Almeirim “ensaia” estudo serológico sobre prevalência da covid-19

10 de Junho 2020

O concelho de Almeirim disponibilizou-se para “ensaiar” um estudo serológico sobre a prevalência da covid-19, coordenado pelo Instituto Gulbenkian de Ciência, tendo sido testadas 278 pessoas de “primeira linha”, numa amostra agora alargada a mais cerca de mil almeirinenses.

“Disponibilizámo-nos juntamente com a autoridade de saúde para servirmos de ‘teste’” ao estudo serológico nacional coordenado pelo Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC), disse à Lusa o presidente da Câmara de Almeirim (Santarém), Pedro Ribeiro.

Carlos Penha Gonçalves, que lidera o grupo de investigação sobre genética das doenças no IGC, disse à Lusa que, no âmbito do “roteiro” para vários estudos que se poderão fazer a nível nacional sobre seroprevalência da covid-19, a disponibilidade de Almeirim está a ser importante para “tentar perceber quais são os principais constrangimentos, as principais dificuldades de implementação destas metodologias”.

“Nós estamos só a preparar instrumentos e a afinar as metodologias que poderão depois ser aplicáveis em situações mais genéricas, eventualmente a nível nacional”, sendo objetivo “perceber se estes mecanismos funcionam e se podem ser uma solução para testes serológicos de maior dimensão e amplitude”, afirmou.

Além de Almeirim, concelho com uma dimensão mais rural, a equipa está a negociar a realização de um outro ensaio num meio mais urbano, adiantou.

O objetivo é ensaiar desde os métodos de análise aos questionários, permitindo perceber “quais são os principais constrangimentos, o que é que pode ser melhorado, o que pode ser mais eficaz”, salientou, dando como exemplo a formulação das perguntas do questionário a ser aplicado pelo Instituto Nacional de Estatística (INE).

“São estas pequenas dimensões que podem ser empecilhos a conclusões mais concretas”, disse, frisando que nesta epidemia “não há um padrão para seguir e as coisas têm de ser pensadas desde raiz”.

O Roteiro para a Testagem Serológica da covid-19 em Portugal, que tem por promotor o IGC e envolve uma vintena de investigadores, apresentado a semana passada, ambiciona conhecer a real dimensão da pandemia no país e fornecer instrumentos de apoio à tomada de decisão pelas autoridades sanitárias.

Carlos Penha Gonçalves sublinhou que este roteiro só se poderá concretizar com “muitas parcerias”.

“Este é um trabalho de grande fôlego e precisamos de mais parceiros”, disse, sublinhando a importância da realização de ensaios como o que está a decorrer em Almeirim.

Em maio foram testados no concelho 278 profissionais de saúde, elementos das organizações de socorro e segurança, funcionários do município e pessoas que foram infetadas pela covid-19 e aquelas que tiveram contacto com estas, tendo estado em quarentena.

Os primeiros resultados destes testes começaram a chegar no final da semana passada, revelando que apenas os infetados e os que estiveram em quarentena desenvolveram anticorpos.

Para Pedro Ribeiro, a ausência de anticorpos nos profissionais de “primeira linha” parece indicar que as normas de proteção usadas “funcionaram”.

Carlos Penha Gonçalves disse à Lusa que os resultados, ainda em fase de análise, foram “muito de encontro ao que se esperava, ao que muitos modelos matemáticos dizem”.

“Quer dizer que as previsões que existem, pelo menos, neste campo funcionam”, disse, não escondendo a “curiosidade” de saber se os testes que vão ser realizados na segunda fase, em 385 agregados familiares, revelarão diferenças em relação aos grupos de maior risco de exposição.

Pedro Ribeiro apelou aos munícipes que receberem uma carta a pedir a participação no inquérito e a permitir a recolha de sangue, para que colaborem.

Além da resposta ao inquérito, este grupo, estimado em cerca de 1.000 pessoas, é convidado a fazer o teste serológico nas unidades de saúde do concelho para verificar se têm anticorpos para a covid-19, mesmo que não tenham tido sintomas da doença.

O roteiro prevê o envolvimento do INE no desenho da amostra, com base no Inquérito Nacional de Saúde de 2019, e na aplicação dos inquéritos, das unidades de saúde para a realização das colheitas de sangue e dos municípios para o transporte.

O método proposto é o já implementado por um consórcio de institutos biomédicos portugueses (consórcio serology4COVID), disponibilizado ao Instituto Nacional de Saúde, usando os testes desenvolvidos com base no protocolo do investigador Florian Krammer, dado que “os resultados iniciais do processo de validação indicam que o teste tem 100% de sensibilidade e 99,4% de especificidade”.

A proposta é realizar primeiro um estudo piloto nacional, com uma amostra representativa da população do país, da ordem das 5.000 pessoas, “para uma primeira estimativa fiável da prevalência real da infeção”, considerado um conhecimento “essencial antes de uma eventual segunda onda”.

Numa segunda fase, o roteiro propõe um estudo longitudinal (com um seguimento trimestral) das pessoas testadas, que funcionarão como “população sentinela”, com o objetivo de “monitorizar as ondas da epidemia”.

Finalmente, um estudo mais vasto, junto de 25.000 a 30.000 pessoas, “com poder estatístico para gerar estimativas de seroprevalência com grande precisão”, lê-se no documento, o qual prevê ainda estudos parcelares, como os realizados junto dos profissionais de saúde dos hospitais de Lisboa e em casos suspeitos de infeção pelo novo coronavírus.

LUSA/HN

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