Agentes culturais de Macau lamentam efeito devastador de medidas antipandémicas

7 de Agosto 2022

A Associação dos Artistas de Macau alerta que o setor cultural sofreu um impacto "devastador" devido às fortes restrições fronteiriças, confinamentos parciais e quarentena impostas pelas autoridades no combate à pandemia da covid-19.

“O setor cultural tem sido devastado”, disse à Lusa o presidente e artista de Macau, Ken Sou Io Kuong, lamentando que “devido a tudo isso os eventos estão totalmente suspensos”.

“O setor cultural e de entretenimento e artes performativas não tem a certeza do tipo de apoio que receberá do Governo no futuro, porque a indústria do entretenimento não é uma necessidade na mente do público”, sublinhou.

Ken Sou Io Kuong explicou que as ajudas do Governo visam salvar primeiro setores da restauração e que garantam os meios de subsistência e que o esquema de apoios não contempla a indústria cultural.

“No setor cultural, muitos artistas fazem outros trabalhos em part-time, alguns deles até abandonaram esta indústria para trabalharem noutra coisa”, acrescentou.

Uma bailarina brasileira, Julia Moreschi, passou a ser instrutora de yoga devido à falta de oportunidades de dançar e de eventos.

“A indústria do espetáculo foi desaparecendo. (…) Basicamente todos os meus amigos bailarinos deixaram Macau”, frisou, salientando que por vezes ainda iam conseguindo alguns trabalhos, mas entretanto cancelados a partir dos confinamentos parciais.

Antes de 2020, detalhou, podiam ser contratados para dez trabalhos durante a época alta, mas este ano até agora só recebeu propostas para três.

Já o diretor e maestro da Orquestra Jovem Chinesa de Macau, Paul Cheong, adiantou que, antes de 2020, a orquestra tinha uma forte ligação com várias cidades na China e chegou a ser convidado a atuar na Ucrânia.

A pandemia afetou seriamente os intercâmbios culturais de Macau com a Área da Grande Baía, região que para além do território integra nove cidades da província chinesa de Guangdong e a Hong Kong. Bem como outras partes da China continental, acrescentou.

“Desde o surto, todas as atividades de intercâmbio cultural tiveram de ser terminadas (…). Receamos convidar instrutores e peritos estrangeiros para virem a Macau para atividades de mentoria, quanto mais para organizar eventos de intercâmbio noutras cidades fora de Macau”, sublinhou o maestro.

O antigo deputado da Assembleia Legislativa de Macau, Sulu Sou, chegou a acusar o Governo de discriminar o setor.

“Embora não tenha sido encontrado nenhum caso covid-19 ligado a teatros e outros locais culturais, foram sempre os primeiros a encerrar e os últimos a reabrir no meio de surtos”, escreveu nas redes sociais.

“Apesar de nos últimos dois anos e meio não ter sido detetada qualquer infeção relacionada com locais de artes performativas, só lhes foi permitido operar na metade da capacidade durante um período prolongado, antes de serem relaxadas as medidas pandémicas, permitindo-lhes funcionar a três quartos da capacidade, e sob condições”, acrescentou.

O território, que tinha registado cerca de 80 infeções de covid-19 até junho deste ano, viveu desde então o pior surto desde o início da pandemia. Mais de 1.800 foram infetadas, sendo que a maioria dos casos era assintomática, com o surto a causar ainda a morte a seis idosos, diagnosticados com doenças crónicas.

As fortes restrições fronteiriças, confinamentos parciais e o isolamento de partes da cidade em sintonia com a política de casos zero imposta por Pequim, a crise no turismo e na indústria do jogo tiveram um grande impacto na economia, muito dependente de turistas e dos casinos.

LUSA/HN

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