A politização da vacina e o marketing de um produto

28 de Novembro 2020

A corrida à descoberta de uma vacina eficaz contra a covid-19 está “politizada”, optando-se por uma estratégia de marketing para um “produto” visando influenciar potenciais mercados com ganhos políticos e económicos, consideraram à agência Lusa três analistas portugueses.

Estados Unidos, com privados, China, com empresas públicas, Rússia, com o Estado, e União Europeia (UE) e Reino Unido, este sobretudo, com as universidades, são os principais “participantes” numa “corrida” em que o preço poderá ser mais acessível, sobretudo na América Latina em África, onde, aliás, já decorrem testes sem que haja ainda uma aprovação da comunidade científica.

Em declarações à Lusa, Álvaro de Vasconcelos, fundador do Instituto de Estudos Estratégicos e Internacionais de Lisboa (IEEI), Filipe Vasconcelos Romão, docente na Universidade Autónoma de Lisboa (UAL), e José Adelino Maltês, professor de Teoria das Relações Internacionais na Universidade de Lisboa (ISCSP), relevaram unanimemente a importância de o “produto final”, a vacina, ter um caráter “universal e não nacionalista”.

“Quer-se uma vacina universal e não a politização da vacina. A competição entre os Estados tem muito a ver com afirmações nacionalistas. Uma afirmação nacionalista da vacina não é o que precisamos neste momento”, frisou Álvaro de Vasconcelos, lembrando que o novo coronavírus já infetou cerca de 61 milhões de pessoas em todo o mundo e provocou mais de milhão e meio de mortes.

No seu entender, uma vacina universal é o que a China, Rússia, Estados Unidos e Europa precisam, uma vez que, sem ela, a pandemia continuará, porque “não se pode só tratar e pensar dos seus” para se pôr fim à pandemia. “Já vimos que, com a globalização, para as pandemias não há fronteiras”, frisou.

“Estamos perante um produto que é diferente dos outros, pois é uma vacina, um produto laboratorial, que será a descoberta científica mais importante das últimas décadas”, sublinhou, por seu lado, Filipe Vasconcelos Romão,

Para o docente na UAL, o modelo de investigação europeu e norte-americano, virado para o Ocidente, vai “beneficiar” com a compra maciça dos Estados, o que também incentivou o desenvolvimento tecnológico para chegar a uma vacina.

“Mas, depois, temos outros modelos, como no caso da China e da Rússia, que o próprio Estado, seja através de um fundo soberano, como a Rússia, seja do investimento via trocas comerciais, como a China, começaram também a desenvolver a pesquisa para encontrar uma vacina, sobretudo numa tentativa de, em primeiro lugar, garantir a afirmação de uma autonomia em relação a outros países, para não estarem deles tecnologicamente dependentes, e para conseguirem gerir e ter uma capacidade de influência sobre outros mercados”, explicou.

Para Filipe Vasconcelos Romão, é nestes termos que a China e a Rússia, que já assinaram contratos com vários países da América Latina e de África, acabam por conferir a esta vacina uma importância geopolítica e económica que não têm outros medicamentos, até porque, atualmente, “mais nenhum produto deste género está à escala global”.

Mais crítico, José Adelino Maltês releva que, além da força dos Estados, “há poderes no mundo de hoje que fazem parte das geoeconomias e da geofinanças, em que as principais potências são as sociedades farmacêuticas”

“As farmacêuticas e as empresas médicas são quem produzem e distribuem medicamentos, são potências dentro da geoeconomia e da geofinança. Perante esta pandemia, o poder das farmacêuticas notou-se e o que temos aqui é algo que temos de analisar, não apenas com os modelos da geopolítica, mas também da geoeconomia e da geofinança”, acrescentou, lamentando que algumas delas tenham surgido a indicar que têm vacinas prontas, mesmo antes de estarem aprovadas, através de comunicados na imprensa.

“Verificamos que as principais [farmacêuticas] são uma espécie de sociedades multinacionais com sede nos Estados Unidos, mas com alianças europeias. Quer a Rússia quer a China utilizam as suas entidades farmacêuticas para fazer concorrência dentro destes blocos. É a descodificação que podemos dar destas guerras da vacina”, sintetizou.

Mais a mais, tal como afirmou Filipe Romão, “haverá sempre uma politização” da vacina a partir do momento em que vai ser adquirida sobretudo por Governos nacionais ou transnacionais, como no caso da Comissão Europeia.

“Estamos perante um problema de saúde pública, gerido pelos Estados, e, logo, estamos no território da política. É evidente que vai haver uma politização da vacina, seja ela mais negativa ou mais objetiva. a política também é a gestão da coisa pública e esta pandemia SÓ se resolve através da gestão política, então, logo aí, estaremos sempre a falar de um fenómeno que implica um certo grau de politização”, argumentou.

Para os Estados Unidos, referiu Álvaro de Vasconcelos, mais do que uma manifestação de poder é um “efeito económico”, pois Washington está, paralelamente, preocupada com o declínio provocado pela pandemia e pela crise económica, em recessão, numa altura em que a China está a dar mostrar de conseguir resistir melhor à pandemia, que controlou.

“A China continua a crescer economicamente e procura mercados em África. A Rússia quer influenciar os países da esfera da antiga União Soviética e na América Latina. E, nos Estados Unidos, assistiu-se ao caso de [o Presidente cessante norte-americano, Donald], que anunciou que o país iria ter uma vacina antes das eleições, e que, depois, acusou as farmacêuticas de atrasarem o anúncio e de o prejudicarem eleitoralmente”, sustentou.

“Não diria que estamos numa guerra das vacinas a não ser num caráter mais nacionalista, ou seja, vacina primeiro para nós e depois para os outros. Aqueles que, no caso da Rússia, anunciam a vacina para os outros, estão a procurar a influência política em que a Rússia, e [o Presidente russo, Vladimir] Putin, procuram antes de tudo, a própria Rússia, porque a situação é gravíssima e Putin não tem permitido que haja toda a informação sobre a questão”, salientou Álvaro de Vasconcelos.

LUSA/HN

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