Milhares de médicos de família de todo o país acordaram esta manhã para a impossibilidade de receber novos e-mails através do endereço profissional. Por motivos técnicos, os Serviços Partilhados do Ministério da Saúde (SPMS) cortaram a capacidade das caixas de e-mail dos profissionais de saúde de 50Gb para apenas 2Gb.

Os efeitos fizeram-se sentir pelo menos nas Administrações Regionais de Saúde do Centro, na região de Lisboa e Vale do Tejo e também no Norte, de acordo com fontes próximas da HealthNews. Ao final desta quinta-feira, alguns médicos começaram a recuperar acesso à sua conta de email, embora os emails antigos tenham todos sido movidos para uma pasta de “arquivo morto”.

Os médicos que já ocupavam 2Gb na sua conta de email viram-se impossibilitados de receber novas mensagens. Muitos estavam mesmo a ocupar mais espaço do que o permitido.

Numa nota oficial enviada à HealthNews, o SPMS esclarece que estabeleceu um novo acordo com a Microsoft para alargar a capacidade das caixas de correio destes profissionais de saúde. “O novo contrato com a Microsoft prevê um aumento da capacidade das caixas de correio eletrónico dos profissionais do Serviço Nacional de Saúde (SNS), bem como o alargamento dos serviços prestados”, pode ler-se no email.

“Com o novo contrato, as caixas de correio eletrónico com um armazenamento com capacidade de 2Gb e de 50 Gb, respetivamente, passaram a ter a capacidade de armazenamento online de 52 Gb (2Gb na caixa de entrada e os restantes 50Gb na caixa de arquivo online)”, acrescenta o SPMS.

Ainda assim, a entidade responsável pelos serviços informáticos do SNS não reconhece qualquer tipo de problema com as caixas de email dos médicos de família que tenha ocorrido durante esta quinta-feira.

De acordo com emails a que a HealthNews teve acesso, os médicos da ARS Centro foram avisados do sucedido a 1 de outubro. O mesmo não aconteceu para os médicos da ARS de Lisboa e Vale do Tejo, que foram esta manhã surpreendidos.

“De acordo com as orientações provenientes da SPMS em anexo e da informação do GSIC ao Conselho Diretivo da ARS Centro, houve necessidade de efetuar downgrades do tipo de licenciamento do Office 365 com a consequente redução do tamanho da caixa do correio de alguns dos colaboradores da ARS Centro (Ex: redução de 50 Gb para 2 Gb da caixa de correio do email institucional). Caso detete alguma anomalia no acesso ao seu e-mail institucional, por favor, contacte o GSIC”, pode ler-se na notificação enviada aos médicos da ARS Centro.

A situação é particularmente grave no contexto da atual pandemia de Covid-19, em que os médicos dependem do email para receber documentos como análises e resultados de exames, mas também para dialogar com os pacientes e até realizar consultas remotas.

Em causa está também a segurança dos dados removidos das caixas de mail dos médicos de família e outros profissionais dos CSP. Não se sabe quem os retirou e transferiu sem informação prévia e consentimento dos médicos. Foram transferidos para as pastas de “Arquivo Morto”, ou para a tal plataforma a que os SPMS se referem na sua nota?

Ordem dos Médicos quer rápida explicação do que se passou

A Ordem dos Médicos enviou esta manhã uma nota ao Ministério da Saúde em que pede rápidos esclarecimentos quanto ao que se passou ao longo do dia de quinta-feira, quando durante todo o dia centenas de médicos de família se viram impossibilitados de receber ou enviar emails através dos seus endereços institucionais devido a uma diminuição na capacidade das suas caixas de correio.

Na nota a que a HealhtNews teve acesso, fala-se numa “decisão unilateral e sem aviso prévio que constitui mais uma barreira inadmissível ao contacto dos doentes com os seus centros de saúde e torna-se especialmente grave no contexto
de pandemia que vivemos”.

Segue assim:

A Ordem quer rápida explicação sobre redução da caixa de email dos médicos de família

A Ordem dos Médicos tomou conhecimento, através das notícias e do relato de vários colegas, de que a capacidade das contas profissionais de email dos médicos de família foi drasticamente reduzida. Esta decisão unilateral e sem aviso prévio constitui mais uma barreira inadmissível ao contacto dos doentes com os seus centros de saúde e torna-se especialmente grave no contexto de pandemia que vivemos.

“A Ordem dos Médicos tem vindo a alertar para os grandes constrangimentos que se vivem nos centros de saúde e que são resultado da opção do Ministério da Saúde de manter os médicos de família desviados e focados no combate à pandemia, sem poderem continuar o atendimento aos seus doentes de sempre. A isto acresce a dificuldade antiga com as centrais telefónicas dos centros de saúde, que estão obsoletas e não permitem fazer um atendimento telefónico eficaz”, começa por explicar o bastonário da Ordem dos Médicos.

“Torna-se, portanto, incompreensível, inaceitável e até mesmo intolerável esta decisão de vedar aos médicos, aos outros profissionais e aos doentes o email enquanto ferramenta de trabalho e de contacto. Numa altura em que cresce a necessidade de troca de informação clínica por via digital, reduzir de 50Gb para apenas 2Gb uma caixa de correio é um sinal de falta de conhecimento e de falta de estratégia. Se os motivos financeiros estiverem de facto na origem desta decisão prova-se, uma vez mais, o desnorte com que a saúde de todos nós está a ser gerida, ignorando-se que o dinheiro que é hoje retirado sairá mais caro no futuro”, acrescenta Miguel Guimarães, que apela a uma “rápida explicação deste erro e reposição da capacidade de resposta”.

Lisboa 09 de outubro de 2020

USF-AN pede “recuo na decisão tomada”

Ainda ontem, também a USF-AN se manifestou junto do Ministério da Saúde quanto ao sucedido, pedindo um “recuo na decisão tomada” quanto à redução das caixas de email para “menos 25x do que o normal”.

“Tendo em conta que, infelizmente, continuamos com um cenário pandémico no país, surpreende-nos a última comunicação de algumas Administrações Regionais de Saúde (ARS), desencadeada pelos SPMS, EPE, que informa sobre a redução de armazenamento do email dos profissionais em 48 GB, ou seja, menos 25x que a capacidade inicial. Agravando esta situação, destacamos que falhou o aviso prévio em algumas ARS, apanhando assim os profissionais desprevenidos, tendo graves implicações nos contactos feitos via email por parte dos seus utentes”, queixa-se a USF-AN.

Mas a associação vai mais longe e acusa mesmo os responsáveis de contrariarem o Despacho nº 5314/2020, de 7 de maio.

“De acordo com a informação apurada, esta retirada de armazenamento baseia-se numa suposta não utilização do armazenamento do email por uma pequena parte de profissionais, o que no nosso entender perde qualquer poder justificativo da ação tomada na generalidade. Primeiro porque vai no sentido oposto do plasmado no Despacho n.o 5314/2020, de 7 de maio, e segundo porque continuamos a não ter um discurso dos nossos dirigentes alinhado com as ações e medidas adotadas. Continua-se a adotar medidas de regressão, no caso de serviços, em vez de se apostar na formação e apoio aos profissionais, de forma a que estes possam apropriar-se e utilizar, em benefício próprio e dos seus utentes, todas as potencialidades das ferramentas que dispõem”, continua a USF-AN.

“Por esse motivo, solicitamos um recuo na decisão tomada e uma rápida normalização dos recursos existentes, já por si, cronicamente, insuficientes reiterando a necessidade de uma aposta efetiva na formação e apoio às equipas e profissionais que, dia após dia, em condições adversas, dão o melhor de si pelo acompanhamento e saúde dos seus utentes”, conclui a associação defensora dos interesses das Unidades de Saúde Familiar.

Atualizado

João Marques/HN/MMM

 

Share This