3ª edição do Prémio Maria de Sousa abre candidaturas

3ª edição do Prémio Maria de Sousa abre candidaturas

A Ordem dos Médicos e a Fundação BIAL anunciam a abertura das candidaturas à terceira edição do Prémio Maria de Sousa. Esta iniciativa, lançada em 2020, visa reconhecer e apoiar até cinco projetos de investigação na área das Ciências da Saúde desenvolvidos por jovens investigadores científicos portugueses, incluindo obrigatoriamente um estágio num Centro Internacional de Excelência.

No total, o prémio vai distribuir até 150 mil euros por um máximo de cinco vencedores, de idade igual ou inferior a 35 anos, residentes em Portugal ou no estrangeiro. As candidaturas, a submeter até 31 de maio, têm de ser apresentadas individualmente, não sendo admitidas candidaturas por grupos de investigadores.

Através deste galardão, pretende-se perpetuar o trabalho de Maria de Sousa, uma personalidade incontornável que marcou o desenvolvimento científico e académico em Portugal e a nível mundial.

Para o neurocientista Rui Costa, Presidente do Júri do Prémio Maria de Sousa, “trata-se de um galardão que pretende homenagear uma vida dedicada à ciência e ao conhecimento, através do apoio ao trabalho científico de jovens investigadores”. Acrescenta que “o elevado número de candidaturas nas edições anteriores mostra-nos que o trabalho científico desenvolvido por portugueses é encorajador para a ideia de construção de uma sociedade global alicerçada no conhecimento. Esperamos que a edição deste ano mantenha ou aumente o nível de adesão.

Miguel Guimarães, Bastonário da OM, destaca que os “prémios são importantes para recordar e homenagear pessoas absolutamente essenciais na nossa vida, tal como é o caso da Prof.ª Maria de Sousa”. “Com esta iniciativa, apoiando a formação de jovens investigadores, enaltecemos as várias dimensões da Prof.ª Maria de Sousa, científica, ética e humana, num percurso de vida dedicado à investigação e enquanto exemplo e inspiração para as gerações mais jovens”.

Para o presidente da Fundação BIAL, Luís Portela, “ao premiar jovens investigadores estamos a perpetuar o trabalho único de Maria de Sousa, que sempre procurou criar condições para que os jovens cientistas pudessem concretizar os seus sonhos e os seus percursos, aqui e além-fronteiras”.

Para além de Rui Costa, o júri é composto por investigadores que foram muito próximos de Maria de Sousa: Maria do Carmo Fonseca, Presidente do Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes (iMM), Graça Porto, Diretora do Grupo de Investigação sobre a Biologia do Ferro do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S) da Universidade do Porto, Miguel Castelo-Branco, Diretor do Centro de Imagem Biomédica e Investigação Translacional (CIBIT) da Universidade de Coimbra, e Joana Palha, Professora Catedrática da Escola de Medicina da Universidade do Minho.

O regulamento, formulário de candidatura e mais informação sobre esta edição estão disponíveis aqui.

NR/HN/ALphaGalileo
3ª edição do Prémio Maria de Sousa abre candidaturas

3ª edição do Prémio Maria de Sousa abre candidaturas

A Ordem dos Médicos e a Fundação BIAL anunciam a abertura das candidaturas à terceira edição do Prémio Maria de Sousa. Esta iniciativa, lançada em 2020, visa reconhecer e apoiar até cinco projetos de investigação na área das Ciências da Saúde desenvolvidos por jovens investigadores científicos portugueses, incluindo obrigatoriamente um estágio num Centro Internacional de Excelência.

No total, o prémio vai distribuir até 150 mil euros por um máximo de cinco vencedores, de idade igual ou inferior a 35 anos, residentes em Portugal ou no estrangeiro. As candidaturas, a submeter até 31 de maio, têm de ser apresentadas individualmente, não sendo admitidas candidaturas por grupos de investigadores.

Através deste galardão, pretende-se perpetuar o trabalho de Maria de Sousa, uma personalidade incontornável que marcou o desenvolvimento científico e académico em Portugal e a nível mundial.

Para o neurocientista Rui Costa, Presidente do Júri do Prémio Maria de Sousa, “trata-se de um galardão que pretende homenagear uma vida dedicada à ciência e ao conhecimento, através do apoio ao trabalho científico de jovens investigadores”. Acrescenta que “o elevado número de candidaturas nas edições anteriores mostra-nos que o trabalho científico desenvolvido por portugueses é encorajador para a ideia de construção de uma sociedade global alicerçada no conhecimento. Esperamos que a edição deste ano mantenha ou aumente o nível de adesão.

Miguel Guimarães, Bastonário da OM, destaca que os “prémios são importantes para recordar e homenagear pessoas absolutamente essenciais na nossa vida, tal como é o caso da Prof.ª Maria de Sousa”. “Com esta iniciativa, apoiando a formação de jovens investigadores, enaltecemos as várias dimensões da Prof.ª Maria de Sousa, científica, ética e humana, num percurso de vida dedicado à investigação e enquanto exemplo e inspiração para as gerações mais jovens”.

Para o presidente da Fundação BIAL, Luís Portela, “ao premiar jovens investigadores estamos a perpetuar o trabalho único de Maria de Sousa, que sempre procurou criar condições para que os jovens cientistas pudessem concretizar os seus sonhos e os seus percursos, aqui e além-fronteiras”.

Para além de Rui Costa, o júri é composto por investigadores que foram muito próximos de Maria de Sousa: Maria do Carmo Fonseca, Presidente do Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes (iMM), Graça Porto, Diretora do Grupo de Investigação sobre a Biologia do Ferro do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S) da Universidade do Porto, Miguel Castelo-Branco, Diretor do Centro de Imagem Biomédica e Investigação Translacional (CIBIT) da Universidade de Coimbra, e Joana Palha, Professora Catedrática da Escola de Medicina da Universidade do Minho.

O regulamento, formulário de candidatura e mais informação sobre esta edição estão disponíveis aqui.

NR/HN/ALphaGalileo
Novas regras para fumar em espaços fechados entram hoje em vigor

Novas regras para fumar em espaços fechados entram hoje em vigor

As novas regras para os locais fechados onde ainda é permitido fumar estão estabelecidas numa portaria conjunta dos ministérios da Economia e Mar e da Saúde publicada no passado dia 03 de junho que estabelece as normas relativas à lotação máxima permitida, à separação física ou compartimentação, à instalação e aos requisitos técnicos dos sistemas de ventilação e à dimensão mínima dos espaços.

Quanto à separação das salas de fumo, a portaria determina que a interligação entre as salas onde se pode fumar e os espaços do mesmo edifício onde não é permitido deve ser feita através de uma antecâmara com um mínimo de 4m2, devidamente ventilada e com portas automáticas de correr, na entrada na saída”.

Estabelece ainda que o tempo de abertura da porta de entrada das salas onde é permitido fumar não pode ser feito em simultâneo com a da porta de saída.

Nos estabelecimentos de restauração ou de bebidas, incluindo os que possuem salas de dança, podem ser constituídos locais onde é permitido fumar em áreas destinadas a clientes, desde que estes tenham uma área igual ou superior a 100 m2 e um pé direito mínimo de três metros.

Estes locais, incluindo a respetiva antecâmara, podem ocupar até um máximo de 20% da área destinada aos clientes.

“A lotação máxima dos locais onde é permitido fumar é definida pelo proprietário do estabelecimento ou pelas entidades responsáveis pelos estabelecimentos (…) devendo estar em conformidade com o projeto de segurança contra incêndios em edifícios e validada” por técnicos especializados.

As salas de fumo devem ser sinalizadas e ter afixado na porta a lotação máxima permitida, além da informação de que é “proibida a entrada a menores de 18 anos” e que “a qualidade do ar no interior desta sala pode prejudicar a saúde dos seus utilizadores”.

Nas salas de fumo devem existir sistemas de ventilação, devendo ser garantida uma eficácia de ventilação mínima de 80%.

Antes de poderem ser utilizadas para efeitos de limpeza ou manutenção, as salas onde é permitido fumar devem ser sujeitas a uma renovação do ar de pelo menos 10 renovações por hora, durante um período mínimo de uma hora, salienta.

A lei de 2007 estabelece as normas para a proteção dos cidadãos da exposição involuntária ao fumo do tabaco e medidas de redução da procura relacionadas com a dependência e a cessação do seu consumo.

“A experiência de aplicação desta Lei e a necessidade de dar pleno cumprimento ao artigo 8.º da Convenção Quadro da Organização Mundial da Saúde para o Controlo do Tabaco (…) obrigou o Governo a tomar medidas para restringir o número de locais onde ainda é permitido criar novos espaços para fumar, bem como a impor condições de instalação e requisitos técnicos dos respetivos sistemas de ventilação mais rigorosos, com o objetivo de promover uma maior salubridade destes espaços”, lê-se na portaria.

NR/HN/LUSA

Nova terapia poderá favorecer tratamento de epilepsia e outras doenças

Nova terapia poderá favorecer tratamento de epilepsia e outras doenças

Muitas destas doenças são causadas pela atividade excessiva de um pequeno número de células e o novo tratamento, testado em ratos, é capaz de atingir apenas os neurónios hiperativos e preservar aqueles que agem normalmente.

O estudo foi divulgado na revista Science e os seus responsáveis dizem que o novo tratamento foi mais eficaz que as antigas terapias genéticas ou os medicamentos anticonvulsivantes testados no mesmo modelo, com uma redução de cerca de 80% das convulsões espontâneas nos ratos epiléticos, segundo a agência noticiosa espanhola EFE.

Apesar de promissoras, as terapias genéticas tendem a atingir indiscriminadamente todos os neurónios numa determinada região do cérebro, em vez dos circuitos problemáticos específicos, o que leva a que um terço dos doentes responda mal aos tratamentos.

Para resolver o problema, foi desenvolvida uma estratégia de terapia genética que autoselecciona neurónios patologicamente hiperreativos e reduz a sua excitabilidade.

Ao trabalhar de acordo com a atividade epilética e tendo capacidade de se autorregular, a estratégia pode utilizar-se sem que seja necessário decidir “a priori” quais as células cerebrais a atacar, indicam os investigadores.

“Inventámos uma terapia genética que é ativada apenas em células hiperativas e é desativada se a atividade voltar ao normal”, resume Gabriele Lignani, do Instituto de Neurologia da UCL, num comunicado citado pela EFE.

Os cientistas referem que em teoria a estratégia também se poderá utilizar no tratamento de outras doenças, como a de Parkinson, a esquizofrenia e os distúrbios da dor, nos quais alguns circuitos cerebrais são hiperativos.

Para José Maria Serratosa, neurologista especializado em epilepsia do Hospital Universitário Fundación Jiménez Díaz, trata-se de um trabalho de excelente qualidade.

Embora haja trabalho a ser feito para o seu desenvolvimento pré-clínico e clínico, “é provável que esta forma de tratamento seja estabelecida num futuro próximo”, adiantou ao Science Media Center de Espanha.

NR/HN/LUSA

“Gaveta de Reformas”: António Correia de Campos “atreve-se” a escrever sobre matérias da saúde que acompanhou durante 50 anos

“Gaveta de Reformas”: António Correia de Campos “atreve-se” a escrever sobre matérias da saúde que acompanhou durante 50 anos

António Correia de Campos, ex-ministro da Saúde, escreveu um livro para “ajudar os decisores, os políticos, os dirigentes associativos a olharem para a saúde de um modo informado sobre a história passada, o que é muito importante”. “Quem não sabe história não sabe preparar o futuro. Esse é o objetivo essencial deste trabalho. Atrevo-me a escrever sobre matérias com que convivi durante 50 anos por reconhecer não ver à minha volta muita gente que esteja nas circunstâncias em que me encontro: ter reunido o material e as peças indispensáveis a poder com fidedignidade relatar esta breve história de reformas da saúde”, disse o autor de “Gaveta de Reformas” em entrevista ao HealthNews.

HealthNews- Porquê agora?

António Correia de Campos (ACC)- Estava a escrever as memórias. Já tenho praticamente tudo pronto e dispunha até de um contrato de edição do primeiro volume. Entretanto, os acontecimentos precipitaram-se. A Covid foi um grande choque. Por outro lado, a queda do Governo anterior, seguido do aparecimento de um novo governo de maioria absoluta, e a ideia de que se pode reformar a saúde através de leis de bases determinaram a minha decisão. Tinha materiais escritos que gostaria de ver publicados, como um estudo que realizei com Ricardo Mestre e Teresa Oleiro sobre a dedicação plena, em 2019. E outras peças que me pareciam importantes. Dediquei-me a olhar para as leis de bases, por não acreditar nelas como fator de reforma. Grandes reformas da saúde foram feitas fora de leis de base. Senti que o país tinha passado um ano e meio ou dois anos a debater uma lei de bases e que se arriscava a prolongar uma discussão pouco produtiva, agora com o estatuto e, depois, com a direção executiva. Foi essa uma das razões.

HN- Na obra, não há nenhuma exaltação na crítica…

ACC- A idade conta muito. Já não estou em idade de militâncias. Se quero ser útil, ajudar o país e ajudar o sistema de saúde a aperfeiçoar-se, tenho que ser persuasivo. Não posso ser impositivo. Procurei ser o mais independente possível.

HN- Começa na regulamentação da lei Arnaut e, quando chega à parte da direção-geral dos cuidados de saúde primários, fala num semifracasso por estarmos a apenas 9 anos após abril de 74. Depois, ao longo dos anos, há uma repetição de semifracassos.

ACC- O problema aí foi fundamentalmente meu. O ministro da altura convenceu-me a preparar a lei, ouvindo toda a gente, porque a lei era importante e necessária para juntar as antigas “caixas” com os centros de saúde. Estava tudo disperso. Eram duas instâncias completamente separadas. Duas direções-gerais, uma com bastante dinheiro, outra com muito pouco dinheiro; uma (DGS) com uma linha orientadora, mas com poucos recursos, a outra (SMS da Previdência) com escasso pensamento, puramente operativa, mas muito prática.

Convenci-me, erradamente, de que estava a preparar uma legislação que eu próprio iria executar. Foi um erro grave. Não acreditava que o ministro me nomeasse diretor-geral, embora ele me tivesse prometido o cargo. Eu não era médico e, tradicionalmente, a direção-geral de saúde é dirigida por médicos.

Fui preparando a legislação como se ela fosse executada por uma pessoa capaz de “pegar no touro pelos cornos”. Acontece que não foi isso o que aconteceu. A possibilidade de fundir 1.200 funcionários num serviço de 400 e depois disseminar o resto do pessoal por serviços próximos das respetivas residências (centros de saúde ou hospitais) parecia uma ideia de interesse para todos. Tentei criar um mecanismo voluntário de colocação das pessoas, através de um processo muito simples, mas que, salvo erro, só registou quarenta ou cinquenta pedidos. As pessoas que executaram a reforma eram certamente bem-intencionadas e competentes, até com características pessoais muito agradáveis, mas tinham tudo menos espírito reformista.

HN- Relativamente aos cuidados de saúde primários, também se queixa de ser uma reforma que não foi concluída. Como é que isto se explica?

ACC- A explicação habitual é de que não há dinheiro para pagar aos médicos de família do modelo USF. Mas os decisores não fazem contas. Há, pelo menos, dois ou três estudos que demonstram que uma unidade de saúde familiar, comparada com unidades correspondentes convencionais, permite poupar em medicamentos e em meios complementares, conforto do doente e qualidade do acompanhamento do cidadão e sua família o suficiente para compensar o acréscimo de encargos com o pessoal. Os políticos sofrem muitas vezes de miopia. Não acreditam nessas contas. Mesmo que as encomendem, sentem dificuldade em acreditar nelas.

HN- Aponta que o principal problema do SNS são os recursos humanos. Face a este novo enquadramento do SNS, com a introdução da direção executiva, quem é que tem a tutela?

ACC- Ainda não está clarificado. Não sabemos onde é que se vai situar a direção executiva. Se a direção executiva se inserir na cadeia normal de comando e controlo, dependerá do gabinete ministerial e transmitirá ordens e instruções aos serviços atualmente existentes, nomeadamente à administração central do sistema de saúde (ACSS) e às administrações regionais (ARS), hospitais e ACES. Não se conhece ainda o figurino final.

Confesso a minha estranheza perante o modelo adotado. Acho muito bem a direção executiva, mas a direção executiva devia fundir-se com a administração central e com os serviços partilhados (SPMS), todos órgãos executivos ao nível central. Os SPMS detêm a responsabilidade pelo sistema de informação, a ACSS pelo pessoal, financiamento, instalações de equipamentos e contratualização com o setor privado. Se fosse este o organograma, não havia dúvidas.

Como é que o modelo proposto vai funcionar? Não sei. Também não estou muito preocupado. Na minha experiência, já vivi com estruturas muito bem desenhadas, com uma arquitetura muito transparente, mas com péssimos executantes. E ao lado delas, estruturas muito complicadas, muito pouco racionais, mas com grandes executantes. E eram estes últimos que “levavam a carta a Garcia”. Portanto, não me preocupo com essa situação. Até ao ponto em que não haja conflito de competências. Também acredito que esses conflitos serão minimizados, porque as pessoas se dão bem entre si. Pertencem quase todas à mesma geração e até ao mesmo grupo. Transportam um excelente relacionamento entre si. Podem surgir problemas, mas eles serão certamente minimizados pelo facto de as pessoas se entenderem bem, terem a mesma linguagem, desejarem o mesmo para o Serviço Nacional de Saúde, terem a mesma visão de que o setor privado é necessário, útil e complementar. Comungam valores comuns. Se me perguntarem se acho que o organograma devia ser imediatamente revisto, eu sugeriria que esperássemos seis meses ou um ano. Ao fim dessa experiência, talvez haja melhor conhecimento para aperfeiçoar o modelo.

Há fatores positivos na nova orgânica, alguns até inovadores. Recordo que as redes de prestação de serviços no Serviço Nacional de Saúde e, depois, as contratações ao setor privado foram surgindo um pouco por adição, sem nunca ter havido nem planeamento, nem perfeita integração. Por isso é que nunca conseguimos articular devidamente a rede hospitalar com a rede dos centros de saúde. A integração dos centros de saúde com os postos das caixas tinha resultado de um esforço enorme, parcialmente relatado no meu livro. Trabalhos de clarificação e de integração sempre tiveram que ser necessários no nosso sistema de saúde.

Teria preferido um organograma mais límpido. No entanto, há algo de importante nesta situação. As redes foram surgindo cada uma de seu modo. Primeiro a rede hospitalar, depois a rede dos cuidados primários e, finalmente, as redes dos cuidados continuados e paliativos. Essas quatro redes estão desintegradas. Uma das atribuições da direção executiva será integrar esse sistema. Como é que isso se faz? Pode até haver métodos não tradicionais de o realizar – uma gestão por projetos, por exemplo. Nunca falei com o Professor Fernando Araújo sobre este tema, mas pode haver um funcionamento por projetos. Por exemplo, integrar mais intimamente os centros de saúde com as ERPI. AS ERPI (Estabelecimentos Residenciais para Pessoas Idosas) têm uma escassa componente de saúde. Não fazem parte dos cuidados continuados integrados, mas são importantíssimas, porque todas as semanas tem que lá ir um médico e tem que lá estar também uma enfermeira. Em muitas ERPI, o médico vai lá predominantemente para passar receitas e observar os idosos carecidos de uma consulta médica, ocasionalmente portadores de infeções urinárias, de problemas respiratórios e outros, e nessa altura ele recomenda a ida à urgência hospitalar. Mas não existe sistema de referência organizado para enviar aquele paciente para o hospital da área.

A direção executiva terá a seu cargo este tipo de questões: articular as ERPI com os centros de saúde e com os hospitais; articular unidades de saúde familiares, ACES e hospitais; criar meios complementares de diagnóstico junto dos ACES, recorrendo a pessoal do SNS ou ao setor privado por concurso ou em parceria. Não tenho qualquer reserva a que os meios de diagnóstico que venham a ser criados sejam geridos ou diretamente pelo SNS ou mediante cessão de exploração, através de concurso público organizado, regionalizado ou nacional, a pessoas ou empresas com qualidade e experiência. O pior seria criar redundâncias que funcionam deficientemente, gastando mais recursos, por ex. gerando falhas no reaprovisionamento de reagentes, escassa ou fraca manutenção do equipamento ou demora escusadas no atendimento, obrigando o SNS a recorrer ao setor privado, gastando duas vezes para um só serviço.

HN- Ainda relativamente aos cuidados primários, temos o problema do número de médicos que se estão a reformar.

ACC- Nesta década, os anos críticos são de 2022 até 2027 ou 2028, em que o saldo é negativo. Quer dizer, reformam-se mais médicos do que os alunos que terminam o curso.

HN- A solução passa pelo médico indiferenciado…

ACC- Eu próprio recorri a essas soluções, a médicos cubanos e a médicos do Uruguai. Conheço os argumentos e a sua validade. Da parte das associações dos médicos de família, no sentido de que a lista de utentes só deve ser atribuída a pessoas com graduação em Medicina Geral e Familiar. Entendo que esses argumentos são válidos. Não vamos destruir uma coisa que levou tanto tempo a construir. Há outras soluções: trazer médicos para onde eles têm sido mais necessários, nas urgências; organizar com os hospitais algum mecanismo de treino para eles poderem ser bons urgencialistas; existe, também, a possibilidade de cursos rápidos para um período transitório. Lembremo-nos do que aconteceu com os auxiliares de enfermagem e os enfermeiros em 1974/75. Criou-se um curso de 9 meses, no Instituto Ricardo Jorge, organizado com muito rigor, frequentado por auxiliares de enfermagem que tivessem já o antigo quinto ano do liceu. Era um curso exigente. A sua aprovação conferia a título excecional o diploma de enfermagem, o que suscitou imensos remoques iniciais dos enfermeiros, das escolas de enfermagem, considerando a solução como um abastardamento da qualidade profissional. É compreensível esta reação. A verdade é que hoje já ninguém se lembra disso. Tudo passou. Os candidatos de então foram acolhidos no sistema. Houve profissionais de enfermagem oriundos dessa fileira que, ao longo dos anos, assumiram papéis de grande responsabilidade. Os Estados, por vezes, têm que recorrer a este tipo de mecanismos, desde que sejam bem montados, exigentes e transitórios. Não podem é ser eternos. Se isso se vier a fazer, terá que ser com conta, peso e medida.

Quantos são os anos de défice de médicos? São cinco anos? Então o sistema vai funcionar durante cinco anos. E não mais. É preciso ter uma organização capaz de os treinar, acompanhar e ajudar. Estudemos a forma como eles podem coadjuvar médicos de família até que passem a ter alguma possibilidade de receberem delegação de certas funções. Creio não ser impossível realizar um processo exigente e temporário, com a concordância dos próprios médicos de família.

HN- Também aborda a questão da exclusividade, uma coisa de que se fala há imensos anos e que deixou de existir.

ACC- Temos um capítulo inteiro sobre essa matéria no meu livro. Trabalho voluntário, sem que ninguém mo pedisse.  Com a colaboração de Ricardo Mestre e Teresa Oleiro. Elaborei o estudo sem de nada informar o Governo. Conhecia as reticências que as Finanças tinham em relação ao custo da dedicação plena, percebia a vontade que o Governo tinha de regressar a ela de uma forma mais aperfeiçoada e também sabia que a dedicação plena de antigamente estava longe de ser perfeita.

Fez-se questão de o processo ser gradual, com metas pouco ambiciosas. Em quatro anos, dispor de apenas 40% de médicos e de enfermeiros em dedicação plena e dos correspondentes apoios em hospitais, recorrendo ao modelo dos centros de responsabilidade integrados. Vinte e cinco por cento no primeiro ano, depois aos poucos, até 40% em quatro anos. Identificámos o que se poderia poupar com a internalização de serviços hoje requisitados ao setor privado e quanto custaria a diferença para a dotação regular atual. Ofereci o trabalho ao gabinete ministerial, solicitando que a autoria fosse anónima. Se aparecesse como um trabalho meu, isso iria contaminar, eventualmente, qualquer discussão. E recomendava que o estudo fosse escrutinado, revisto e criticado por quem o Governo entendesse, aproveitando o que de válido restasse. Nunca ouvi falar do estudo, a não ser mais tarde numa campanha eleitoral em que um membro do Governo mencionou a ideia, que me era obviamente familiar, de em quatro anos termos pelo menos 40% dos médicos e dos enfermeiros em dedicação plena, através de centros de responsabilidade integrados. Foi o único feedback que colhi.

HN- O que não viria a acontecer.

ACC- Pois, porque mudou o Governo. Não sei se o novo gabinete consegue aproveitar o material elaborado. É possível que sim, embora esteja desatualizado. O estudo é de 2019, a partir de dados de junho desse ano, portanto, “já muita água correu debaixo da ponte”. Além da sua atualização e afinação, será indispensável conversar com as Finanças, saber se o modelo tem pés para andar, falar com as organizações médicas. Há todo um trabalho político a fazer, além do técnico, obviamente.

HN- Uma nota final…

ACC- A minha nota final é agradecer à HealthNews este contacto. Esta entrevista não é uma reprodução da totalidade, nem de uma pequena parte, das ideias contidas no livro. Mais do que ideias, o livro traz sobretudo experiência. Uma experiência de 50 anos de reformas, umas conseguidas, outras não conseguidas. E foi escrito para ajudar os decisores, ajudar os políticos, ajudar os dirigentes associativos a olharem para a saúde de um modo informado sobre a história passada, o que é muito importante. Quem não sabe história não sabe preparar o futuro. Esse é o objetivo essencial deste trabalho. Atrevo-me a escrever sobre matérias com que convivi durante 50 anos por reconhecer não ver à minha volta muita gente que esteja nas circunstâncias em que me encontro: ter reunido o material e as peças indispensáveis a poder com fidedignidade relatar esta breve história de reformas da saúde.

Entrevista de MMM

Atletas e ex-atletas falam sobre a saúde mental no desporto de alta competição

Atletas e ex-atletas falam sobre a saúde mental no desporto de alta competição

As atletas Bárbara Timo e Inês Henriques e a ex-atleta Vanessa Vernandes foram algumas das personalidades presentes hoje no primeiro seminário sobre a saúde mental no desporto de alta competição, que decorreu no Fórum Lisboa.

Em 2021, Vanessa Fernandes confessou ter sofrido de bulimia e depressão e que já se encontraria doente quando conquistou a medalha de prata no triatlo em Pequim2008. Também a judoca Bárbara Timo revelou que o período da pandemia a tinha levado ao diagnóstico de uma depressão, o mesmo diagnóstico revelado pela marchadora Inês Henriques, que disse ter sofrido uma depressão e que teve de pedir ajuda antes de correr o Mundial em 2021.

“Há um ano, falávamos da Simone Biles. Ela teve a capacidade de alertar para este problema, mas isto é um balão que se iria esvaziar e a verdade é que esvaziou mesmo. De facto, é preciso ter memória para ter história, é preciso criar a sustentabilidade do tema. A nossa associação tem um papel cívico, de responsabilidade social e sentimos necessidade de trazer a sociedade civil”, afirmou na ocasião Luís Monteiro, presidente da Associação dos Atletas Olímpicos de Portugal (AAOP), promotora do evento.

O seminário ficou dividido em três momentos, com o objetivo de salientar as principais fases da vida do atleta: a pré-competição, em que foram exploradas as relações no desporto, como a tríade pai-atleta-treinador, a competição em si, que teve como foco a gestão de expectativas, e o pós-competição e a identidade do atleta que já não compete.

Na ocasião, foi enfatizado que um dos principais fatores para o desenvolvimento de doenças profundas é o tempo que os atletas demoram a assumir o problema e a pedir ajuda.

“Existe o estigma relativamente a estes problemas em toda a população, mas, em relação aos atletas, em que as expectativas são muito altas, existe muito estigma e discriminação, e muitas vezes é o próprio atleta que se auto-estigmatiza e que tem vergonha de comunicar à família, ao treinador e aos próprios colegas que está em sofrimento psicológico, atrasando a procura de ajuda e a melhoria dos seus sintomas”, disse Maria João Heitor, presidente da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental, parceira na realização do evento.

Inês Henriques falou do período antes do Mundial de 2021 e da importância da ajuda psicológica durante todo o processo: “No ano passado podia ter arrumado as sapatilhas, porque me tiraram a minha prova (50 km marcha), mas eu sou muito teimosa e, se no ano passado existiu uma prova para mulheres e outra para homens, não de 50, mas de 35 quilómetros, foi porque eu lutei para isso”.

“Ainda hoje não sabemos como vão ser os Jogos Olímpicos, é uma falta de respeito para connosco atletas, mas eu continuo a lutar para ir a Paris. Nem sempre é fácil, mas tento fazer uma gestão psicológica diferente e tento manter o equilíbrio”, disse a marchadora, de 42 anos, que manifestou o desejo de terminar a carreira em Paris2024.

Bárbara Timo falou do ouro conquistado no Grand Slam Paris em 2021, a primeira medalha após a depressão, e explicou quais os métodos que usa para combater os pensamentos mais negativos.

“Nunca imaginei que, aos 31 anos, ia ganhar uma medalha numa categoria nova. Isso aconteceu fruto das minhas derrotas. (…) Faço muitas consultas com o psicólogo desportivo do clube e tenho um ‘mental coach’, porque, apesar de atualmente não duvidar das minhas capacidades, ainda tenho dúvidas sobre o que é ser mulher e ser atleta, sobre o que vou fazer pós-carreira, coisas que trato com o psicólogo”, disse.

A judoca acrescentou que, com o ‘coach’, trata “mais dos objetivos a curto e médio prazo”, além de praticar yoga e meditação “para ganhar consciência corporal”.

“O meu medo faz-me estudar mais os adversários, faz-me estudar mais, obriga-me a ir ao psicólogo e chorar, porque é isso que eu faço lá para entregar os meus medos e as minhas dúvidas. O medo leva-me a ser a primeira a chegar ao treino e a última a sair. Tudo isto para que o dia da competição seja um dia de festa”, frisou

Vanessa Fernandes falou do pós-carreira e do quão difícil foi aceitar o problema.

“O ano de 2017 foi importante, porque foi quando disse chega. E isso foi muito complicado. As ajudas que existiam para mim, na altura, eu não as conseguia agarrar, porque não confiava e porque sentia que ninguém me compreendia, além da vergonha imensa que tinha”, começou por dizer.

A vice-campeã olímpica falou do facto de todos verem o atleta como referência e da dificuldade deste em comunicar o que sente: “Tive de começar um processo de autoconhecimento, tem sido o meu trabalho nos últimos cinco anos, conhecer a minha história e o meu passado”.

Rosa Mota, campeã olímpica da maratona em Seul88, esteve presente na qualidade de espetadora e, sobre o assunto, disse nunca ter sofrido de distúrbios do foro mental enquanto competia, mas realça a importância que o tema começa a ter.

“Nunca senti necessidade deste tipo de ajuda. Sempre adorei treinar, sempre adorei competir, entendi sempre a competição como um desafio e não tive medo dos meus desafios e acho que me saí bem”, disse a antiga maratonista, agora com 64 anos, lamentado que estas iniciativas não tenham começado há mais tempo.

NR/HN/LUSA