Especialistas querem novo modelo de saúde com doentes no centro das decisões

Afinal o que significa acrescentar “valor em saúde”? Foi precisamente este o tópico de discussão que marcou a Cerimónia Pública de entrega das Bolsas “Mais Valor em Saúde – Vidas que Valem” e o critério-chave de seleção dos projetos vencedores que foram anunciados esta terça-feira.

A propósito da entrega de prémios um conjunto de especialistas da área da saúde juntou-se para debater o papel do doente como o centro das decisões. A necessidade de uma mudança de paradigma para o futuro da saúde foi o tema que dominou a discussão.

O painel contou com a participação de Ana Lúcia Melo, professora do ensino secundário e doente oncológica; Luís Santos Pinheiro, diretor clínico do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte; Catarina Batista, vogal da direção da Associação Portuguesa dos Administradores Hospitalares; Jorge Félix, diretor da Exigo; João Martins,  Director Market Access da Gilead e Manuel Delgado consultor e Diretor-geral da IASIST.

“O que é preciso fazer para conseguir colocar o doente no centro do sistema?” foi esta a pergunta que marcou o arranque da sessão. Em resposta, o consultor e Diretor-geral da IASIST, Manuel Delgado, destacou que essa mudança de paradigma só será alcançada quando o desempenho dos profissionais deixar de estar associado a prémios de remuneração.

Do ponto de vista do especialista a maior dificuldade do serviço público nacional passa por distinguir o valor criado pelos profissionais de saúde. “Temos que deixar de remunerar e premiar o desempenho dos profissionais pelo salário – muitas vezes associado a horas de trabalho. Aí o valor vai por água abaixo, porque não é aí que se cria o valor”, aponta.

Depois de reconhecer o ponto chave da mudança o Diretor-geral da IASIST lançou uma pergunta desafiadora: “Será que estamos dispostos, todos nós, a mudar o paradigma da remuneração? É aqui que vai bater o ponto da criação de valor.”

Na mesma linha de pensamento, o diretor da Exigo defendeu uma mudança em que os cuidados passem a ser organizados em torno do doente”. Jorge Félix destacou o papel do IPO de Porto, o qual já “faz alguma avaliação de satisfação de qualidade”. Para o dirigente, o valor em saúde deve ir ao encontro das necessidades do doente.  “Não temos ainda uma cultura generalizada, e penso que fará falta instituir, de mais valor e de colocar o doente no centro do sistema de saúde”.

O aumento de custos em saúde, o aumento da esperança média de vida, o desenvolvimento tecnológico e as novas formas de diagnóstico e tratamento têm sido apontados nos últimos anos como os possíveis fatores que colocam em causa a sobrevivência do SNS. Sobre este tópico João Martins considerou que estes fatores impeditivos de mudança “poderão ser resolvidos através da própria gestão de valor.” A questão do custo de introdução de novas tecnologias deveria vista pelo “valor que traz ao sistema”.

Mas afinal o que é necessário fazer para que o SNS consiga acrescentar valor na saúde dos doentes? Do ponto de vista de Catarina Batista, vogal da direção da Associação Portuguesa dos Administradores Hospitalares, tem de haver alinhamento entre os resultados clínicos, a satisfação dos doentes e a sustentabilidade do sistema. “O modelo de Value-Based Health Care deve a responder a estas questões”, garante.

No entanto, Catarina Batista admite que “é através do financiamento que vamos conseguir obter esta transformação.”

No debate foi também discutido o papel dos médicos neste novo modelo. O diretor clínico do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte assegurou que o papel destes profissionais nunca seria diminuído, “pelo contrário, seria incrementado e fortalecido”. “Tenho consciência de que geramos cada vez mais valor em saúde desde há vários anos.”

Luís Santos Pinheiro assegurou que os doentes têm noção do trabalho feito pelos médicos na criação de valor e contrapôs que “o problema está na maneira como organizamos, medimos e valorizamos a geração de valor”. “É irrelevante quantas consultas e cirurgias se fazem… Aquilo que é relevante é, quando abordamos uma patologia, o que é que resulta dessa intervenção.”

A forma como os doentes são tratados e o cuidado que é dado nem sempre é homogéneo. Foi o caso de uma professora do ensino secundário e do seu pai. Ambos diagnosticados com cancro no ano passado. Na sessão, o testemunho de Ana Lúcia Melo deu pano para mangas, uma vez que apesar da própria e do seu pai terem acesso ao mesmo centro de saúde os cuidados prestados divergiram de forma gritante.

No caso de Ana Lúcia Melo, o diagnóstico e acompanhamento foi “excelente”. Já o pai não teve a mesma sorte. Tratados por médicos diferentes médicos, o pai de Ana Lúcia Melo teve um diagnóstico bastante tardio. “O meu pai chegou a perder 20 kg em dois meses e havia um conjunto de sintomas que se agravavam de dia para dia”. Este viu-se obrigado a consultar um médico particular devido à falta de resposta do médico de família.

Do ponto da professora é essencial que os os médicos tenham mais atenção e preocupação com os doentes.

Questionado sobre esta disparidade de tratamento Manuel Delgado fala num problema de “falta de reconhecimento do sofrimento do doente”. Sem se querer alongar mais sobre o assunto o Diretor-geral da IASIST trouxe um outro tópico a debate: falta de governação clínica em hospitais e centros de saúde. “As grandes inovações que se têm feito na área da organização dos cuidados médicos são introduzidas muitas vezes pelos gestores e muito poucas vezes pelos médicos”.

Em resposta, o diretor clínico do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte admitiu que este possa ser o “Calcanhar de Aquiles” dos médicos. “Nas faculdades de medicina não há formação em gestão”, tendo impacto na criação de valor em saúde.

Um dos temas que encerrou o debate foi o desperdício em saúde e a falta de aposta na medicina preventiva.

Apesar das opiniões se dividirem entre os especialistas clínicos e os dirigentes empresariais todos defendem um novo modelo que tenha por base a criação de valor em saúde. Um modelo que não olha apenas para a sustentabilidade económica, mas sim promove a qualidade de vida dos doentes.

Reportagem de Vaishaly Camões

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