Unesco diz que a pandemia aumentou exclusão na educação

23 de Junho 2020

A pandemia da Covid-19 aumentou o número de alunos excluídos do sistema educativo, sobretudo nos países mais pobres, alertou esta terça-feira a Unesco, sublinhando que, durante o confinamento, 258 milhões de crianças ficaram sem aulas.

Cerca de 40% dos países com menos rendimentos não deram o apoio necessário aos alunos com menos recursos durante o período em que as escolas encerraram por imposição de um confinamento, refere a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) no relatório “Inclusão e educação: todos, sem exceção”, divulgado esta terça-feira.

“A pandemia da Covid-19 evidenciou e aprofundou as desigualdades, bem como a fragilidade das nossas sociedades”, considerou a diretora-geral da Unesco, defendendo que, hoje, “mais do que nunca, tem de haver uma responsabilidade coletiva no apoio aos mais vulneráveis e desfavorecidos”.

Segundo o relatório hoje divulgado pela Unesco, mais de dois terços dos países definem o que é educação inclusiva, mas apenas 57% dessas definições abrangem múltiplas formas de marginalização.

Nos países com rendimentos médios e baixos, destaca, os jovens mais ricos têm três vezes mais probabilidades de concluir o ensino secundário do que os de famílias mais desfavorecidas.

Embora o nível de rendimento familiar implique diferenças significativas entre alunos e seja a primeira forma de discriminação, há muitas outros fatores, como o género, a etnia, a origem ou até as capacidades.

Segundo a Unesco, apenas 18% das jovens de zonas rurais pobres conseguem concluir o ensino secundário em pelo menos 20 países, a maioria dos quais da África subsaariana.

Além disso, nos países da Europa Central e de Leste, as crianças ciganas continuam a ser marginalizadas nas escolas e, nos países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico), mais de dois terços dos estudantes imigrantes frequentam escolas onde pelo menos metade dos estudantes são imigrantes.

O documento também indica que dados recentes de 14 países mostram que as crianças com deficiência constituem 15% da população não escolarizada e as que têm deficiências sensoriais, físicas ou intelectuais têm 2,5 vezes mais probabilidades de nunca ter frequentado a escola.

“Milhões de pessoas estão a perder a oportunidade de aprender”, sublinha a Unesco no documento, pedindo aos países que repensem a educação inclusiva.

Os Estados devem “definir a educação inclusiva de maneira mais ampla: deve incluir todos os alunos, independentemente da sua identidade, origem ou capacidades”, recomenda a Unesco, explicando que “não se trata de criar um ministério de educação inclusiva, mas de não discriminar ninguém, não rejeitar ninguém [e ter] acomodações razoáveis para as diversas necessidades”.

Por outro lado, os governos devem “concentrar o financiamento” nos alunos que foram deixados para trás.

“A inclusão não existe quando milhões de pessoas não têm acesso à educação. Uma vez que os instrumentos legislativos existem para superar barreiras de acesso, como o trabalho infantil, o casamento infantil e a gravidez na adolescência, os governos devem ter uma abordagem dupla que canalize financiamento geral para promover um ambiente de aprendizagem inclusiva para todos os alunos e direcionado para recuperar os mais atrasados o mais rapidamente possível”, refere o documento.

Além disso, a Unesco recomenda que os recursos e materiais sejam mais bem geridos e também que os pais e comunidades sejam consultados antes de serem desenvolvidas políticas de inclusão na educação.

A organização defende ainda ser necessário estabelecer uma cooperação entre os diferentes ministérios, setores e níveis de governo, mas também deixar espaço para atores não-governamentais questionarem e preencherem lacunas, desde que “trabalhem em direção ao mesmo objetivo”.

As políticas de inclusão na educação também devem ser universais, considera a Unesco nas recomendações que avança no relatório hoje divulgado.

É preciso que “todas as crianças aprendam com base nos mesmos critérios flexíveis, relevantes e acessíveis”, o que também implica “preparar, capacitar e motivar o pessoal educacional”.

“Todos os professores devem estar preparados para ensinar todos os alunos. Métodos inclusivos não devem ser tratados como um tópico especializado, mas como um aspeto central da formação de professores”, sublinha a organização da ONU, propondo a criação de fóruns e plataformas nacionais, regionais e globais que promovam a partilha de conhecimento e a troca de experiências entre professores.

Por fim, a Unesco recomenda que sejam compilados todos os dados sobre inclusão “com cuidado e respeito, evitando estigmatizar e rotular”, a fim de “entender a magnitude das desvantagens daqueles que são marginalizados”.

A Covid-19 “deu ao mundo uma verdadeira oportunidade de repensar os nossos sistemas educativos”, afirmou o diretor do relatório, Manos Antoninis.

“A insuficiência de dados significa que não vemos uma grande parte do panorama. Não é de admirar que as desigualdades subitamente expostas durante a crise da Covid-19 nos tenham surpreendido”, concluiu.

LUSA/HN

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