes não valorizámos na prestação de cuidados a pessoas idosas. Esperamos assim revolucionar paradigmas!

HN- A Geriatria é uma especialidade que merece uma maior atenção do que aquela que tem?

SD – A Geriatria encontra-se claramente subdesenvolvida em Portugal. Não existem respostas clínicas especializadas em Geriatria de forma estrutural no serviço nacional de saúde, apesar de Portugal ser um dos países mais envelhecidos da Europa. Pontualmente, em alguns hospitais existem consultas de Geriatria geral ou especializadas numa subpopulação com necessidades especiais – uma minoria dos idosos portugueses tem acesso a tais consultas; em ambiente de internamento hospitalar contar-se-á pelos dedos de uma mão modelos que funcionam em pleno de acordo com os princípios fundamentais da Geriatria; a presença obrigatória de um Geriatria nas unidades de cuidados continuados ou nos estabelecimentos residenciais para idosos é atualmente uma utopia…. E os poucos avanços que ocorreram nos modelos assistenciais em Geriatria nos últimos anos, fruto da perseverança e determinação de alguns entusiastas da Geriatria, rapidamente sofreram um retrocesso avassalador com a pandemia; no fundo, porque as respostas clínicas especializadas em Geriatria nunca foram consideradas um direito básico dos idosos, mas antes uma resposta clínica supérflua, secundária e substituível por outros modelos clínicos menos especializados. Quando em Espanha a maioria dos hospitais tem serviços de Geriatria, em Portugal ainda tentamos desenvolver projetos piloto movidos essencialmente pela preferência individual de algum profissional menos ortodoxo e com ideias disruptivas, incompreendidas pela maioria dos seus pares. Mas mais do que falar da Geriatria, importa falar das pessoas idosas e perguntar porque não têm os mesmos direitos e acessibilidade a cuidados de saúde especializados que os seus pares a viver em Espanha, França ou Bélgica? Será a essência dos idosos portugueses diferente dos seus congéneres europeus?…

HN- De que forma é que se pode promover o bem-estar dos idosos?

SD – Para promover o bem-estar dos idosos é fundamental valorizar as suas prioridades, objetivos e expetativas e considerar as várias dimensões da pessoa. Se os cuidados de saúde são fundamentais, tão ou mais importante podem ser a socialização, o envolvimento em atividades lúdicas, a espiritualidade, a autonomia de tomar decisões e fazer escolhas, a capacidade económica para viver dignamente e com conforto.

 

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